quinta-feira, 7 de março de 2013

A onipresença da morte


     



     Fiquei muito triste ao ser informado da morte do cantor Chorão. Já havia escrito em algum lugar que as nossas lembranças - ao menos as minhas- são constituídas, assim como organizadas, por coisas significativas: lugares, pessoas, músicas, etc. Sendo assim, creio que uma música, muito mais do que uma simples melodia acompanhada ou não de letra, pode ser um dos pilares que mantém a memória de um tempo bom, viva, rija e acessível, ainda que engavetada nos subterfúgios do inconsciente.
      Porém, depois que esse tempo se vai, quando já dobramos algumas esquinas da vida, já inacessíveis agora, dá-se aquele derradeiro momento em que nos damos conta de que a paisagem que buscávamos como horizonte através do para-brisa, hoje, repousa no retrovisor da vida.  A partir de então é que vamos buscar refúgio naquela antiga música que serviu de trilha sonora para um momento agradável e outros nem tão agradáveis assim. A música é, e sempre foi, um instrumento que transpõe barreiras, até mesmo aquelas a princípio intransponíveis, como o tempo.
     Hoje, ouvindo a música de ontem, amanhã ouvindo a música de hoje. Ou, no caso das gerações passadas, ontem ouvindo a música de anteontem, notamos o quanto aquela canção continua despertando emoções tão intensas como outrora. Sensação parecida com quando retornamos àquele local que serviu de pano de fundo para vivências marcantes e significativas do passado que, no entanto, parecem presentes, quase que a ponto de suscitar uma ressurreição em vida quando retornamos ao palco de antigos roteiros, na época impreterivelmente improvisados, hoje todos escritos e engavetados em folhas quase amarelecidas.
     Enfim, são essas remanescentes fagulhas de vida organizadas nos escaninhos da memória, como que subterfúgios da alma que temos a felicidade e praticidade de poder reviver através de um simples play ou de uma viagem - nesse caso, não só espacial como temporal. Já dizia o sábio “Somos aquilo que o mundo fez de nós”. A esse “mundo” atribuo a sociedade vigente na época de nossa educação. Absorvemos influência de todos os lados.  Acredito que nosso comportamento, também, na maioria dos casos, de uma maneira complexa e subjetiva, é claro, é construído, mesmo que uma ínfima parte, por nossos ídolos.
      Assim como toda a criança e adolescente tive, e ainda tenho meus ídolos, nos quais me espelhei.  Isso contribuiu significativamente para a construção da minha identidade. Por essa razão, penso que nossa singularidade só é obtida através do contato com as influências e o contexto no qual estamos inseridos, ou seja, somos seres constitutivamente plurais. Necessitamos do outro para que possamos construir nossa identidade. Legítimas colchas de retalhos. Se existe um paradoxo da raça humana que me fascina é o de construir sua singularidade a partir de contribuições do plural.
     Logo, sou o que me cerca, e com isso quero chegar, ao que já disse em outras oportunidades: “não morremos sozinhos”. Levamos conosco momentos, sentidos, e um pouco de tudo aquilo que nos cercou em vida. Dessa forma, também não morremos exclusivamente no momento em que nosso coração deixa de bater ou quando soltamos o último suspiro. A vida nos-vai matando aos poucos. Todo dia tem em si um pouco de morte. Arrisco-me a dizer que a maioria tem mais morte do que propriamente vida. Concordo com os otimistas que enxergam em cada nascer do sol uma nova vida, no entanto, sempre que possível acrescento que o nascer pressupõe o morrer e, consequentemente, mais um pôr do sol que trará consigo a morte de mãos dadas ao amanhã. E esse sim é o maior assassino de todos os tempos, o amanhã, e somos, todos nós, submetidos a resignarmo-nos para com a sua impune e implacável sede de sangue ao longo de todo o curso da humanidade.



    

Empréstimo Post-mortem

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