sábado, 15 de outubro de 2011

O grande assalto





Sentado no banco de uma praça à beira de uma avenida, desfruta da leve brisa que acompanha a noite. Seus olhos estão vermelhos e inchados sob o capuz escuro. Admira a intensa movimentação de carros na estrada, apesar da forte pancada de chuva que acabara de cair levantando um cheiro de terra molhada. Observa os faróis, apenas os observa. Belo jogo de luzes que emana das mais diversas latarias, verdadeiros holofotes do asfalto. Parecem aquecer as noites frias de quem não tem mais esperança. Não tem mais? Não, nunca teve. Nunca teve nada, o nada que sempre o teve. Frase confusa? Absurdo? Não, não sou maluco. Explicarei tudo.

Pablo tem 27 anos. Está sentado e observa algo enquanto fuma calmamente seu cigarro. Seu olhar é em direção a um muro chapiscado e sem janela. Um muro cinza. Como tudo ali, cinza como a fumaça de seu cigarro, cinza como o dia lá fora, cinza como seu uniforme, cinza como a vida da maioria de seus companheiros. Naquele lugar, até a comida possui um aspecto cinza.

Possui o olhar perdido, parece que não possui mais alma. É como um recipiente feito de pele, porém vazio. Não possui a matéria prima dos sentimentos. A parte física está intocável, mas falta algo. Lhe falta o abstrato que preenche cada um dos seres humanos. Com um olhar distante parece não fazer parte de tudo o que lhe cerca. Passa as mãos entre os cabelos, poucos cabelos. Seus dias, semanas, meses e anos se resumem em fazer com que o tempo passe. Ao contrário da sociedade que deseja desesperadamente que o tempo não passe ou que ele volte. A sociedade adora dizer que a vida é curta, na cadeia ela é demasiado comprida.

Na prisão, Pablo sofre com uma monotonia sufocante. Fechado, recluso, enclausurado o tempo parece não passar. O tempo parece se arrastar agonizando. Tem a impressão de que o relógio faz corpo mole quando não é fiscalizado de minuto em minuto. O relógio parece cochilar. Todos os dias são iguais, exatamente iguais. A ideia do suicídio está frequentemente assombrando sua mente. Na maioria das vezes, sente-se morto. Uma alma vagando na escuridão. Uma alma sem luz jogada ao limbo, esquecida e descrente de uma salvação. Apenas percebe que não está morto quando algum outro detento olha em sua direção e troca algumas palavras. Apenas assim Pablo sai do estado de Stand by.

Na prisão os valores se invertem. O dinheiro perde espaço e entra em cena um par de valores essenciais, a honra e a palavra. Exatamente ao que a sociedade contemporânea não dá mais valor. Mesma sociedade onde o dinheiro grita enquanto a palavra sussurra. Onde o dinheiro voa alto enquanto a honra se arrasta em um chão empoçado de lama. Uma coisa que Pablo sempre teve foi palavra e honra e através dessas dádivas conquistou muitos amigos, que dentro da cadeia não são apenas amigos, tomam outra proporção, tornam-se aliados. São chamados, entre si , de “guerreiro”.

Foi preso por tentativa de assalto a mão armada. "Caiu no 157" é o que diz seu irmão mais novo quando perguntam por Pablo, o "Águia". Baleado na perna, durante a tentativa de assalto ao Banco Santander em São Leopoldo, por um vigia escondido em um lugar estratégico. Quando a polícia chegou. Estava imóvel, sangrando, abatido. Não gritava de dor, apenas segurava a perna com os olhos fechados. Na periferia aprendera que homem não chora. Nunca demonstrou fragilidade. Nunca chorou na frente dos outros.

Pablo tinha 20 anos quando aceitou a missão. Tinha 13 quando pegou a primeira arma na mão. Pesado, gelado, e atraente o 38 reluzia enquanto Pablo o segurava. Reluzia e refletia o brilho nos seus olhos. Sentia-se forte. Seria respeitado. Foi até o espelho, fez diversas poses, segurando o revólver. A arma era de seu amigo Ricardo. Voltou para a casa decidido. Queria uma arma. Com 16 anos escondido de sua mãe adquiriu sua primeira arma. Coincidentemente um 38 cromado, que mantinha escondido em cima do forro do quarto. Nunca roubara ninguém na rua. Nunca tirara qualquer tênis do pé dos Playboy. Nunca roubara dinheiro de ninguém. Possuía boa índole. Nunca faria isso. Queria catar logo um banco.

Estava decidido iria andar de carro importado como o apresentador da TV. Daria uma boa casa para a sua mãe e sairia dali. Sairia daquela comunidade. Pablo era um rapaz bonito. Muitas meninas suspiravam ao tocar em seu nome. Nenhuma delas sabia onde ele morava. Tinha vergonha de dizer onde morava, jamais revelara a alguém. Apenas dizia que era em São Leopoldo. Desfrutava, através de sonhos, dos mais diversos bens materiais e luxos que sempre sonhou em possuir. Sabia que apenas o dinheiro poderia proporcionar tais mordomias. Caso a fita não desse certo com certeza morreria sem realizar seus sonhos. Nunca acreditou no velho "Querer é poder", pois se fosse assim todos os brasileiros estariam desfrutando de sonhos e desejos, o que não coincide com a realidade. Querer todos querem, mas só conseguem aqueles que PODEM. E pouquíssimos podem. Delírios de um menino inconsequente. Necessidade de saciar a adrenalina adolescente. Sentiu um calafrio percorrendo a espinha na manhã marcada para a missão. Teve sonhos esquisitos naquela noite, mas acredita que seja o nervosismo agindo sobre o inconsciente. Toma um banho demorado. Faz sua oração e segue para o local combinado para o encontro.

Lá dentro, frequentemente pensa. Se a razão da existência de prisões é recuperar um ser humano que errou e devolvê-lo a sociedade, então a instituição está falhando em seu intuito. Trancando pessoas como animais atrás de grades, largando-as ao léu, e esquecendo de sua existência. A cadeia tornou-se um depósito de pessoas, como se fosse um baú, onde o estado larga o que acha não prestar e fecha a sete chaves. Tentando maquiar a guerra civil não declarada que se instaurou no cotidiano do país. Qualquer idiota se dá conta de que depois daquele inferno a pessoa virá o próprio demônio, querendo acabar com tudo o que é “anjinho” da sociedade. A pessoa que sair de lá, sairá pior do que entrou. O ódio é um sentimento abstrato que concreta os corações. Ele mesmo tem muita raiva reprimida, de ser submetido àquela situação. Não tem mais brilho no olhar. Ele está vazio, não demonstra mais perigo. Um ser sem conteúdo, se tornou inofensivo.

No assalto eram três garotos. “Três bandidos” como estampava o jornal do dia seguinte. Dizem que teve sorte por ser o único que sobrevivente. Agora está jogado naquela pocilga. Seus outros dois amigos, "comparsas" segundo o mesmo jornal. Perderam a vida no local. Ricardo foi baleado na cabeça. Leandro foi atingido por dois disparos, um na altura do peito e outro que perfurou seu pulmão esquerdo. Debatia-se no chão enquanto se afogava com o próprio sangue. Morreram lá mesmo. Agonizando no chão frio daquele maldito banco. Seguravam firme os malotes. Ninguém se deu ao trabalho de chamar a ambulância. No chão, afogados em sangue, foi esse o triste fim da aventura dos três mosqueteiros. Tamanha era a inocência que não pensaram que o plano poderia vir a falhar. Ainda passam flashbacks na cabeça de Pablo. Enquanto entrava na viatura baleado, a multidão de curiosos aglomerava-se em frente ao banco. Ajoelhada no chão, ao lado do corpo ensanguentado, a mãe de Ricardo gritava. Aos poucos, como uma procissão a multidão se dispersava. Sozinho na viatura pensava, fudeu.

No julgamento foi considerado culpado. “CULPADO” essa palavra ecoava em sua cabeça durante esses 7 anos em que esteve preso. Sim, ele tentou cometer um assalto a banco, mas seria apenas ele o culpado? Um menino que desejava uma vida melhor, cercada de luxo para ele e sua mãe? "Tem que trabalhar", "Tem que estudar". É difícil se convencer disso, pois na comunidade apenas quem rouba é que anda de carro. Quem trabalha no país não recebe o devido valor. É humilhado, e recebe um salário ridículo. Não é justo sua mãe limpar a casa dos outros. Se humilhar para uma madame por uma diária miserável. Seu pai trabalhou a vida toda e nunca conquistou nada. Uma vida em vão. Morreu de cirrose ano passado. Desfrutava sua aposentadoria no bar da esquina cercado de prostitutas e empreendedores da vila, catadores de papel. Estudar também nunca foi saída pra ninguém, se professor que é professor vive reclamando do salário que tem. Cometeu o crime por diversos fatores exteriores que ele mesmo desconhece, porém apenas ele foi julgado. Quem seria o verdadeiro culpado?

Pode ser a TV. Alienando milhares de pessoas através de programas ridículos que extirpem o pouco de inteligência e dignidade que resta ao povo. Pregando que você é o que você tem e se não tiver nada você não é ninguém. Novelas onde personagens não se preocupam com trabalho e fazem mais sexo do que refeições. Plantam um mundico Gozolândia que a população segue cegamente acreditando se tratar de um padrão de vida. Pessoas correm atrás de uma vida baseada nas fotografias da revista Caras. Vida que jamais alcançarão, pois é falsa. Tudo extremamente falso. Uma vida onde só existe alegria, felicidade e glamour. Pessoas que não alcançam tal vida, se afundam em uma depressão profunda que acaba com milhares de vidas todos os dias. Não entendem que na vida até a tristeza é necessária, pois se não fosse ela, jamais acharíamos forças para correr atrás do que nos fará feliz.

Pode ser sua mãe. Que não o viu crescer. E não notou as distorções na cabeça do filho que foi criado pela televisão. Saindo para trabalhar ao nascer do sol e voltando para casa quando o sol ia embora, junto com seu bom humor, vitalidade, disposição, e calma. Sua mãe por passar a vida cuidando de filhos que não eram seus, dando toda a atenção e carinho para os filhos de sua patroa e nunca reservando um tempo para admirar seu próprio filho, seu crescimento, suas conquistas, quedas e avanços. Hoje em dia ela sente a falta que fez na vida de seu filho. Tem plena consciência de sua parcela de culpa, na situação em que o filho se encontra. A mãe ausente do passado ficou para trás, se faz presente em todo o dia de visita.

Quem sabe o culpado não seria o seu pai? Atrás de Olheiras gigantes e uma roupa maltrapilha. Bebendo a mesma bebida que patrocina a seleção de futebol. Engraçado. Na propaganda quando o boa pinta bebe a mesma cerveja que seu pai, aparecem lindas mulheres de todos os lados, pedindo um gole e se insinuando a ele com os corpos esculturais e semi-nús. No bar apenas quem flerta com seu pai a cada gole mais veemente é a morte. Ela acariciava a nuca de seu pai suavemente com a ponta da foice. A morte é tímida, agiu devagar e com muita cautela. Até que um dia conseguiu levar seu pai para a cama. O encontro foi tão intenso que ele não levantou mais.

Quem sabe o culpado seria o Governo? Esse sistema podre, esse jogo falido, onde trocam-se os jogadores anualmente, movimento repetido. Senadores, Deputados, vereadores, podem até entrar com um objetivo, mas quando o meio é podre, impossível não ser corrompido. Aparecem na comunidade e na periferia em toda a época de eleição, mas quando tomam o poder deixam uma pá de famílias na mão. O que resta do político que um dia pisou no chão da comunidade é o santinho com uma foto simpática e números bem grandes atrás. Feitos para qualquer retardado conseguir votar sem errar o número. Um a um eles são eleitos pela vila abandonada pelo governo mas de grande população, que é a primeira a ser visitada em ano de eleição. Depois de um comício caloroso e entrega de santinhos a eleitores, o Deputado toma três banhos pensando “ Odeio pobre”.

O culpado pode ser o povo. Uma massa facilmente manipulada a mercê de qualquer grande causa. Uma massa cega que procura a salvação em uma igreja, quando pequenos atos cotidianos podem tornar nossos dias mais agradáveis. Povo que aperta o orçamento para poder pagar o dízimo ao padre, enquanto o filho fica sem o brinquedo que tanto queria. A fé derrubando um a um dos soldadinhos de plástico. O mesmo povo que acaba com a vida ao seguir rigorosos dogmas religiosos, na esperança de obter uma vida plena em outra dimensão. Povo que deixa de lado o conhecimento para agarrar-se cegamente a fé. Até porque se fosse o contrário não seriam crentes ( aquele que acredita) e sim conhecedores ( aqueles que sabem ).

Quem sabe o culpado seria o próprio banco? Uma instituição que tem a petulância de arrecadar grandes quantias de dinheiro em um país onde pessoas não tem o que comer. Vagam como ratos nas ruas pedindo dinheiro, os mais loucos nem pedem mais. Milhares de reais parados em cofres. A solução para os problemas da comunidade. A solução para a depressão em que está afundado o povo brasileiro. A solução para sanar o complexo de inferioridade que se instaurou nas grandes metrópoles. “A solução” seria o dinheiro? Até que ponto?

O culpado pode ser o dinheiro. Dinheiro que confundiu as coisas, que já eram confusas por naturezas. Fez do mundo um inferno. Transformou o mundo em um jogo de eternos perdedores. Embaçou a visão sobre o que é se dar bem na vida. O dinheiro, que inverteu valores, forjou amores, desbotou as cores e matou as flores. Não se vê mais brilho no olhar. O dinheiro ofuscou a visão como um farol alto ao fim de uma viela escura. Fez as pessoas passarem a vida buscando algo que elas mesmas não sabem exatamente o que se trata.

Independente de quem seja o culpado Pablo está pagando. Pagando com a vida, ou melhor com a morte em vida. Situação que lhe é imposta naquele caldeirão do demônio. Frequentemente deseja morrer. Quem diz que ele teve sorte em não ter morrido não tem ideia do que é ser privado de sua liberdade. Não imagina como é triste saber que aquele período de sua vida jamais voltará. Longo período de sua vida que está sendo jogada no ralo. Naquele lugar, os dias de chuva são extremamente tristes e os de calor demasiado chato. Não existe lugar pior que aquele. Piores sensações são aquelas que o enclausuramento pode causar.

Condições propícias para um suicídio eficaz a prisão fornece aos montes. Os próprios carcereiros negociam giletes e venenos por maços de cigarro. Engraçado, fazem uma troca justa. A morte instantânea, rápida através de giletes, venenos, etc. obtida através de uma morte lenta com maços de cigarro e álcool contrabandiado. Algumas vezes, Pablo obteve tais instrumentos suicidas. Uma gilete da última vez. Sentou, fechou os olhos e respirou fundo. Inspirou todo ar a sua volta com o intuito de aproveitar seu último segundo de vida. Sentia raiva, nojo e muita mágoa desse mundo. Mundo injusto. Encostou a gilete na pele. Sentiu a gilete gelada sobre sua pele quente. Quase que pode ver o mar vermelho jorrando de seus pulsos. Quando teve um insight onde sua filha e sua mãe sorriam para ele. Estavam tão bonitas. As duas estavam vestidas de branco. Dizendo que estavam bem e que não deveria sofrer ou se preocupar. Pediam para que ele largasse aquela gilete e esquecesse dessa ideia absurda. Na despedida disseram que mais cedo ou mais tarde iriam se reencontrar, porém não seria mais nesse lugar. A princípio, Pablo não pode compreender.

Faltam apenas 24 horas para se considerar livre. Poderá conhecer sua filha. Poliana tem 6 anos. Nunca viu o pai. A mãe abandonara a criança com a vó Marta. Estava indo morar em São Paulo com o novo marido, um empresário com mais de 50 anos. Para que o empresário se casa-se com a jovem e atraente Viviane propôs uma condição: Ela deveria livrar-se da pequena Poliana. Assim então, Sem pensar duas vezes Viviane a largou em frente a casa de Dona Marta, mãe de Pablo, que com todo amor e carinho acolheu a neta. Prometeu a ela que veria o pai Logo, logo. Ele voltaria da "viagem" que fez ao Rio de Janeiro. A menina ainda comentou, que era engraçado, que agora que a mãe viajaria o pai iria voltar. A avó sorriu e abraçou a menina que com um sorriso também demonstrou que assim como a família sua dentição não era completa.

Hoje é o dia. Esperou 7 anos por esse dia. Não consegue ler, dormir, nem conseguirá comer nada. Não consegue concentrar-se em nada. Não suporta mais estar em companhia desse nada. Um nada que torna-se tudo. Um nada que, lá dentro, está ao seu redor frequentemente. Um nada que o preenche deixando-o completamente vazio. Um nada que o acompanha desde a primeira vez que ouviu o barulho das grades fechando atrás dele, essa é uma imagem que após 7 anos ainda continua muito presente . Acordou bem cedo e fez questão de ficar observando o sol nascer pela pequena janela de sua cela. Pela pequena janela, onde perpassam os primeiros raios de sol, tornando a cela de um aspecto cinza em uma sala de espera iluminada. Uma sala de espera, para o encontro com a liberdade. 7 anos esperando e finalmente chega a hora do encontro. Um encontro com quem antes nunca deu o devido valor, apesar de andar sempre ao seu lado. Como um velho clichê de histórias de amor. Passou anos ao seu lado, mas descobriu que a amava e que sua vida não tinha graça sem ela apenas após perde-la. Estava prestes a reconquistá-la. Depois de tanto tempo iria abandonar o nada e correr para os braços da Liberdade, que fez tanta falta.

O advogado de Pablo chega à prisão durante a tarde e não trás boas notícias. Na verdade tem uma notícia boa e outra notícia horrível. Pablo não cabe em si de tão contente quando avista Bernardo, seu advogado, da defensoria pública. O recebe com um sorriso que a muito tempo não visitava sua expressão apática, mas que logo é quebrado quando Bernardo não retribui o sorriso. Os sorrisos são temporários mas tristezas podem tornar-se marcas profundas na alma, e assim eternizar nas pessoas amarguras, apatia, depressão crônica. 

- Nem acredito doutor! Vou conhecer minha filha! Tu não tem noção de como eu tô feliz!
- Pablo! Não tenho boas notícias
- Como assim doutor? Não vou sair hoje? Minha soltura foi adiada?
- Não! Tudo ok com teu processo, agora mesmo vamos sair daqui, passar no departamento, pegar suas coisas e você é um homem livre. Mas...
- Então fala. O que foi? Mais uque?
- É que..hum...booom..
- Desembucha caralho...que que tá pegando, porra?
- Tua mãe e tua filha estavam na parada de ônibus para vir para cá e...
- Meu deus, o que tem elas? Fala doutor
- Calma... Você deve ficar calmo
- Eu tô calmo. Agora fala
- Elas foram vítimas de um acidente e não resistiram..... sinto muito!

Pablo ajoelha e fecha os olhos. Permanece assim por cerca de 40 segundos. O advogado fica surpreso com a reação do seu cliente mas não interfere. Melhor não interceder. Pablo abre os olhos. Vira as costas e sai caminhando em direção a portaria. Sem dizer nenhuma palavra o carcereiro responsável pelo setor entrega seus pertences e o deseja boa sorte. Pablo se dirige até a saída. Não terá problemas e nem interrupções pois todos estão cientes do problema que Pablo está passando e evitarão todo o tipo de burocracia perante sua saída. Pedido de Bernardo. Pablo não pertence mais àquele mundo.

Atravessou o muro, está do lado de cá. Resistiu, sobreviveu, foi jogado aos leões e voltou. Não tem mais amigos. Tinha dois mas morreram já faz 7 anos. Não tem mais família. O pai morreu de cirrose antes de sua prisão. A mãe e a filha morreram no dia que iria obter sua liberdade. Estavam em uma parada esperando o ônibus para encontrá-lo. Os olhos de Poliana brilhavam e ela não cabia em si de tão contente, iria finalmente ver o rosto de seu pai, conhecer seu cheiro, poder beijá-lo e abraça-lo como tanto sonhava. Levava consigo um desenho colorido e ao redor havia papel crepom. Desenho que fez na escola no dia dos pais. No desenho seu pai era um super herói, como na TV. Inocente, a pobre criança de sorriso cativante, nem imagina que o pai é tido como bandido. No desenho também tem um avião que segundo a menina representava "a viagem", que durou 7 anos, que o pai fez ao Rio de Janeiro. Pablo certamente adoraria receber o desenho das mãos da filha se o deputado não tivesse bebido e atropelado avó e neta. O corolla pegou os corpos em cheio. O deputado está livre, responderá em liberdade. Estava bêbado, mas não quis fazer o teste do bafômetro. Ninguém é obrigado a fazer prova contra si mesmo, é o que balbucia o advogado quando cita a constituição na abordagem. O direito a vida foi violado quando ouve a imprudência. De repente o advogado não conhecia essa parte da constituição. 

Quem seria o culpado por essa tragédia? Duas vidas foram tiradas e ninguém foi responsabilizado pelo crime. Não há culpados. Quem sabe o culpado é o carro? O Corolla branco 2010 que travou o velocímetro em 180 km/h. Ninguém foi preso. É como se as vidas fossem apagadas, sem ninguém as apagar. Pagar. Ninguém pagou. Pablo pagou e novamente está pagando. A tragédia o fez entrar em choque, perder a memória. Não lembra onde morava, não lembra de onde saiu, não lembra sua idade, não lembra porque está ali. Apenas caminha pela cidade. Desbrava a cidade enquanto o tempo fecha sobre sua cabeça. Tudo lhe parece novo, mas com um sentimento de velho. Sofre constantes Deja vús. Não tem memória, mas sente angustia, mal estar, e melancolia. Uma forte pancada de chuva cai sem cerimônia. Cobre a cabeça com o capuz escuro do moletom. Pablo desesperadamente atende a um pedido interno, saciando uma necessidade da alma. Chora. As lágrimas começam a rolar do rosto de Pablo e misturam-se com as gotas de chuva que voluntariamente lavam seu pranto. O céu parece chorar com Pablo, comovido com a situação do mais novo andarilho da noite. As lágrimas parecem brotar de seu rosto. Escorrem pelo rosto chegando à boca. Lágrimas com um gosto salgado. Pablo saboreia o amargo gosto da tristeza.

A chuva para de cair assim como as lágrimas. Pablo chega até uma praça e resolve descansar. Sentado no banco de uma praça à beira de uma avenida, desfruta a leve brisa que acompanha a noite. Seus olhos estão vermelhos e inchados sob o capuz escuro. Admira a intensa movimentação de carros na avenida, apesar da forte pancada de chuva que acabara de cair levantando um cheiro de terra molhada. Observa os faróis, apenas os observa. Parecem aquecer as noites frias de quem não tem mais esperança. Não tem mais? Não, nunca teve. Nunca teve nada, o nada que sempre o teve. Senta no banco da praça ao lado do nada. Está novamente com o nada. O nada o abraçou. Tomou-o para si. Nem lembra mais que amava a liberdade. Depois de anos ao lado do nada, aprendeu a amá-lo. O nada que nos preenche tornando-nos vazios.

sábado, 8 de outubro de 2011

Soturnos pesadelos



Larga o copo em cima da pia, mesmo notando que ela está suja. Encaminha-se para a cama. O escuro não representa empecilho algum pois a muito tempo faz esse caminho. Tanto da pia para o quarto quanto do quarto para pia ou dos dois para o banheiro. Ele ri com o canto da boca, pois pensa que se fosse cego ao menos dentro de sua casa se viraria relativamente bem.

Chega ao quarto e aproxima-se da beirada do box. Senta-se e após isso se esparrama pela cama. Ele está tão confortável que parece fazer parte da cama. Adormece e se desliga totalmente do mundo real caindo em um mundo totalmente abstrato. O sono e o cansaço que sentia dão espaço a realização e a satisfação de estar confortavelmente deitado.

Acorda de sobresalto. Teve soturnos pesadelos nos quais pessoas grudadas umas as outras pareciam sofrer muito, pois gemiam descontroladamente, diziam para que ele não fizesse aquilo. Uma senhora com um aspecto horrendo agarrava seu braço durante o pesadelo e sussurrava “Nãaaaaao faça isso”, crianças choravam e os demais seres ali presente gritavam. Tudo isso lhe parecia um mar de cabeças vivas, um mar de almas sofrendo separadas de seu corpo. Se existisse inferno ali era o lugar.

Não entende exatamente o que ele não deveria fazer. Preocupa-se, sente tanto medo que o rosto está ruborizado. Liga o celular e ilumina tudo ao seu redor. Disfarçadamente vai até a sala e  chama pelo seu gato. Tentará convencê-lo a fazer da cama seu aconchego esta noite, porém o gato é preto e dizem que dá azar. Vai que era isso que a velha feia do sonho estava tentando falar? Larga o gato e volta para a cama tentar retomar o sono interrompido.

Não consegue dormir após consecutivos sonhos em que almas sem luz o pediam para que “não fizesse aquilo” que ele não entende o que. Quando já está amanhecendo ele acorda com um pulo. Teve mais um pesadelo tétrico. Desta vez um coro de vozes sinistras pediam, imploravam para que ele "não fizesse aquilo". 

Ainda ouviu algo mais: Um menininho assustador pedia para que ele não se submetesse a tal tortura. Não submeter-se a tortura? Pensou consigo. Tortura é ter pesadelos a noite toda e não conseguir dormir. Com o dia raiando e sua veneziana cedendo espaço aos primeiros raios de sol. Ele resolve ficar acordado, com medo ter novos pesadelos. Procura o controle e liga a TV. Está passando o programa da Xuxa.


sábado, 1 de outubro de 2011

Prostituição cotidiana


Chega ao serviço assim que o sol se põe. Paquera os faróis que vagarosamente refletem sua imagem na lataria dos carros com a ajuda da luz que emana do poste. O poste é seu companheiro, a ilumina durante as noites que cumpre seu horário nas frias e solitárias ruas de São Leopoldo.

Seu cabelo negro como a noite que a acolhe contrasta de uma forma magnífica quando recai sobre seus ombros. Sua pele é branca como a neve. Seu corpo parece desenhado por deuses, que porventura,  desenhavam excelentemente bem.

Se fosse a Branca de neve, a história certamente teria um desfecho trágico. Os 7 anões se apaixonariam perdidamente por ela, e depois de uma crise de ciúmes a história terminaria com um grande derramamento de sangue, em uma batalha que teria como troféu a linda moça. O que motivaria qualquer um a lutar até a morte.

Hoje a noite irá mais cedo para a casa, precisa concluir seu trabalho para a cadeira de Direito penal IV. É aluna do 4° semestre de Direito. Recebeu diversas ofertas de estágio. Prostitui-se por opção e conveniência  financeira, que o mundo capitalista nos impõe. Ninguém mais do que ela sabe que não comete crime algum.

Quando pequena desejava seguir a carreira que um magistério seguido de uma licenciatura em Letras lhe proporcionaria. Com toda certeza seria uma ótima professora. Carismática, inteligente, esforçada e portadora de uma empatia incrível. A carreira educacional certamente deslancharia.

Cursou um ano de Magistério,mas depois notou que o sálario de professora não era algo digno à profissão. Desistiu da vida de professora. Acha besteira essa falácia de que dinheiro não importa. Quem diz que dinheiro não importa na maioria da vezes são aqueles que o possuem.

Sua vida é repleta de julgamentos de falsos moralistas que nem mesmo refletem sobre suas vidas ou suas palavras.  Palavras que não pesam mais na vida de Carla, mas que já pesaram e quase a levaram a buscar um refúgio em linhas brancas que são muito requisitadas nas noites de São Léo.

Durante o dia, vê diversos tipos de prostituições as quais as pessoas são submetidas e nem mesmo se dão conta. Porque é tão julgada? Foram criadas barreiras fortemente intransponíveis para a mente das pessoas, verdadeiros nós , que dificilmente serão desatados. Prostituição é o uso degradante das pessoas.

Ela acredita que as piores prostituições são aquelas nas quais as pessoas usam camisetas de campanha política e portam bandeiras em esquinas, seguram faixas em frente à sinaleiras, vendem sua ideologia por preço de banana. Pessoas alienadas dão o seu voto... “DÃO O VOTO” pensa Carla enquanto levemente balança a cabeça em sinal de desaprovação.

Pessoas nos centros das grandes metrópoles com camisetas de grandes indústrias entregando panfletos. Seres humanos abaixo de uma fantasia pesada em frente a lojas de calçados, sob o sol, para alegrar os outros, ganhando diárias de entristecer até mesmo o mais feliz dos palhaços.

Nascer, prostituir-se, e morrer. Esse virou o destino de todos que sobrevivem nas grandes cidades, verdadeiras selvas de pedra. A vida é um jogo em que a maioria dos jogadores começam perdendo e com vários pontos a menos. Dificilmente alguém consegue virar esse jogo.

Verdadeira traça de biblioteca, leitora compulsiva. Lembra de um velho provérbio italiano que diz “Ao final do jogo, peão e rei voltam para a mesma caixa”. O que a maioria das pessoas não aceitam, criando lares pós morte que abrigarão moralistas, lugares que ela não tem a mínima ambição de ocupar.

O Honda Civic prata reduz a velocidade ao avistar a bela mulher, para junto ao acostamento e aguarda com intuito de que ela se aproxime e acerte o preço por uma injeção de vida, êxtase, e relaxamento frente às tensões diárias. Ela adentra o carro que arranca devagar, na traseira o adesivo da família feliz se afasta.

Uma hora depois ela está de volta a mesma esquina, a esquina de sua escola. Escola onde concluiu seu Ensino Médio através de elogios e ótimas notas, nunca reprovou. De volta ao poste que ilumina sua cabeça em frente à igreja formando uma espécie de aura divina. Maria Madalena do século 21.

Estranha ironia. Quando a noite cai mudam os jogadores no jogo da vida. Marquises de igreja se tornam abrigos para mendigos. Quando as luzes do teatro dão lugar à escuridão e as cortinas se fecham entram em ação os coadjuvantes, vultos cinzas. Numerosos vultos portadores de título de eleitor.

O seu expediente é demarcado pelo crepúsculo, que dá adeus ao dia e após um tempo saúda a chegada de mais um, parecido com o que  passou, mas nunca o mesmo. Nunca. Sabe que cada dia é único, assim como cada cliente, alguns são chuvosos outros ensolarados, mas todos passarão. 

Alcançou sua meta, após alguns programas resolver ir para a casa. Entra no s carro e vai rumo ao apartamento. Chegando ao seu destino toma um banho e tenta concentrar toda a energia aos estudos. Notebook, livros, e luminária móvel sobre a escrivaninha.

Mora sozinha, não acredita em amor. Na sua opinião é a nostalgia do que foi vivido que as pessoas nomeiam “amor”. Fechou-se por conveniência, nunca houve insistência. Amor para ela não representa consistência. Isso nunca soou como penitência disso tem plena consciência.

Deixa a papelada de lado, vai até a geladeira. Cata uma jarra de suco de uva, uma taça e passo a passo encosta-se a janela. Observa como a cidade renasce pouco a pouco e as luzes regem uma espécie de orquestra silenciosa que perpetua a rotina da sociedade.

Entre um gole e outro de suco perde-se em um mar de pensamentos que a dominam. Olhando lá de cima nota como os seres humanos parecem bactérias proliferando-se aos montes conforme o crepúsculo matinal  que dá boas vindas a um novo dia.

O sono se espalha pelo corpo como uma dose de morfina injetada em algum dos braços e que agora começa a surtir efeito. A cabeça dói um pouco e começa a sentir aquela nostalgia típica das pessoas que são vítimas da insônia. Coloca as mãos no bolso do moletom. Não quer mais suco. Guarda a Jarra e a taça, ambas vazias.

A manhã se instala aos poucos. A rua é dominada por carros, as calçadas por pessoas atrasadas, confusas. As cortinas se abrem e as luzes acendem, entram em ação os protagonistas do cotidiano. A multidão sem rosto que cumpre seu papel. A bela moça adormece enquanto as veias da cidade pulsam a todo o vapor. 

A paz e a tranquilidade da noite dão lugar ao caos diurno, capaz de estressar o mais controlado dos monges budistas. Ela dorme, seu olhos estão fechados, mas seu pensamento é aberto, diferentemente, lá embaixo, as pessoas estão acordadas com os olhos abertos, mas o pensamento fechado, em um sono profundo.

Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...