Apesar de estar súando olhava o céu e tudo o que enxergava eram nuvens. Era um dia estranho, fazia muito calor, porém não havia sol. Comentei com Michael, cobrador que é cliente fiel da minha barraquinha, esse fato, de certa forma, inusitado por esses lados, ele falou algo relacionado a “mormaço” que segundo ele é quando o sol não dá as caras, porém faz um calor infernal. Não tenho do que reclamar, graças ao tal mormaço vendi quase todo o estoque que tinha no freezer. Refri, suco, e picolé. Nada mais tenho a oferecer para qualquer pessoa que queira amenizar o tal mormaço. Ironicamente apenas água foi o que sobrou. Apenas duas garrafas.
Apesar de estar com o bolso forrado com papéis que movem a terra. Papéis de extrema importância para saber se uma pessoa é ou não digna de respeito e atenção. Papéis que deveriam ser movimentados por quem os possui, mas em um jogo inverso são eles que movimentam tanto quem os possui quanto os que não têm tal privilégio, sorte ou benção. Depende da avaliação de cada um. Apesar de possuir vários papéis desses no meu bolso, a altura do peito, pesando e forçando a costura do bolso da minha camisa de botão amarela, um pouco desbotada e com um cheiro de cigarro, que eu como fumante não sinto, mas minha mulher não me deixa esquecer, fazendo cara feia todo o dia que volto do trabalho. Já desconfio que o problema não seja a camisa.
Apesar de o que estar pesando, no lado externo do meu peito, dentro do meu bolso, ser motivo de felicidade e euforia para milhares de pessoas, tudo o que me trás, tal peso, é enfado e medo. Não consigo me sentir feliz a muito tempo. Sinto por vezes que me encontro no silencioso, como o meu celular, esquecido, e sem utilidade alguma. Mas seguido dessas tristes divagações, também penso que todos que trabalham por aqui sentem isso também.
Apesar de pequena a rodoviária me parece ser tão grande. A rodoviária é um lugar estranho eu sei que é limpo, mas tudo me parece muito sujo, mesmo muitos dos meus clientes sendo garis que ficam responsáveis pela limpeza do local, e trabalham super bem pelo que noto. A rodoviária é tão bonita no horário do almoço. Horário em que ela possui menos rotatividade, por vezes só eu estou aqui. Mas dura pouco tempo, no máximo 15 minutos. Cheguei a conclusão de que são as pessoas que deixam a rodoviária com um aspecto feio, cinza, distante. Quando estou sozinho, este lugar parece querer me pegar nos braços, me dar um beijo e desejar um bom dia. Bom dia, essa é afirmativa mais falsa da rodoviária, e normalmente vem seguida de “tudo bom?” que assume o posto da pergunta mais falsa.
Apesar do tempo estranho, ia cumprindo meu horário de todos os dias. Quando estava começando a recolher as placas e me preparando para fechar a barraca. Ouço alguém dizer – Olá, pode me dar uma informação – era uma voz angelical, de tom suave e recioso – prontamente virei-me em sua direção. Era tão linda. Pensei que estava frente a frente com um anjo. Seu aspecto de limpeza contrastava com o cinza daquela rodoviária. Usava roupas brancas que combinavam com sua pele, extremamente clara e seus cabelos loiros. A graça da moça era tanta, que perdi a noção de tempo, parecia estar em outra dimensão. Não a respondi, apenas a observei estático. Seus olhos azuis reprimiam qualquer ato a não ser observá-la.
Apesar de estar nervoso, fiquei calmo. Com um leve sorriso que alumiava a rodoviária, ela me perguntou como poderia pegar o onibus “desejo”. Mal sabia ela que eu era um Bonde chamado desejo. Expliquei a ela como poderia proceder para pegá-lo. Tanto era meu nervosismo que só depois me dei conta de que o tal ônibus, que ela me perguntou era o mesmo que eu habitualmente tomo para ir embora. Nem notou minha presença quando entrou no ônibus. Estava sentada ao lado do motorista em uma conversa sobre o ensino de Inglês nas escola, acho que era isso. Apesar de ela estar sentada no primeiro banco, sentei-me no fundo no último banco do lado esquerdo como de costume. O onibus não estava lotado mas quase todos os lugares estavam ocupados.
Apesar da moça aparentar riqueza, desceu em um bairro muito pobre, bairro horrível. Ela não poderia ser dali, mas o mundo é constituído de contradições. Desceu pela porta da frente, na descida o motorista piscou a ela, e o cobrador franziu as sombrancelhas. Apesar da aparencia inocente a moça parecia ser muito é da esperta. Apesar de estarmos no mesmo onibus, os bancos que nos separavam pareciam milhares quilometros de distância. Apesar de querer escrever mais vou guardar esses papéis na mochila, pois tenho que contar as moedas da passagem. A próxima parada é a minha.

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