A vida ávida há de me pagar com juros
E com seus muros, nunca mais me obstruir
Vou caminhando, vou sorrindo, vou cantando
Orgulhoso relembrando do berço onde nasci.
A guerra do amanhã se vence hoje
O açoite que insiste em me beijar
E me beijando deixa marca vitalícia
Cicatriz que não mitiga o desejo de cantar
Nesse meu samba que perpassa a aurora
E, agora, cruzará o amanhecer, eu,
No momento, imortal por esse canto, que
Seguirá com o vento misturado com meu pranto
A vida ávida há de me pagar com juros
E com seus muros, nunca mais me obstruir
Vou caminhando, vou sorrindo, vou cantando
Orgulhoso relembrando do berço onde nasci.
Oh pandeiro! Meu fiel acompanhante
É importante ter espírito guerreiro,
Tu és exemplo, pois apanhas todo dia
Mas és base nesse samba para minha poesia.
Meu holofote sempre foi a luz da lua,
Iluminando a rua onde me formei,
A malandragem é as vezes necessária
Assim como boa lábia para se formar um rei.
A vida ávida há de me pagar com juros
E com seus muros, nunca mais me obstruir
Vou caminhando, vou sorrindo, vou cantando
Orgulhoso relembrando do berço onde nasci.
Eu vivo no
Brasil, palco de muita barbaridade que posso presenciar a 22 anos - a verdade é
que os absurdos já datam de 500 anos, mas só posso relatar aquilo que
presenciei. Tendo em vista que a história é constituída – como uma colcha de
retalhos - de infinitas releituras dos diversos períodos oferecidas no varejo
das ideologias, prefiro ater-me à minha experiência para traçar uma escrita inédita, exclusiva e, se possível, intensa, sendo essa a diferença
crucial entre a vida e a história. A vida é inédita.
No Brasil, pagamos
impostos exorbitantes com a esperança – reforçada por um mito engessado somado
a um discurso batido - de que esse dinheiro retornará como investimentos públicos
para o bem comum. Ou seja, desembolsamos para que, ao menos na teoria, tenhamos supridas, pela esfera pública, nossas
necessidades no que tange à segurança, educação, saúde, infraestrutura, etc. No
entanto, o suporte que recebemos referente a essas questões soa como uma
ofensa. Somos submetidos à tamanha violência pela ausência desses serviços
básicos que nos vemos coagidos a pagar convênio particular, condomínio fechado e
vigiado, 24 horas, segurança particular, educação privada, além de todos os impostos embutidos no valor dos alimentos, roupas e outras necessidades básicas
para sobreviver pisando no limiar da vulnerabilidade.
Todos os
produtos que compramos contêm uma alta carga de impostos, que, em alguns casos,
ultrapassam o valor do próprio produto. Compramos carros e motos, não mais por
luxo, mas por uma questão de segurança e, claro está, econômica, sendo que, na
grande maioria das vezes, sai mais caro usufruir do transporte público do que
comprar um carro. Uso como exemplo o carro. Não entrarei no mérito da compra de
uma moto, porque, nesse caso, sempre é mais vantajoso se tornar um motoqueiro do que um zumbi de lotação.
Ouça o manifesto de um policial!
Ainda assim,
muitos brasileiros não se sentem indignados com a situação de descaso vigente
no país para com a população. Não
guardam mágoas, rancor e, consequentemente, não alimentam qualquer dose de
revolta que, segundo minha percepção, funcionaria como ponto de partida para
uma real mudança no panorama político. Estou muito feliz com as recentes manifestações,
quase não caibo em mim de tanto êxtase. Pensei que não viveria para presenciar isso. Mentira, ainda penso que sou imortal. Então vivenciaria isso de qualquer forma.
Mas, enfim, é
impossível não fazer aquela pergunta que cobre o futuro – ou a crença nele – com um manto revestido por uma miscelânea de otimismo e esperança: Agora, vai?!
Porém, no meio do caminho tem uma pedra. O problema agora não é tanto a mídia ou a polícia, e creio
que não sejam nem mesmo os políticos. O impedimento está dentro de casa. O empecilho que se materializa como algo a ser
combatido e, mais que isso, ignorado, é a classe de moralistas de botequim que
estão se sentindo ofendidos com os tumultos ocorridos nas manifestações. AS BADERNAS!
Nunca
acreditei muito em bipolaridade e sempre fui resistente a compactuar com a
crença nessa explosão de síndromes advindas da popularidade da psicanálise no
século XX. Porém, de uns dias para cá, estou sendo levado a repensar alguns
conceitos sobre os meandros da mente humana e os efeitos dessa complexa rede no
seu comportamento. Seres que compartilhavam em redes sociais imagens do Chico
Buarque com a frase “Eu não tenho medo das mudanças. Tenho medo de que as coisas nunca
mudem.” Manifestava-se de maneira contundente criticando o “jeitinho
brasileiro”, a “ignorância política”, a “ética” ausente no brasileiro, a
lamentável “alienação” do povo, a “cultura em decadência”, e todo esse
preconceituoso clichê que só contribui para a baixa autoestima do povo
brasileiro que nunca foi lá grandes coisas. Enfim, não
perdiam a oportunidade para tripudiar o povo brasileiro. Porém, muitos desses
ativistas hipócritas do senso comum estão rotulando como vândalos os
protestantes que foram às ruas manifestar seu repúdio ao circo que se tornou
o congresso nacional. E, respeitando seus instintos, estão, literalmente, tocando fogo na casa para se livrar dos ratos. Começo a pensar que alguns cidadãos criticavam as atitudes, segundo seu padrão de moral e ética, de acordo com o seu contexto, de seus compatriotas apenas como uma forma para sentirem-se enlevados de um upgrade moral ou, digamos, “pseudointelectual”. No entanto, simplesmente rotular o
vizinho de idiota não te torna inteligente.
O Salve
Geral do PCC conseguiu acordos com prefeituras, estados e com a união, tendo em
conta que o sistema penitenciário também é federal. Pode parecer pesado, até
ofensivo, o que irei argumentar aqui, mas o crime organizado demonstrou uma
unidade que fez com que diversas exigências fossem atendidas em prol do seu
interesse em questão de dias. O povo não! O povo ainda se divide por qualquer
intriga semeada pela mídia com a clara intenção de desestabilizar o movimento.
O pomo da discórdia da vez é a definição de violência e sua legitimidade dentro
de protestos políticos. O que pode e o que não pode em um ataque de fúria
alimentado por anos de indiferença. Só que na selva não tem leis
O que ainda
me surpreende no comportamento de alguns brasileiros é uma esquizofrenia
galopante. Somos submetidos a um panorama extremamente hostil. Somos postos à prova sob as situações mais adversas possíveis. Reclamar por ter respirado gás lacrimogênio, no âmago de uma revolta popular, no país onde crianças bebem leite com formol não me parece uma atitude muito coerente. Respiramos uma atmosfera vietnamita. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo e,
no entanto, temos como parâmetro de comportamento os ursinhos carinhosos, o Barney. Não tentemos bancar os Teletubbies atuando em Platoon. “Não tenha medo, pois você pode contar com seu carinho toda vez que precisar ”.
Não estou comparando o Salve Geral com as
recentes manifestações populares. Mas temos que ter em mente que, independente
do que você ache que consista em violência ou não-violência, essa não é a pauta
que deve receber prioridade no momento. As coisas precisam mudar. Isso é fato!
Nos últimos dias, o slogan do Tiririca não sai da minha cabeça, soando como um
mantra. Toda vez que penso nas futuras matizes das manifestações: “Pior do que
tá não fica”. E, analisando nosso âmbito político, abro mão da lei de Murphy e fico com a
ideia do parlamentar.
Fico
surpreso ao notar que muitas pessoas se sentem ameaçadas com a concretização do
abstrato. A possibilidade do que antes
era tido como impossível. Não consigo entender qual é o medo das pessoas que,
além de não estar colocando a cara na rua, querem regular o comportamento de acordo
com a sua dita "moralidade".
Eu não consigo interpretar tal comportamento
de outra maneira se não como um sadomasoquismo doentio para com seus
governantes.Todo o dinheiro ganho por
você, contribuinte, até o dia 23 de maio foi para manter a máquina do sistema
na ativa. Trabalhamos quase seis meses para pagar o parlamento. O custo do
congresso brasileiro é de R$ 11.545.00por minuto. Apenas o congresso, sem
contar as câmaras de vereadores e toda a arrecadação de impostos, que já ultrapassa os R$ 750 bilhões de reais. Cada parlamentar no
Brasil sai por R$ 10.200milhões de reais por ano. De acordo com minha
pesquisa, cada ônibus, custa em média R$ 180 mil. Mesmo que sejam vendidos
ao governo pelo dobro desse valor. Ou seja, na compra de um ônibus, o próprio governo ateia fogo
em um, pois se não fosse o superfaturamento daria para comprar o dobro.
Vamos aos cálculos:
Com
a exoneração de um deputado, poderíamos adquirir 53 ônibus novos para a população
por ano. Imagina, só... em quatro anos, período que consiste a um mandato, seriam uma frota de 212 novos veículos à disposição da população. Isso
com a exoneração de apenas UM deputado.
Somos
prostitutas de uma forma de governo insensível. Há muito tempo - se é que houve
tais tempos - não escolhemos representantes.Elegemos gigolôs a quem daremos
sustento com a água benta que nos brota da testa e a única certeza que temos
é a de que apanharemos no final do dia.
Fiquei
muito triste ao ser informado da morte do cantor Chorão. Já havia escrito em algum
lugar que as nossas lembranças - ao menos as minhas- são constituídas, assim
como organizadas, por coisas significativas: lugares, pessoas, músicas, etc.
Sendo assim, creio que uma música, muito mais do que uma simples melodia
acompanhada ou não de letra, pode ser um dos pilares que mantém a memória de
um tempo bom, viva, rija e acessível, ainda que engavetada nos subterfúgios do
inconsciente.
Porém, depois que esse tempo se vai, quando já dobramos algumas
esquinas da vida, já inacessíveis agora, dá-se aquele derradeiro momento em que
nos damos conta de que a paisagem que buscávamos como horizonte através do para-brisa,
hoje, repousa no retrovisor da vida. A partir
de então é que vamos buscar refúgio naquela antiga música que serviu de trilha
sonora para um momento agradável e outros nem tão agradáveis assim. A música é,
e sempre foi, um instrumento que transpõe barreiras, até mesmo aquelas a
princípio intransponíveis, como o tempo.
Hoje,
ouvindo a música de ontem, amanhã ouvindo a música de hoje. Ou, no caso das
gerações passadas, ontem ouvindo a música de anteontem, notamos o quanto
aquela canção continua despertando emoções tão intensas como outrora. Sensação
parecida com quando retornamos àquele local que serviu de pano de fundo para
vivências marcantes e significativas do passado que, no entanto, parecem presentes, quase
que a ponto de suscitar uma ressurreição em vida quando retornamos ao palco de
antigos roteiros, na época impreterivelmente improvisados, hoje todos escritos
e engavetados em folhas quase amarelecidas.
Enfim, são
essas remanescentes fagulhas de vida organizadas nos escaninhos da memória,
como que subterfúgios da alma que temos a felicidade e praticidade de poder
reviver através de um simples play ou de uma viagem - nesse caso, não só
espacial como temporal. Já dizia o sábio “Somos aquilo que o mundo fez de nós”.
A esse “mundo” atribuo a sociedade vigente na época de nossa educação.
Absorvemos influência de todos os lados. Acredito que nosso comportamento, também, na maioria
dos casos, de uma maneira complexa e subjetiva, é claro, é construído, mesmo
que uma ínfima parte, por nossos ídolos.
Assim como toda a criança e adolescente tive,
e ainda tenho meus ídolos, nos quais me espelhei.
Isso contribuiu significativamente para a construção da minha identidade.
Por essa razão, penso que nossa singularidade só é obtida através do contato
com as influências e o contexto no qual estamos inseridos, ou seja, somos seres
constitutivamente plurais. Necessitamos do outro para que possamos construir nossa identidade. Legítimas colchas de retalhos. Se existe um paradoxo
da raça humana que me fascina é o de construir sua singularidade a partir de
contribuições do plural.
Logo, sou o
que me cerca, e com isso quero chegar, ao que já disse em outras oportunidades:
“não morremos sozinhos”. Levamos conosco momentos, sentidos, e um pouco de
tudo aquilo que nos cercou em vida. Dessa forma, também não morremos
exclusivamente no momento em que nosso coração deixa de bater ou quando soltamos o último suspiro. A vida nos-vai
matando aos poucos. Todo dia tem em si um pouco de morte. Arrisco-me a dizer que a
maioria tem mais morte do que propriamente vida. Concordo com os otimistas que enxergam em cada nascer do sol uma nova vida, no entanto, sempre que possível acrescento que o nascer pressupõe o morrer e, consequentemente, mais um
pôr do sol que trará consigo a morte de mãos dadas ao amanhã. E esse sim é o
maior assassino de todos os tempos, o amanhã, e somos, todos nós, submetidos a resignarmo-nos para com a sua impune e implacável sede de sangue ao longo de todo o curso da humanidade.