sábado, 20 de setembro de 2014

Quem tem medo da polícia?




Há pessoas defendendo cegamente o policial que matou o camelô com argumentos de "ninguém mandou reagir", "quem não gosta de polícia é vagabundo", "quem não deve não teme", "vagabundo tem que morrer" e coisas do gênero. A cada dia que passa nossa sociedade legitima a mentalidade vigente de que policiais tem o direito de matar em prol das "pessoas de bem".  O famoso ditado de que devemos sacrificar o lobo para poupar a ovelha. O problema nesse raciocínio é que eu não me considero "uma pessoa de bem" (não confunda “pessoa de bem” com uma boa pessoa). Nunca tive amigos que foram “pessoas de bem”. Esse tipo de pessoa quase só vi pela televisão.

Quero, nesse breve texto, refletir sobre alguns dos tão disseminados jargões da família em relação ao abuso de força policial. 

“Ninguém mandou reagir”.

Só reagimos àquilo que não concordamos. A abordagem é diferente de acordo com a região em que a pessoa é abordada.  Não é nada agradável, e eu já passei por isso, ser tratado aos solavancos em uma abordagem policial com um soldado te sacudindo e gritando ofensas ao pé do ouvido e ter seus calcanhares chutados quando suas pernas já estão abertas. Tudo isso antes mesmo de perguntarem teu nome. O Brasil é o único país onde vemos disparos acidentais toda semana. As vítimas aqui também são previsíveis. São sempre as mesmas. Aqueles que não se enquadram no padrão Sheherazade.

"Quem não gosta de polícia é vagabundo"

Não vejo necessidade de me aprofundar na refutação dessa ideia tendo em conta a reiterada abordagem violenta praticada pela polícia em larga escala nos bairros pobres exposta acima. Como disse o pequeno príncipe, tatuado no corpo de um grande número de garotas: Você é eternamente responsável por aquilo que cativa.

"Quem não deve não teme". 

Por incrível que pareça, fui descobrir essa função “protetora” da polícia, quase na idade adulta,  quando - ao passear por um bairro nobre de Porto Alegre -  policiais parados, andando de bicicleta e, pasmem, sorrindo. No meu bairro, nunca via policiais. A segurança pública sempre foi ausente. No entanto, vez que outra, cantando pneus, com giroflex ligado surgiam soldados de armas em punho. Polícia no bairro gerava uma sensação incômoda, um clima ruim de problema não resolvido pairava no ar. A presença da polícia era seguida de medo e reclusão. Era não. Ainda é assim. Lembro que

“Entra pra dentro, vi uns carros de polícias andando pra lá e pra cá. Não te quero mais na rua.”

“Ahhhh... mãe!”

“Não tem A nem B! Tá cheio de carro de polícia aí! Quer morrer?!"


Assim, eu nunca “devi” nada para a polícia e, todavia, me cagava de medo! 
Creio que esse dito é o pior de todos e, depois de uma rápida análise, podemos identificar a raiz e a síntese do erro na mentalidade das “pessoas de bem”. A pessoa pode dever algo para um policial, mas como poderemos DEVER PARA A POLÍCIA? Alguém me explica? Aí está o erro. Ninguém deve nada para a polícia, senão para a justiça. A sociedade deve ter em mente que a polícia é um meio para a justiça e não um fim em si mesmo. A polícia não tem o direito de matar as pessoas. Independentemente do desejo de higienização da elite, não adotamos pena de morte no país. Um policial que mata. Na minha opinião, não passa de um mero assassino.


Que bom que existe o rap para proporcionar ao jovem uma reflexão sobre os problemas sociais. Quero encerrar este Desabafo com a música homônima de Marcelo D2:


                                        Tu quer a paz, eu quero também,
                                        Mas o estado não tem direito de matar ninguém
                                        Aqui não tem pena de morte, mas segue o pensamento.
                                        O desejo de matar de um Capitão Nascimento
                                        Que, sem treinamento, se mostra incompetente
                                        O cidadão por outro lado se diz impotente, mas
                                        A impotência não é uma escolha também
                                        De assumir a própria responsabilidade, hein?
                                        Que você tem em mente? Se é que tem algo em mente
                                        Porque a bala vai acabar ricocheteando na gente!







domingo, 7 de setembro de 2014

Povo que não tem virtude acaba por ser escravo?



                                                  
                                                                                         

"My eyes have seen the glory of the tramplin at the zoo
 We Washed ourselves in niggers blood and all the mongrals too
 We´re taking down the zog machine jew by jew by jew
 THE WHITE MAN MARCHES ON! "

                                                            Johnny Rebel






                                                          MA   -   CA    -    CO



Bastaram estas três sílabas serem flagradas em slow motion na boca de uma jovem loira, sem dúvida alguma, pertencente à tradicional elite brasileira, para gerar um frenesi na mídia e nas redes sociais sobre o tema do preconceito racial. A imprensa bateu forte no episódio e, por inúmeras vezes, o registro da moça gritando ofensas ao goleiro Aranha do Santos foi repetido e obteve repercussão mundial. Por consequência deste fato, o clube que a menina torce, por uma infeliz coincidência, o mesmo que o meu, acabou por ser submetido a um julgamento no STJD – Supremo Tribunal de Justiça Desportiva -, no qual acabou eliminado da Copa do Brasil, campeonato que estava disputando (e que eu estava crente que sairia campeão) quando ocorreu o lamentável episódio. 

No entanto, também achando exagerada a punição ao clube, compactuo com uma afirmação feita pelo presidente Fábio Koff, ao dizer que se a decisão acabar com racismo, o Grêmio fica felizDoce ilusão. Embora o racismo seja um problema escamoteado - historicamente varrido para debaixo do tapete, e, na maioria das vezes, visto como algo superado há muito, permanece de tal maneira arraigado à sociedade que esta mesma sociedade sequer enxerga o quão racista ainda é -  e muito.

Com o advento das redes sociais e a necessidade que seus usuários sentem de opinarem instantaneamente sobre todo e qualquer assunto sem a devida reflexão, se tornou muito comum saber qual é o pensamento corrente e verdadeiro, sem tempo para análises, das pessoas sobre, como já explicitei, os mais diversos temas. Assim, é muito simples termos uma ideia sobre o que defende o senso comum. Basta abrirmos nossas páginas na internet para sermos confrontados com inúmeras opiniões rasas, equivocadas e, PASMEM, racistas... e racistas pra caralho... PRA CARALHO!

Depois do lamentável fato ocorrido, como era de se esperar, o goleiro foi convidado a dar uma entrevista à televisão e, nesta entrevista, disse que o povo gaúcho é racista e insinuou também que isso pode ter raízes na colonização do estado. E eu concordo plenamente. Mas pelo jeito, apenas eu e ele. Pois dito isso, as redes sociais se tornaram verdadeiros campos de concentração. Mas, ao invés de alavancas ou interruptores,  o  disseminador do gás mortífero da ignorância era o famoso “publicar”.

Infelizmente, esse episódio de racismo deixou bem claro, ao menos para mim, o quanto ainda somos racistas e não reconhecemos. Levou-me a questionar em que estado vivem o restante dos  gaúchos, que copiosamente vociferam que o Rio Grande do Sul não é um estado racista. Das duas uma: ou nunca saíram do estado, ou nunca viajaram por ele. Ou, uma terceira e mais provável possibilidade, não sejam negros.

Eu não posso tratar essa questão do meu ponto de vista de branco, somente. Não posso afirmar convictamente que o estado não é homofóbico, racista ou elitista. Se eu não sou gay, negro ou pobre.

É fácil, apesar de extremamente desonesto, afirmar sem ressalvas que não há racismo quando você não é negro. Seguindo a mesma lógica, eu poderia afirmar, após um farto jantar, que a fome não existe. Além de parecer idiota, neste caso, estaria gravemente faltando com o respeito com todos aqueles que padecem deste mal que ainda assola uma parcela relativamente significativa da população não só brasileira como mundial. Fazer esse tipo de afirmações é de uma desonestidade intelectual sem tamanho.

Não se faz necessário sair pelo estado afora para comprovar a tese de que somos racistas. Faça isso de dentro do teu quarto. Abra a tua rede social e, por sua conta, faça a análise das publicações sobre o caso. Leia os comentários. Os gaúchos inverteram os papéis. A menina (vilã) virou vítima e o goleiro(vítima) virou o vilão da história. Ele se tornou o culpado por vivermos em uma sociedade preconceituosa e ela o ter chamado de “MA-CA-CO!... MA-CA-CO!”. Surgiram até fotos onde ela está próxima a uma menina negra. Lamentáveis publicações onde argumentam que ela tinha  “amigos negros”. Algo que me lembrou o infame argumento do "Eu não sou racista, já até peguei uma negra."

Eu, como gaúcho, tenho propriedade para dizer: o Rio Grande do Sul é um estado racista. O mais racista do país. “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo?”. Um gritante exemplo de racismo é que, além de inverter os papéis na história, no fundo, não estamos ligando para o caso. Continuamos não dando a mínima para o racismo. A maioria esmagadora das pessoas está mais preocupada em evitar generalizações do que discutir seriamente a questão e, assim, trabalhar para colocar a intolerância racial para fora e trancar a porta.

- O meu estado não é racista, o meu time não é racista, eu não sou racista; Logo, o racismo não existe.

 Outro comportamento tipicamente racista é o opressor apresentar um comportamento de vitimização frente ao historicamente oprimido. Como um constante desmerecimento da revolta de um negro ao ser chamado de macaco. Costumo exemplificar isso com a imagem de uma pessoa portando um fuzil carregado que,  a uma simples troca de olhares, levanta os braços e se diz ameaçada por alguém que está com um canivete na mochila. Na tentativa de atenuar a grave injúria racial, é comum argumentos como:

“Chamar alguém de burro pode, e negro de macaco é ofensa? Absurdo!”


Fica claro que devemos esclarecer algumas coisas. Ofensa é uma coisa. Chamar alguém de burro, gordo, filho da puta (como pululou inúmeras vezes em exemplos tentando atenuar a injúria) é ofender alguém pura e simplesmente. Agora, macaco dito a um negro constitui, obviamente, uma injúria racial, algo, ao menos na minha opinião, muito grave. 

Li até em algum lugar que a intenção da menina não foi ser racista, mas que "no calor do momento..." 

Bom... retornemos aos fatos. Ela não chamou o Aranha de "frangueiro", "mão de couve", "gordo", "filho da puta", "cara de cu", ou coisa que o valha,

                                                    ... mas...  

MA-CA-CO, como ficou bem claro nas reverberadas imagens e vídeos reproduzidos em larga escala na internet e televisão. Assim, discordo mais que plenamente de tal argumento. 




Houve também uma grande onda de ofensas ao goleiro pelo simples fato de não relevar tudo, manter-se de cabeça baixa e também por ter respondido às ofensas. (Que isso? Um negro me respondendo? Que ousadia!!).  

      Como escreveu Florestan: 
Em lugar de procurar entender como se manifesta o "preconceito de cor" e quais são seus efeitos reais, o homem branco suscita o perigo da absorção do racismo, ataca as "queixas" dos negros ou dos mulatos como objetivação desses perigos.
       O goleiro Aranha foi acusado por não ser humilde - conceito este, inclusive, que, apesar de não saber exatamente seu real significado, jamais o quero vinculado à minha pessoa. Penso que, no Brasil, um cara humilde e um cara bunda mole são expressões quase equivalentes. 

Darcy Ribeiro disse uma vez que na América latina podemos ser duas coisas: resignados ou indignados. 

         Menos o negro! Ao negro só lhe resta o papel de resignado. Um exemplo disso foi a exaltação ao ato de Daniel Alves ao comer a banana, num simbólico ato de resignação, e, na sequência, a ridícula campanha (publicitária) do #Somostodosmacacos. Podemos ver mais claramente a não aceitação da indignação de um negro nesse caso do Aranha. SOMOS TODOS MACACOS É O CACETE! É fácil dizer que "somos todos macacos" e, mais uma vez, tentar negar o racismo e a necessidade de enfrentá-lo. Creio que para superarmos a intolerância racial, antes de tudo, é necessário praticar a empatia. Calçar o sapato do outro. Colocar-se no lugar do outro.  Sempre foi usado, desde a época da escravidão, um argumento para justificar uma negação da humanidade dos negros e, consequentemente, poder escravizá-los. 

Mas o que será que significa para um negro ser chamado de macaco? Quando tu me chamas de macaco, por consequência, tu, mesmo que inconscientemente, estás negando minha humanidade e, como se não bastasse, estendes também tua injúria a todos os meus ancestrais, a toda uma raça, comparando-a com macacos. Se eu sou MA-CA-CO, minha mãe é uma MA-CA-CA, meu pai é um MA-CA-CO, meu avô era um MA-CA-CO? Mas estamos longe de calçar os sapatos e, assim, entender, pensar e respeitar o OUTRO

  
                                 


 Outro exemplo de racismo é o argumento usado contra as cotas, entendido, não como uma dívida histórica com os negros, e sim como uma "vantagem" dos negros sobre os brancos. Um raciocínio não só racista como ignorante de qualquer senso histórico do país. Tendo em conta que a discriminação que, como fica claro, ainda assola a nossa sociedade, é uma clara herança social escravagista. Pois como aponta Florestán, no livro "O negro no mundo dos brancos":
 Nenhum dele se levantou prol indenização do escravo ou do liberto, em consequência, os segmentos, a população brasileira que estava associada à condição do escravo ou de liberto vira-se nas piores condições de vida nas grandes cidades. Foram reduzidos a uma condição marginal, na qual se viram mantidos até o presente. Somente depois de 1945 começaram a surgir oportunidades reais de classificação na estrutura competitiva, ainda assim, para números limitados de indivíduos potencialmente capazes de terem êxito na competição sócio-econômica com os brancos (pág.43)




    Concluo que é inegável o fato de que no Brasil, o pobre tem cor. E, parafraseando o grande Marcelo Yuka, todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Mas, por desconhecimento, desonestidade, ou puro preconceito, fazemos de conta que o problema não existe ou, se existe, "não é um problema meu!"

   E, como cantou Lulu Santos, assim caminha a humanidade e, sem uma reflexão séria sobre o problema e com formadores de opinião vomitando besteiras ululantes, o racismo segue escamoteado e produzindo desde bananas atiradas em estádios de futebol a injúrias raciais e o genocídio negro que continua mundo a fora.... and the white man marchs on!




                                                              "Sou eu mesmo e eu, meu deus e o meu orixá. 
                                                               No primeiro barulho, eu vou atirar. 
                                                               Se eles me pegam, meu filho fica sem ninguém,

                                                               e o que eles querem: mais um "pretinho" na febem."

                                                                                                                          Racionais MC's



                                  











Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...