"Não como porco porque porco come qualquer coisa"
Ariosto Ducchese
Escreveu Shakespeare que "o ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra." Depois de ler que nossa carne está adulterada, acho que veneno a mais, veneno a menos... Porém não escrevo para destilar ódio, ainda que espero que essas palavras sirvam como um forte empurrão.
Não sei se existe o termo "suicídio virtual". Caso exista, já passei da fase em que padecemos de uma depressão cibernética e estou no elevador subindo ao topo do prédio de onde, de braços abertos, me atirarei, mas, como cantou O Rappa, por se tratar de uma morte virtual: "vocês não vão ver os meus pedaços por aí".
Diz a Bíblia que "a lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado". O Facebook foi o responsável por mais um blackout. Digam-me como é que alguém pode ter qualquer iluminação quando memes cruéis predominam no Facebook após a triste constatação da adulteração nas carnes que levariam, segundo as investigações, até papelão.
Não necessito revelar aos meus amigos próximos o fato de que sou pobre, pois é bastante provável que eles também sejam. A pobreza nos foi passada por osmose. Cresci onde muitos nascem, mas poucos crescem. Meu bairro é um dos mais perigosos do estado. Esse desprivilegioso privilégio me foi muito útil. A vida aqui, se acompanhada da devida reflexão, ensina mais que qualquer graduação.
Lembro que se caçava ratão e lagarto aqui aos arredores para comer. Pombas, artigo de luxo, estava extinta no bairro. Meu bairro era a Síria das pombas. Eu tinha 13 anos quando, a caminho da escola, sobre o dique, avistei um mendigo segurando um cágado. Ao ver o morador de rua, radiante, pedi para segurar o cágado. Sorrindo, o simpático homem, estendendo os braços, disse: "Claro". Enquanto encarava o cágado recebia por parte do animal um olhar gélido, de uma indiferença tamanha que só voltaria a receber de uma professora que desnutria qualquer possibilidade de carinho por mim na graduação. Simultâneo a essa troca de olhares entre o cágado e eu, o mendigo comentou como quem não pôde conter a ansiedade: "Vou fazer uma sopa de tartaruga". O cágado, talvez não se reconhecendo como tartaruga, manteve o olhar de resignação. As perceptíveis notas de felicidade na voz do homem não foram capaz de impedir que eu arremessasse a tal "tartaruga" no meio do rio sob o olhar atônito do homem que experimentou uma súbita mudança no seu semblante. O homem olhou para mim, olhou para o rio, novamente para mim, fechou os olhos e desatou um choro desesperado. Soluçando, me perguntava o que comeria agora. Eu não havia pensado nisso. Improvisei uma desculpa sussurrada quando o homem já se afastava levantando poeira com a força que batia os pés no chão do dique em direção à vila. Fui para a escola cabisbaixo. Desde então busco pensar mais a fundo nas coisas.
Aos 13 anos, aprendi o que muitos vegetarianos beirando os 50 ainda não aprenderam. O vegetarianismo não se trata apenas de "salvar bichinhos". Há implicações bastante complexas nisso que vão muito além dos limitados polos de "bem" e "mal". Hoje me pergunto, onde aquele homem comeria agora? Comeria o sanduíche natural de R$ 25,00 do Food-Truck de vocês? Ou talvez assistiria a um vídeo de seus ídolos de culinária hipster para aprender a fazer uma lasanha de beringela? Talvez acompanhado de um delicioso suco verde? "Ele não poderia 'substituir' a tartaruga por, por exemplo, nada."
Diferentemente de vocês, jamais faria piadas com o uso colossal de agrotóxicos nos alfaces de vocês. Talvez sim, tiraria sarro da gourmetização de tudo o que vocês metem a mão. Quando cresci aprendi que o conceito de bom e mau é bastante relativo. No momento em que vocês querem "salvar bichinhos" vocês podem até por o pé no circulo do "bem", mas ao tentar fazer isso por meio de memes rindo da senhora de casa que bota a carne na mesa dos seus filhos, do aposentado que oferece um churrasco no domingo aos seus netos, vocês são arrastados pelo pescoço para a categoria de "crápulas" que são dezenove categorias depois do círculo do "mal". Valer-se de memes de desgraças alheias com a ideia do "bem feito" só reforça a ideia do Homer que no episódio "Lisa vegetariana", em coro com Bart, canta para a Lisa uma canção que tem como refrão: "não conquistas nada com uma salada".
Não apenas acho válido como sublime fazer piadas com a própria desgraça, com o Titanic afundando exigiria violinistas. Essas palavras vão endereçadas a quem utiliza esses memes sobre o ocorrido com as carnes com um ar de superioridade. Vocês oferecendo o veganismo se valendo dessa triste situação me faz lembrar de um cara de preto que estava no leito do meu avô oferecendo, minutos após sua morte, caixão. Percebo que o veganismo deixou de ser uma prática individual e se tornou uma espécie de religião moderna para os "cools" e os devotos, como rico ou político quando faz caridade, jamais perde a oportunidade de fotinhos e "hashtags". Concordo com o Pondé que escreveu que "toda a verdadeira virtude é silenciosa". E, como estamos falando de religião, Jesus, quando perguntado por um discípulo: "Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?", Jesus respondeu "Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete."
Quando vocês tiram sarro de quem come carne vocês mostram que não ligam para as pessoas. Vocês cagam pra minha saúde e do meu irmão e eu estou cagando para a galinha, o porco e a vaca de vocês. Mas, ao final, como recomenda Jesus, vocês tem meu perdão. E espero que me perdoem também. Só tenho uma dúvida: vegetariano pode comer do corpo de Cristo?
