sábado, 24 de setembro de 2011

Pequeno inconveniente

    
Estava quente. Suávamos muito. Sua respiração estava ofegante. Ainda que minhas palavras tentassem tranquilizá-la. Envergonhada, ela disse que era a primeira vez que passava por aquela situação. Eu, no entanto, estava tranquilo, pois já me considerava um perito naquele assunto e, modéstia a parte, faço isso com uma destreza impressionante. Disse a ela que não se preocupasse, porque já havia passado por aquilo, porém a maioria das minhas experiências anteriores haviam sido com meninos- meninos muito próximos a mim, é claro. Realmente, já tinha passado por essa situação diversas outras vezes. Disse-lhe que aquilo era normal e para que não ficasse nervosa: "Irão acontecer diversas outras vezes em sua vida. Essas coisas são inevitáveis. Fazem parte do cotidiano do ser humano."Ela iluminou o lugar com um imenso sorriso, o que automaticamente me fez rir também.

O vento acariciava seus cabelos de uma forma que alguns fios colavam-se à testa, onde havia resquícios de suor. Tínhamos apenas 13 anos e estávamos recém descobrindo a vida, que comparada a um trem, havia acabado de partir da estação nascimento com parada apenas na estação denominada “morte” por alguns, “lugar melhor” por outros... e etc. Engraçado que, naquela época, não pensava no destino da viagem como penso hoje. Falei para ela que deixasse tudo comigo e tornei a tranquilizá-la. Alertou-me para que eu agisse rápido, pois logo seus pais chegariam e não iriam gostar nada daquela história. Assumindo meu papel de homem ( "o homem da casa", termo que meus pais usavam ao se referirem a mim perante às visitas.) e usando as mãos para tal atividade comecei a explicar que eu deveria apenas empurrar até que entrasse totalmente no buraco. Que, a princípio, parecia pequeno, mas era capaz de adaptar-se, pois era flexível. Bastava um pouquinho de jeito combinado com uma dose de força e entraria tranquilo. Ah! Expliquei também que aquele material era feito de borracha o que não pareceu nem impressionar ou, quem sabe, incomodá-la. Pensei cá com meus botões. “De repente, já haviam lhe explicado”

Comecei a empurrar devagar e depois com um pouquinho mais de força. Sempre dando atenção a ela e dizendo que daria tudo certo, e seus pais nem desconfiariam . Ela parecia cada vez mais nervosa, por vezes mordia os lábios, e eu não sabia se era pelo fato de estar preocupada com alguma coisa que poderia dar errado ou com seus pais que poderiam chegar a qualquer momento, e como ela relatou: “Não iriam gostar nada daquela história”. Não estava conseguindo enfiar naquele buraquinho que parecia tão pequeno, acho que o mais pequeno que já vi. Limpei meu rosto que pingava suor e retornei a tarefa que deveria concluir. Finalmente com mais jeitinho do que força foi que consegui desbravar aquele orifício minúsculolo que parecia se fechar para mim.

Quando os pais dela chegaram o Havaianas já estava arrumado e brincávamos de pé no chão, por precaução. Pois expliquei a ela que nem sempre se consegue arrumar e que teve sorte de não ter que enfiar um prego. O que fazia na maioria dos chinelos de meus amigos. Imaginem só! arrebentar o seu chinelo verde novo que a mãe acabara de comprar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011





Baseado em fatos reais


Nossa! São 7:00 horas e agora que foi levantar
Essa hora deveria estar saindo de casa para trabalhar
Vai tomar um banho, e ri de sua moleza
Ao sair, apavora-se ao consultar o relógio do computador de mesa

Passaram-se 15 minutos desde que acordou
Isso não está ocorrendo porque planejou
Como sua mãe ele acredita em destino
Seria um sinal do divino?

Não na palavra no dicionário tal e qual
Mas de uma forma mais espiritual
Isso não é bom sinal
Está mais atrasado que o habitual

No mundo de hoje, até o atraso tornou-se rotina
O saber do homem é limitado, porém ensina
Existem segredos que nem o homem mais sábio imagina
E imagina imaginar que poderia desvendar
e desvendando o indesvendável sua sede saciar

São 7:15 inicia às 7:30 em seu serviço
Pode ser que o patrão nem note o atraso, mas é difícil
Olha o relógio de novo, nessas circunstâncias torna-se um vício
A sensação de que temos o tempo em nossas mãos é totalmente fíctício

Vai até a pia velha. Engole o pão sem café
Sabe que para manter-se de pé, necessita muito mais que fé
Homem sábio e experiente, decendente de abaeté
Porém foi índio forte toda a vida. E nunca virou pajé

Não esquece o boné e coloca-o na cabeça
Deve vencer o tempo antes que o tempo o vença
Seria uma competição? Do jeito que as coisas andam, mais parece conspiração
Nunca sonhou alto, como muitos no mundão
Almejava paz, que sempre significou cama e pão
Alcançou o que desejava ou imaginava desejar então
Mas às vezes tem impressão de que viveu até agora em vão


Sempre pensava, tudo que é demais tá errado
Mas será que almejar um pouco mais seria pecado?
Não que foi ausente, mas sempre sentiu-se indiferente
dessa morte em vida que a religião tenta impor na gente

Perde-se em divagações. Ótimo artifício
Pensa por si só. Já que o mundo não lhe oferece tal exercício
Não ve mais prazer no trabalho e sim um sacrifício
Todo dia antes de sair de casa para o trabalho sente-se em cima de um precipício

Olha o relógio são 7:22. Ele deixa a casa agora para voltar depois
Deixa tudo bem fechado. Certifica-se de ter chaveado
Morre de medo ser assaltado. Não vai perder muita coisa, porém
O pouco que possui é tudo o que ele tem
E sabe que se não vier do seu trabalho não ganhará nada de ninguém

Não é hora de pensar em tragédia agora
Pega a bicicleta, na qual irá pedalar estrada a fora
Estranho... tem a sensação de dé jàvu
Aquela estranha sensação de que já esteve ali

O mais estranho é que o caminho é o mesmo, percorre sempre o mesmo chão
Nunca sentiu, tal sensação. Seria o tal destino segurando sua mão?
Ouve cães uivando. Relembra parte do que estava sonhando
Eram vozes, pessoas sussurrando. Não lembrava o que estavam falando

Ele é atingido; e arremessado ao longe girando,
perde a consciência e a retoma na ambulância com pessoas conversando
Sua cabeça dói e o resto do corpo nem sente
Revê sua mãe, tão linda, à sua frente. Não cabe em si de tão contente
Deixa o seu corpo e segue em frente

"Expedito Alves de Lima, 54 anos, morreu no início da manhã desta sexta-feira (29/07/2011) após ser atropelado por uma D20. o fato ocorreu na Rua Heleno Pereira Pinto, Bairro Campo Grande (Delmiro Gouveia/AL). Segundo consta, Expedito estava em uma bicicleta indo a uma fazenda onde trabalhava como soldador, quando foi violentamente colhido por uma D-20 azul, placa HRI-4342, que estava no mesmo sentido que o ciclista. O motorista identificado apenas por Gilberto após a colisão evadiu do local sem prestar socorro à vítima. Expedito foi socorrido por uma Unidade do SAMU ainda com vida e encaminhado a Unidade de Emergência de Delmiro Gouveia,devido à gravidade dos ferimentos, foi conduzido ao Hospital de Arapiraca vindo a falecer durante a viagem."

Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...