Abismos
Uma confissão: cogitei votar no Bolsonaro. Não com o entusiasmo do Haddad que, recém terminada a campanha, afirmou, em uma palestra em Nova York, que talvez o Brasil crescesse sob as rédeas de um governo liberal. Minhas intenções, confesso, eram bem menos nobres. Votaria no Bolsonaro como quem é acometido por questionamentos inconfessáveis. Quase digitei 17 movido pelo “e se”. Meu humor normalmente nasce de um dilema que inicia com um “imagina”. Causa-me graça o improvável. A quebra de protocolos sociais, alguns deles, claro está, inconfessáveis, é fonte da minha diversão mais genuína. Esse traço de personalidade, talvez, se deva à formação cultural que tive. É possível que, de alguma maneira, Jackass siga retumbando no meu inconsciente. Ainda tenho muito presente uma cena do filme de 2002 e que talvez empreste razão ao subtítulo “O cara-de-pau”. Um rapaz dá início à cena relatando a um médico que participou de uma festa com alguns amigos, bebeu demais e acabou apagando. “Eu devo ter caído e quebrado alguma coisa, pois tenho tido dificuldade para caminhar desde então”, conclui o rapaz, arrastando a voz que aponta certo incômodo. O médico propõe um raio x, ao que o rapaz prontamente se dispõe. Ato contínuo, vemos o médico encarando atônito uma chapa de raio x que apresenta um carrinho de brinquedo cuidadosamente estacionado no reto do rapaz. O cara envolveu um carro em um preservativo e introduziu no próprio ânus apenas para colocar as pessoas em uma situação incômoda. Por conta da insólita situação, é constrangedora e, claro, hilária, a caça de palavras empreendida pelo médico para relatar ao paciente o que aconteceu. A cena acaba com o médico envolvendo o braço sobre o pescoço do rapaz e consolando-o enquanto sussurra que ninguém precisa saber disso. O amigo que o acompanha à consulta já é muita gente, afirma o médico. Sigo achando essa cena engraçadíssima pela completa falta de sentido. Os amigos com os quais compartilho tais conjecturas irrefletidas são minhas amizades mais sinceras. Enquanto escrevo essas linhas, penso que talvez seja essa a metáfora perfeita para a embaraçosa situação nacional. Após uma festa (festa da democracia, como alguns rotularam as manifestações de 2013), acabamos entorpecidos e despertamos agora sem conseguir caminhar direito e, independentemente do raio X, não sabemos como expelir aquilo que colocamos pra dentro. Não tem maneira de sair no cocô? - questiona o rapaz, simulando aflição. Não, responde o médico, vai doer. É necessário cirurgia.
Tenho agora a plena consciência de que fui invadido por esse humor involuntário das conjecturas absurdas. O que aconteceria se colocássemos um idiota - tradução de Jackass - na presidência? Admito que jactava-me a projeção imaginária do Bolsonaro discursando na ONU, lançando mão de repetidos Taokeys. Vingança perfeita. Depois do 7x1, obrigaríamos Angela Merkel a dialogar com um quadrúpede. Por ironia do destino ou macabra coincidência, a vingança seria apenas a inversão da posição do sete. Hipócrates escreveu em algum lugar que o número 7 é a fonte de todos os câmbios. Eis o nosso câmbio. De 7x1 para 17.
Enquanto escrevo essas linhas, lembro de um conto de Luiz Vilela, chamado abismos. Nesse conto, a alguns passos de um abismo, um casal admira as luzes da cidade. Deslumbrada, a mulher, ao inclinar-se para abraçar o companheiro, topa com seus olhos fixos que a fitavam. Ela questiona se há algo de errado ao que ele, levantando-se, responde bruscamente: “Vamos embora”. Já no carro, após quilômetros em silêncio e sob forte interrogatório acerca de seu comportamento, ele responde:
Eu ia te matar. Eu ia te empurrar lá de cima, no abismo.
Atônita, a mulher pede para que ele pare o carro imediatamente ou ela se jogará. Ao longo do caminho, ele tenta, sem sucesso, explicar que possuímos sulcos na alma que não terminamos de entender. Posso entendê-lo perfeitamente e meu texto caminha nesse sentido. Nossa íntima geografia abarca abismos desconhecidos e, às vezes, inacessíveis a nossas bússolas. Assim, de maneira abrupta, levantei-me do abismo e se desanuviou a ideia de votar no Bolsonaro como uma piada do improvável. Acabei votando no Haddad sabendo que era inútil. Inês já era morta. Bolsonaro, cria do antipetismo, como Pacman, se alimentou do petismo que lhe ofereceram. Curiosidade: o nome Pacman é uma ocidentalização da onomatopéia japonesa Paku, som que - segundo os japoneses - representa o abrir e fechar da boca. Ao som da abjeta cançãozinha riponga de “vira-voto-vira-vira”, era possível ouvir Paku... Paku… Paku, enquanto Bolsonaro avançava no jogo e comia tudo o que via pela frente. Inclusive gente.
Aconteceu. Era previsível. Bolsonaro ganhou e, à laia de quem diminui a velocidade para observar um acidente na via, inconscientemente buscando corpos, tenho escutado as entrevistas de Bolsonaro e toda a malta de idiotas que compõem o governo. Quero deixar de fazê-lo, mas não consigo. A burrice do Bolsonaro me causa uma atração inexplicável. Bolsonaro é tão tosco que chega a ser digno de ingresso. Foram inúmeras as vezes que ouvi seus pronunciamentos aos sussurros de “que doente”. “Que retardado”, murmurava entredentes enquanto pendia a cabeça negativamente de um lado a outro. Porque tu não para de escutar, perguntou um amigo meu ao qual relatei esse fato. Não sei, respondi. Não sei… Enfim, abismos. Schadenfreude é uma palavra que expressa um sentimento de desfrute do infortúnio alheio. Talvez esse termo, coincidentemente alemão, ajude a desenhar os primeiros traços de uma explicação para esse abismo o qual não posso deixar de encarar. Não deixa de ser uma ironia o fato de eu conseguir externalizar meu sentimento para com o governo apenas por meio de um termo alemão. 8x1.
Talvez, tenho pensado muito nessa hipótese, minha fixação por esse abismo em particular se explique, em parte, pelo meu gosto pela literatura. Não estaremos presenciando um novo movimento em contraponto ao realismo mágico? Nesse movimento, os personagens ganharam vida antes dos autores. Bolsonaro, ao contrário do que normalmente acontece, não seria um autor, Olavo de Carvalho tampouco, nem Ernesto Araújo, Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, ou Ricardo Salles. Seriam todos personagens. Indomáveis personagens que não respeitam qualquer lógica narrativa, haja vista a imprevisibilidade do governo. Não há análise plenamente possível, pois não há lógica. Estaríamos vivendo a revolta dos personagens de algo ao qual eu rotularia realismo desencantado, numa clara oposição ao Realismo mágico. Esse movimento literário é caracterizado pela ausência de qualquer tipo de abstração, magia, esperança, fascínio ou encanto. No enredo, caberia apenas uma tediosa cotidianidade óbvia. As capas dos livros são cinzas. Livros, de preferência, sem muita coisa escrita. Aglomerações de tweets isentos de coesão ou coerência. Os personagens não são dotados de qualquer traço de complexidade, pois, como as palavras levam invariavelmente à complexidade, resta a iletrada vulgaridade. A complexidade é o curso natural da correnteza da qual emergem as palavras. As pessoas, no realismo desencantado, se comunicam por meio de gestos, sempre com os dedos, pois semblante é coisa de teatro, teatro é arte e arte, como qualquer bom consumidor do realismo desencantado sabe, é coisa de vagabundo. Vamos a um breve manual de como se dá a comunicação no contexto do realismo desencantado. Dedos imitando arminha podem representar felicidade ou revolta. Notem que primário. Explico. Arminha com dedo acompanhada de sorriso irônico e olhos semicerrados: felicidade. Arminha com dedo acompanhada de cara fechada: indignação. Dedos desenhando aspas no ar significam o contrário do que se quis dizer anteriormente, ou o desejo de sublinhar exatamente o que se disse, pois o domínio das aspas é complexo no tocante a isso daí. Escrevi há um tempo atrás que sinto falta de quando o indicador e o polegar fugindo do punho fechado, formando uma espécie de L meio enviesado, representavam apenas o símbolo do Latino. E esse símbolo, claro está, era utilizado somente por ele. Em certa altura da política nacional adeptos de espectros políticos mais preguiçosos se apoderaram desse símbolo e vulgarizaram a discussão política. Se pudesse escolher a trilha sonora para retratar esse período da política tupiniquim, seria o single da XUXA “mexa os dedinhos” ou, em sua versão internacional, Put your finger in the air.
Realismo mágico foi um movimento literário que transformava o mágico em algo cotidiano, sem estranhamento algum. Uma mulher estendendo roupa poderia, por exemplo, sem qualquer antecedente causal, levitar e ganhar os céus. Bolsonaro, porém, transformaria tudo em uma maçante obviedade. Não há complexidade. Qualquer assunto complexo cabe na expressão “Isso daí”. “No tocante a isso daí”. Seja desarmamento, choro de criança, Coronavírus, Economia ou física quântica. “No tocante a isso daí”. Se possível: “Issaí”. Encerro esse texto admitindo que o Bolsonaro não me parece mais engraçado. Na verdade, ele nunca me pareceu engraçado. Se você entendeu o texto, querido leitor, e olha que, levando em conta a realidade do pais, isso é privilégio, ficou claro que sempre vi no Bolsonaro apenas um imbecil. Exatamente por isso me causava graça. A improbabilidade insólita de um completo animal governar uma nação despertava meu humor. Mas como já revelei, foi uma piada express, tão efêmera que nem cheguei a compartilhá-la com ninguém... até agora. Não votei nele e jamais votaria. Porém, tenho amigos que votaram e gosto de pensar na possibilidade de uma espécie de protesto. Tento acreditar que eles levaram a piada longe demais. Ou o fizeram à laia de protesto.
Na edição da Folha de São Paulo do dia oito de dezembro de 1980, devido ao assassinato de John Lennon, Paulo Francis cita um ótimo ensaio do socialista Michael Harrington, cujo texto recomendo fortemente a leitura. Michael propõe que a voz fanha de Bob Dylan era uma forma de contestar a cultura cruel que era capaz de criar um Bethoven, que não poderia ser melhorado e os horrores tecnológicos de “Napalm”, de Nagasaki e Hiroshima. Francis cita Harrington contextualizando a velha guerra de braço entre gerações. Na impossibilidade de superar o pai, eu o ridicularizo, o desafio, o ponho em xeque. Gosto de pensar que a eleição de 2018 foi fruto de um protesto, que Bolsonaro tenha sido eleito por ser estúpido. De zoeira. Mas temo que não. Temo que Bolsonaro tenha sido eleito por convicção. Sempre tive a clareza de que o Bolsonaro era um retardado. A graça era essa, amigos. Sua estupidez era peculiar desde sempre. A ignorância de Messias é um diamante em bruto, algo a ser apreciado pelas futuras gerações. Apesar dos esforços que uma parcela da esquerda que não acredita na burrice faz para tentar validar atitudes estapafúrdias de Bolsonaro como “cortina de fumaça”, nosso presidente é um monumental idiota. Espero que as pessoas que votaram como protesto, tomem consciência do erro e revejam suas atitudes mas, como cantou Gessinger, pra ser sincero, dos bolsonaristas convictos não espero muito. Afinal, já dizia o velho ditado: quando um tonto escolhe um caminho, o caminho acaba e o tonto segue.
