Esperei para que os boatos sobre a suposta queda forçada do avião na França se concretassem para que só então comentasse o ocorrido. Penso que esse fato possibilita necessárias e urgentes reflexões. As vítimas foram europeias, o local é europeu, a companhia aérea é da Europa, o fato ocorreu entre uma viagem entre dois países no interior do continente, o terrorista era europeu e, como se não bastasse, a tragédia só foi plenamente possível devido à uma tecnologia europeia "projetada para defender-se de um possível ataque terrorista". E aqui reside a questão central: vivemos no seio de uma sociedade em que o terrorista é sempre o outro. Ninguém pensou que o inimigo poderia ser interno. Essa tragédia nos possibilita repensar e debater para que possamos vencer inúmeros paradigmas desse nebuloso e polêmico tema que é o conceito de terrorismo.
A imprensa, neste momento, segue buscando uma suposta causa para a atitude do alemão. Especula-se desde a relação familiar, a mãe, a vizinhança e até uma recente separação do sujeito. No entanto, creio que não haja causa. Vocês, que estão lendo este texto, nunca pensaram, enquanto observavam um abismo (ou o abismo os estava observando, como diria Nietzche) em atirar-se? Ou empurrar alguém que estava próximo? Vocês jamais pensaram ou sentiram-se seduzidos em fazer o proibido? Aquilo que ninguém espera só para ver a reação das pessoas? Isso me ocorre todos os dias em que vou para a biblioteca da Unisinos. Penso inclusive na repercussão que isso causaria por décadas. Chegariam calouros, supostamente da administração, daqui há sessenta anos e eles conversariam algo do tipo: "Dizem que um cara se atirou do quinto andar uma vez." E logo mudariam a temática da conversa para o clima. (Sim, sou doente). Nenhum de vocês teve vontade de queimar o contrato social em que implicitamente estamos inseridos? Luiz Vilela escreveu um conto chamado Abismos que aborda exatamente essa questão. Uma guria leva seu namorado para que contemplem as luzes da cidade do alto de uma montanha, quando, dizendo que não se sente bem, o namorado diz que quer ir embora e já no carro, questionado sobre o suposto mau súbito, o rapaz assume que teve uma inexplicável vontade de atirá-la lá de cima.
O ser humano tem impulsos inexplicáveis e deve entender que existe esse lado sombrio (Por vezes, demasiado sombrio) e que ele faz parte de nós. Enfim, aquele era um cara comum. Não há uma "causa". Acho até um pouco desrespeitoso falar em depressão, pois, segundo pesquisas, uma em cada dez pessoas sofre, já sofreu ou sofrerá dessa enfermidade, então, de alguma forma, isso é algo que deve e pode ser tratado. Reitero que penso que não há uma causa específica. Sem dúvida, nos deixaria mais tranquilos se aquele avião houvesse sido derrubado por um barbudo, se a caixa preta detectasse palavras de ordem em árabe. Entretanto, não havia motivo psicológico comprovado, tampouco motivos religiosos. Ele era um de nós, era "normal", e é isso que nos choca, que nos assusta. Entendo que as pessoas busquem uma explicação, pois essa explicação daria a possibilidade de entender para que se pudesse evitar. Mas não há explicação. Creio que o piloto cedeu a um dos tantos impulsos do ser humano que nos acometem diariamente. E isso é uma pena. Tome cuidado, principalmente com você.
.jpg)