quarta-feira, 19 de junho de 2013

Manifesto de um selvagem



Quando a lei for iníqua não devemos obedecê-la.  
                                                           Ruy Barbosa


Eu vivo no Brasil, palco de muita barbaridade que posso presenciar a 22 anos - a verdade é que os absurdos já datam de 500 anos, mas só posso relatar aquilo que presenciei. Tendo em vista que a história é constituída – como uma colcha de retalhos - de infinitas releituras dos diversos períodos oferecidas no varejo das ideologias, prefiro ater-me à minha experiência para traçar uma escrita inédita, exclusiva e, se possível, intensa, sendo essa a diferença crucial entre a vida e a história. A vida é inédita.

No Brasil, pagamos impostos exorbitantes com a esperança – reforçada por um mito engessado somado a um discurso batido - de que esse dinheiro retornará como investimentos públicos para o bem comum. Ou seja, desembolsamos para que, ao menos na teoria, tenhamos supridas, pela esfera pública, nossas necessidades no que tange à segurança, educação, saúde, infraestrutura, etc. No entanto, o suporte que recebemos referente a essas questões soa como uma ofensa. Somos submetidos à tamanha violência pela ausência desses serviços básicos que nos vemos coagidos a pagar convênio particular, condomínio fechado e vigiado, 24 horas, segurança particular, educação privada, além de todos os impostos embutidos no valor dos alimentos, roupas e outras necessidades básicas para sobreviver pisando no limiar da vulnerabilidade.

Todos os produtos que compramos contêm uma alta carga de impostos, que, em alguns casos, ultrapassam o valor do próprio produto. Compramos carros e motos, não mais por luxo, mas por uma questão de segurança e, claro está, econômica, sendo que, na grande maioria das vezes, sai mais caro usufruir do transporte público do que comprar um carro. Uso como exemplo o carro. Não entrarei no mérito da compra de uma moto, porque, nesse caso, sempre é mais vantajoso se tornar um motoqueiro do que um zumbi de lotação.    
                                             
                                           Ouça o manifesto de um policial!


Ainda assim, muitos brasileiros não se sentem indignados com a situação de descaso vigente no país para com a população.  Não guardam mágoas, rancor e, consequentemente, não alimentam qualquer dose de revolta que, segundo minha percepção, funcionaria como ponto de partida para uma real mudança no panorama político. Estou muito feliz com as recentes manifestações, quase não caibo em mim de tanto êxtase. Pensei que não viveria para presenciar isso. 

Mentira, ainda penso que sou imortal. Então vivenciaria isso de qualquer forma.

Mas, enfim, é impossível não fazer aquela pergunta que cobre o futuro – ou a crença nele – com um manto revestido por uma miscelânea de otimismo e esperança: Agora, vai?!

Porém, no meio do caminho tem uma pedra. O problema agora não é tanto a mídia ou a polícia, e creio que não sejam nem mesmo os políticos. O impedimento está dentro de casa.  O empecilho que se materializa como algo a ser combatido e, mais que isso, ignorado, é a classe de moralistas de botequim que estão se sentindo ofendidos com os tumultos ocorridos nas manifestações. AS BADERNAS!


Nunca acreditei muito em bipolaridade e sempre fui resistente a compactuar com a crença nessa explosão de síndromes advindas da popularidade da psicanálise no século XX. Porém, de uns dias para cá, estou sendo levado a repensar alguns conceitos sobre os meandros da mente humana e os efeitos dessa complexa rede no seu comportamento. Seres que compartilhavam em redes sociais imagens do Chico Buarque com a frase “Eu não tenho medo das mudanças. Tenho medo de que as coisas nunca mudem.” Manifestava-se de maneira contundente criticando o “jeitinho brasileiro”, a “ignorância política”, a “ética” ausente no brasileiro, a lamentável “alienação” do povo, a “cultura em decadência”, e todo esse preconceituoso clichê que só contribui para a baixa autoestima do povo brasileiro que nunca foi lá grandes coisas. Enfim, não perdiam a oportunidade para tripudiar o povo brasileiro. Porém, muitos desses ativistas hipócritas do senso comum estão rotulando como vândalos os protestantes que foram às ruas manifestar seu repúdio ao circo que se tornou o congresso nacional. E, respeitando seus instintos, estão, literalmente, tocando fogo na casa para se livrar dos ratos. 

Começo a pensar que alguns cidadãos criticavam as atitudes, segundo seu padrão de moral e ética, de acordo com o seu contexto,  de seus compatriotas apenas como uma forma para sentirem-se enlevados de um upgrade moral ou, digamos, “pseudointelectual”. 

 No entanto, simplesmente rotular o vizinho de idiota não te torna inteligente.

O Salve Geral do PCC conseguiu acordos com prefeituras, estados e com a união, tendo em conta que o sistema penitenciário também é federal. Pode parecer pesado, até ofensivo, o que irei argumentar aqui, mas o crime organizado demonstrou uma unidade que fez com que diversas exigências fossem atendidas em prol do seu interesse em questão de dias. O povo não! O povo ainda se divide por qualquer intriga semeada pela mídia com a clara intenção de desestabilizar o movimento. O pomo da discórdia da vez é a definição de violência e sua legitimidade dentro de protestos políticos. O que pode e o que não pode em um ataque de fúria alimentado por anos de indiferença. Só que na selva não tem leis 

O que ainda me surpreende no comportamento de alguns brasileiros é uma esquizofrenia galopante. Somos submetidos a um panorama extremamente hostil. Somos postos à prova sob as situações mais adversas possíveis. Reclamar por ter respirado gás lacrimogênio, no âmago de uma revolta popular, no país onde crianças bebem leite com formol não me parece uma atitude muito coerente. Respiramos uma atmosfera vietnamita. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo e, no entanto, temos como parâmetro de comportamento os ursinhos carinhosos, o Barney. Não tentemos bancar os Teletubbies atuando em Platoon. 

“Não tenha medo, pois você pode contar com seu carinho toda vez que precisar ”.  



Não estou comparando o Salve Geral com as recentes manifestações populares. Mas temos que ter em mente que, independente do que você ache que consista em violência ou não-violência, essa não é a pauta que deve receber prioridade no momento. As coisas precisam mudar. Isso é fato! Nos últimos dias, o slogan do Tiririca não sai da minha cabeça, soando como um mantra. Toda vez que penso nas futuras matizes das manifestações: “Pior do que tá não fica”. E, analisando nosso âmbito político, abro mão da lei de Murphy e fico com a ideia do parlamentar.

Fico surpreso ao notar que muitas pessoas se sentem ameaçadas com a concretização do abstrato.  A possibilidade do que antes era tido como impossível. Não consigo entender qual é o medo das pessoas que, além de não estar colocando a cara na rua, querem regular o comportamento de acordo com a sua dita "moralidade".  

Eu não consigo interpretar tal comportamento de outra maneira se não como um sadomasoquismo doentio para com seus governantes.  Todo o dinheiro ganho por você, contribuinte, até o dia 23 de maio foi para manter a máquina do sistema na ativa. Trabalhamos quase seis meses para pagar o parlamento. O custo do congresso brasileiro é de R$ 11.545.00 por minuto. Apenas o congresso, sem contar as câmaras de vereadores e toda a arrecadação de impostos, que já ultrapassa os R$ 750 bilhões de reais. Cada parlamentar no Brasil sai por R$ 10.200 milhões de reais por ano. 

De acordo com minha pesquisa, cada ônibus, custa em média R$ 180 mil. Mesmo que sejam vendidos ao governo pelo dobro desse valor. Ou seja, na compra de um ônibus, o próprio governo ateia fogo em um, pois se não fosse o superfaturamento daria para comprar o dobro.  

Vamos aos cálculos:

Com a exoneração de um deputado, poderíamos adquirir 53 ônibus novos para a população por ano. Imagina, só... em quatro anos, período que consiste a um mandato, seriam uma frota de  212 novos veículos à disposição da população. Isso com a exoneração de apenas UM deputado.


Somos prostitutas de uma forma de governo insensível. Há muito tempo - se é que houve tais tempos - não escolhemos representantes. Elegemos gigolôs a quem daremos sustento com a água benta que nos brota da testa e a única certeza que temos é a de que apanharemos no final do dia.







Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...