Os meus amigos estão perdidos, confusos, melhor dizendo, e entendo. Sinceramente, entendo. É compreensível que, no contexto atual, com tamanho distanciamento e falta de identificação, haja um desencantamento pela política e, em certa medida, uma ignorância no que tange a consciência de uma identidade ideológica. Reitero que não só entendo como também compartilho da mesma aflição que vocês. Posso, inclusive, parafrasear Cazuza, pois também o "meu partido é um coração partido." Pra mim é ainda mais difícil externar todo meu descontentamento para com o estado atual da política brasileira, tendo em conta que sempre gostei da política - por mais estranho que pareça - e ainda penso, em alguma altura da vida, quando me sentir mais preparado, quem sabe, fazer parte dela.
Devo, antes de mais nada, esclarecer que a concepção de política é bastante abrangente. A palavra política é infinitamente maior do que apenas essa política partidária – do pra rir tem que fazer rir - com a qual estamos acostumados. Eu, particularmente, entendo a política como sendo uma prática corrente do nosso cotidiano. A vida, por si só, nos torna seres políticos, na medida em que assumimos diversos papéis sociais para adaptarmo-nos frente à sociedade. Todos somos filhos, pais, amigos, chefes, subordinadas, alunas, professoras, namorado, sobrinha, vizinho, vendedora, consumidor, etc. Tzvetan Todorov, inclusive, escreve que o sentido da vida é o outro. Apenas a partir da visão do outro é que me torno capaz de perceber o mundo de forma mais ampla e compreendê-lo a partir de um olhar diferenciado, redescobrindo constantemente a sociedade estruturada a partir da sensibilização com essa experiência do outro. Ou seja, quanto mais exploro minha percepção e meu contato com o outro, mais completo me torno como indivíduo. Assim, o exercício da política se constitui como a tentativa da construção do bem comum. Se, da mesma maneira que eu, tu concordas com essa concepção de política, tu podes te considerar uma pessoa de esquerda.
Os termos conhecidos como "esquerda"
e "direita" surgiram da Revolução Francesa de 1789, quando, nas
assembleias, os partidários do rei sentavam à direita do presidente e aqueles
que defendiam a revolução ficavam à esquerda. Ou seja, é fato que a direita
surge como os defensores da religião e do rei – o status quo estabelecido. A
direita política, por mais que negue, desde que foi criada, jamais entendeu a
política como a tentativa de construção do bem comum. Muito antes pelo
contrário, a direita ainda pensa na hierarquização social e, consequentemente,
a desigualdade social como inevitável, natural, normal e, em certa medida, até
desejável, pois, segundo creem, não há prosperidade coletiva e, como se não
bastasse, argumentam que é necessário
uma taxa de desempregados para manter a inflação sobre controle. Não irei
me ater muito na diferença política desses termos, até porque há muitas
nuances. No entanto, é importante ressaltar que, se na esquerda o outro é que
vai ser o norte dessa construção política, na direita eu imponho minha
experiência individual ao outro sem levar em conta sua singularidade, seu
contexto, seus problemas e suas razões. O "eu", seguindo um
pensamento de direita, é o epicentro do
processo. O parâmetro é sempre o “eu”. Se "eu" consegui entrar numa
faculdade, todos conseguem. Se "eu" nunca fiz aborto, defendo a
proibição do aborto. Se "eu" nunca "roubei", defendo a pena
de morte, ainda que eu nunca tenha passado pela tentação. Se “eu” nunca fui
vítima de racismo, o racismo não existe, por mais que eu seja branco. Se “eu”
não sofri preconceito, homofobia não existe, mesmo que eu não seja gay. Enfim,
meu papel é julgar o pecador desde o meu pedestal. Poderia exemplificar ricamente, com
ilustríssimos exemplos da nossa direita, mas me faltaria tempo e disposição
para escrever da minha parte e paciência e boa vontade de ler da sua. Vou me
ater a uma propaganda do Maluf, onde ele solta um mantra atenuado da direita
que é " Bandido bom, é bandido mort... preso!" Ou seja, eu não sou
ladrão. Ladrão é o "outro", não interessa o que ocorra, o
"outro" deve ser punido, enclausurado, preso e, de preferência, morto.
Sou de esquerda porque não pretendo impor
minhas experiências e percepções ao outro, não costumo me usar como exemplo e
colaborar com um mecanismo que eterniza as mazelas e desigualdades enquanto
tenta esconder as abissais diferenças que, desde o Brasil colonial perduram em
nossa sociedade. Sei que querer não é poder. Estou sempre disposto a mudar de
opinião. Diferentemente da direita que se apega a morais e valores
preconceituosos quando nossas políticas públicas já deveriam atentar a ciência
e não a tradições escrotas.
Estamos diante de uma decisão de extrema importância para o destino do país. Há que escolher um lado. Um lado da "velha polarização", segundo Marina Silva. De um lado o PT de Lula e Dilma, e de outro o PSDB de Fernando Henrique e Aécio Neves. Há diferença? Sim. E não são poucas. Devemos decidir entre um governo de direita e outro de esquerda. Também tenho críticas ao PT. Gostaria, por vezes, de ver o partido defendendo bandeiras mais radicais para a esquerda. Mas, é inegável o avanço do Brasil na construção de um país menos desigual. Segundo a reportagem abaixo, por exemplo, em 2000, quatorze por cento dos brasileiros viviam em extrema pobreza. Em 2003, quando Lula assumiu o poder, o número atingia cerca de 17,5 %. Hoje, apenas 3% dessa população vive nessa situaçao em extrema pobreza. Nos últimos dez anos a desigualdade social vem diminuindo consideravelmente. Mais de 22 milhões de brasileiros saíram da miséria. A classe média, esse ano, cresceu 6%. De acordo com alguns economistas, entre 2001 e 2012, a classe média cresceu 37% acima da taxa de inflação. O analfabetismo que girava em torno de 13,5 % em 2003, foi drasticamente reduzido e hoje não alcança 5% da população.
Esses dois partidos representam duas concepções diferentes de sociedade. Uma sociedade que busca o fim da desigualdade social representado pelo governo do PT e outra que toma as desigualdades como algo natural e inevitável e endossa uma sociedade de privilégios. Disponibilizo 32 capas da época em que o PSDB estava no governo através do FHC para aqueles que não viveram a era FHC/ PSDB.
Enfim, no domingo voto na Dilma, pois acredito em um governo que, em doze anos, tirou o país do mapa da fome, construiu universidades como nenhum outro, investiu em educação como nenhum outro, investiu nos serviços públicos como nenhum outro, diminuiu drasticamente a mortalidade infantil através do que a direita sempre chamou de "bolsa miséria", reconhecida por uma das mais renomadas revistas de saúde (através de estudos) e etc, etc e etc.
Enfim, quero um governo que lute por um país melhor para todos e não somente para mim. Dispenso uma "mudança" que arrume a casa para que setenta por cento da população não possa entrar descalça e só uma seleta elite tenha acesso ao sofá.