Porém, depois que esse tempo se vai, quando já dobramos algumas
esquinas da vida, já inacessíveis agora, dá-se aquele derradeiro momento em que
nos damos conta de que a paisagem que buscávamos como horizonte através do para-brisa,
hoje, repousa no retrovisor da vida. A partir
de então é que vamos buscar refúgio naquela antiga música que serviu de trilha
sonora para um momento agradável e outros nem tão agradáveis assim. A música é,
e sempre foi, um instrumento que transpõe barreiras, até mesmo aquelas a
princípio intransponíveis, como o tempo.
Hoje,
ouvindo a música de ontem, amanhã ouvindo a música de hoje. Ou, no caso das
gerações passadas, ontem ouvindo a música de anteontem, notamos o quanto
aquela canção continua despertando emoções tão intensas como outrora. Sensação
parecida com quando retornamos àquele local que serviu de pano de fundo para
vivências marcantes e significativas do passado que, no entanto, parecem presentes, quase
que a ponto de suscitar uma ressurreição em vida quando retornamos ao palco de
antigos roteiros, na época impreterivelmente improvisados, hoje todos escritos
e engavetados em folhas quase amarelecidas.
Enfim, são
essas remanescentes fagulhas de vida organizadas nos escaninhos da memória,
como que subterfúgios da alma que temos a felicidade e praticidade de poder
reviver através de um simples play ou de uma viagem - nesse caso, não só
espacial como temporal. Já dizia o sábio “Somos aquilo que o mundo fez de nós”.
A esse “mundo” atribuo a sociedade vigente na época de nossa educação.
Absorvemos influência de todos os lados. Acredito que nosso comportamento, também, na maioria
dos casos, de uma maneira complexa e subjetiva, é claro, é construído, mesmo
que uma ínfima parte, por nossos ídolos.
Assim como toda a criança e adolescente tive,
e ainda tenho meus ídolos, nos quais me espelhei.
Isso contribuiu significativamente para a construção da minha identidade.
Por essa razão, penso que nossa singularidade só é obtida através do contato
com as influências e o contexto no qual estamos inseridos, ou seja, somos seres
constitutivamente plurais. Necessitamos do outro para que possamos construir nossa identidade. Legítimas colchas de retalhos. Se existe um paradoxo
da raça humana que me fascina é o de construir sua singularidade a partir de
contribuições do plural.
Logo, sou o
que me cerca, e com isso quero chegar, ao que já disse em outras oportunidades:
“não morremos sozinhos”. Levamos conosco momentos, sentidos, e um pouco de
tudo aquilo que nos cercou em vida. Dessa forma, também não morremos
exclusivamente no momento em que nosso coração deixa de bater ou quando soltamos o último suspiro. A vida nos-vai
matando aos poucos. Todo dia tem em si um pouco de morte. Arrisco-me a dizer que a
maioria tem mais morte do que propriamente vida. Concordo com os otimistas que enxergam em cada nascer do sol uma nova vida, no entanto, sempre que possível acrescento que o nascer pressupõe o morrer e, consequentemente, mais um
pôr do sol que trará consigo a morte de mãos dadas ao amanhã. E esse sim é o
maior assassino de todos os tempos, o amanhã, e somos, todos nós, submetidos a resignarmo-nos para com a sua impune e implacável sede de sangue ao longo de todo o curso da humanidade.

