Um dos pilares essenciais para que uma narrativa funcione é algo a que chamamos verossimilhança. O que lemos, ouvimos ou vemos é plausível dentro do universo ficcional criado? É essa tal verossimilhança que nos fará comprar ou não a história que nos é narrada. Coleridge – poeta precursor do romantismo inglês – propunha uma suspensão da descrença para alcançar a “fé poética”. Ou seja, ao assistir Chaves, esquecíamos por um momento que Roberto Bolaños tinha 40 anos e nos encantávamos com o guri do 8 (tradução de Chavo del ocho – nome original). Ao suspender nossa descrença, em alguns momentos nos emocionávamos, como no episódio em que ele é acusado de ladrão ou quando pensávamos que ele não iria para Acapulco.
Utilizarei o exemplo de Round 6, produção sul-coreana que explodiu nas últimas semanas, para desenvolver e explorar alguns elementos do conceito de narrativa. A série sul-coreana é hoje a mais vista da história da Netflix, encabeçando as listas de produções em todos os países onde a Netflix oferece seus serviços. China, Crimeia, Síria e Coreia do Norte não possuem Netflix. Na Coreia do Norte, por certo, a reprodução de round 6 é crime passível de morte. Kim Jon Un proibiu o consumo de produções advindas da Coreia do Sul. Quem tratar de traficar K-pop ou Doramas para a Coreia do Norte será sentenciado à morte por tratar de perverter a juventude norte-coreana com a degradada cultura do irmão siamês do sul. Penso que há algumas explicações para tamanho sucesso e com esse texto trato de oferecer algumas delas calcadas nas páginas dos jornais.
Traço as linhas iniciais desse texto em um dispositivo sul-coreano. Enquanto escrevo, lembro que estou trabalhando elementos da narrativa com meus alunos adolescentes, todos peritos em Dorama, K-pop e produções que fazem da Coreia do Sul um grande potencial do entretenimento. O país asiático tem investido pesado no audiovisual, pois entendeu que esse soft power já não é tão soft em tempos de redes sociais e streaming além de gerar divisas para o país com uma economia em rápido crescimento. Apesar do sucesso da economia coreana e de sua rápida ascensão, ultrapassando o Brasil e figurando como a décima maior economia mundial, há forte um sentimento de desajuste social. Os coreanos se sentem angustiados e o diretor da série – rejeitada há dez anos atrás – tocou fibras internas em comum com a maioria (senão todos) dos países ao redor do globo terrestre.
A série faz uma crítica ao capitalismo do mercado financeiro ao qual estamos submetidos. Financistas entediados resolvem criar um jogo para divertimento próprio. Pobres competirão durante 6 rounds por uma fortuna. As etapas consistem em brincadeiras infantis, cuja eliminação resulta na morte do competidor. “Eu ganho dinheiro com empréstimos” – sussurra o pioneiro dos jogos no leito de morte. A expressão “dinheiro faz dinheiro” é antiga e, apesar de clichê, nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje. Tanto é assim que o diretor, Hwang Dong-hyuk, teve seu roteiro rejeitado por dez anos. Além disso, o próprio Dong-hyuk, segundo Wall Street Jornal, teve problemas financeiros que o levaram a vender seu notebook enquanto vivia com sua mãe e sua avó. A pandemia colaborou para o desenho de um contexto no qual a série cai como uma luva. A brecha que existia entre ricos e pobres se converteu num abismo de tal sorte que o salto de um extremo a outro se tornou tão improvável que arriscar a vida num jogo se torna algo razoável. É importante apontar que a série teve que ser editada para borrar o número de telefone que aparecia no cartão, devido ao número de solicitações para participar do jogo. Eis aqui, alunos, o outro extremo da verossimilhança, quando vilãos são agredidos ou ameaçados na rua por conta do seu personagem.
Não tenho dúvidas que o fenômeno mundial da série se deve a uma espécie de globalização das precariedades. GOG dizia que favela é favela em qualquer lugar e eu concordo. Eu acrescentaria que fodido é fodido em qualquer lugar e a série é sobre isso (e não tá tudo bem). A série é um olhar sobre os fodidos. Ainda que com outros nomes, a precarização do trabalho é uma realidade que não conhece fronteiras. O personagem principal é um motorista desempregado. Em tempos de redes sociais, do arrasta pra cima, dos coachs quânticos, das mensagens motivacionais, do mindset, a precarização se casa com o bovarismo, característica tão essencial da nossa identidade. Somos adeptos do pensamento mágico e a educação não vem nos ajudando a discernir romantização do trabalho precário de empreendedorismo. Eu me identifiquei muito com o personagem principal. Eis aqui, queridos alunos, outro elemento central de uma narrativa: os personagens. Existem dois tipos de personagens em uma narrativa: personagens planos e esféricos. Personagens planos são aqueles que dão cor a histórias mais maniqueístas, são bons, sacanas, tontos, independentemente do contexto no qual estão inseridos. Personagens esféricos, por sua vez, são complexos e podem surpreender por suas atitudes e sempre há espaço para redenção. Volte a essa parte ao final da série e você entenderá melhor a última linha. O personagem principal é bastante complexo assim como outros que o circundam, a exemplo da garota norte-coreana que sonha com trazer a família para o país.
Sete de cada dez brasileiros estão endividados. E como a taxa de desemprego não diminui, as perspectivas de futuro não são boas. Round 6 cai como uma luva no Brasil atual. Enquanto escrevo esse texto, circulam as imagens de famílias inteiras revirando um caminhão de lixo em busca de alimentos em Fortaleza. Enquanto o preço da carne dispara devido à inflação, ossos passam a ser vendidos por quilo em Santa Catarina para sopa – 4 reais o quilo. “O osso é vendido e não dado” – pontua a placa à maneira de lição moral: Não dê o osso, ensine a caçar! O Brasil, num moonwalk tropical, deslizou décadas para trás e, apesar de ser um dos maiores exportadores de carne no cenário internacional, reduziu o consumo para o nível de 25 anos atrás. É o veganismo resignado. No entanto, a crise não é para todo mundo, o consórcio internacional de jornalistas trouxe à luz inúmeros documentos que revelam nomes de donos de Off-Shores nas ilhas virgens britânicas. Off-shores são empresas registradas em países com um regime fiscal quase nulo. Empresas em paraísos fiscais para driblar a cobrança de impostos no país de origem. Eis o enredo, alunos. Outro elemento essencial da narrativa. Tanto Round 6 quanto o Brasil 2021 podem ser resumidos a uma massa de endividados sob o jugo de uma elite que sequer se comunica na linguagem do povo que governa. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, aparece na lista como dono de uma empresa batizada Dreadnoughts International Group Limited. “Dreadnoughts” é o nome de um navio couraçado de guerra. Escreveu Borges: “O nome é o arquétipo da coisa, já nas letras de rosa está a rosa. E todo o Nilo na palavra Nilo.” Imaginemos que essa empresa fizesse jus ao nome e realmente fosse um navio. O nome seria deveras simbólico, pois dentro desse navio, repleto de canhões, Guedes escondeu 9 milhões de dólares e, escapando do Brasil, atracou a embarcação nas Ilhas virgens britânicas. O real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar durante a gestão de Guedes na Economia. Ao assumir o ministério, o dólar estava em R$ 3,85. Enquanto escrevo esse texto, a moeda americana alcançou os R$ 5,60. É importante sublinhar que o preço do dólar é um fator que influencia os preços do mercado interno em um mundo globalizado. Apesar da Petrobrás ser brasileira, o preço da gasolina, a partir do governo Temer, foi dolarizado, ou seja, também está à mercê das flutuações do dólar. O aumento da moeda americana torna tudo mais caro, os alimentos que o digam. Guedes, no entanto, na contramão do resto do país, lucrou 18 milhões de reais com a genuflexão da moeda nacional diante da estrangeira. Desde que assumiu a pasta, segundo alguns estudos, o ministro lucrou 14 mil reais diariamente. Foi bastante simbólico o fato da justificativa de Guedes ser dada em inglês. Não esqueçamos que aqueles que desfrutavam da carnificina e do tétrico show proporcionado pelos jogadores na série se comunicavam em inglês e não compartilhavam sequer da cultura do país do qual se aproveitavam. Personagens planos, assim como não há complexidade em Guedes. Sádico ao ponto de rechaçar a ideia de um dólar baixo recomendando às domésticas visitas à Cachoeira do Itapemirim em vez de ir à Disney. “Vai conhecer onde nasceu o Roberto Carlos, vai passear o Brasil – vociferou o ministro no início do ano passado. A língua inglesa, na conversa dos “vips”, no nome da Off-Shore de Paulo Guedes e no seu esboço de justificativa desenham um país extremamente desigual cuja suspensão da descrença que falávamos ao início do texto sequer se faz necessário. O aumento do dólar que afasta o pão e a carne da boca do pobre, enche o porquinho de Paulo Guedes em terra estrangeira. Round 6 soa menos cruel que o Brasil de Bolsonaro, na série morrem 455, aqui já morreram mais de 600 mil e ninguém levará os 53 milhões do ministro que se acumulam no paraíso fiscal. O espaço da narrativa, uma ilha paradisíaca, outra vez parece uma analogia pronta. Sinto que esse texto já veio pronto, só transpus pro Word. O consórcio de jornalismo investigativo que descobriu essa empresa de Guedes batizou a operação de Pandora Papers - papéis de Pandora. Segundo o mito de Pandora, Zeus prepara uma caixa com todos os males do mundo e oferece a Epimeteu, irmão de Prometeu, com o objetivo de se vingar do fato de Prometeu ter disponibilizado aos humanos o fogo. Após um vacilo de Epimeteu, Pandora abre a caixa e deixa escapar todos os males contidos na caixa, restando apenas um item ao fundo: a esperança. O encontro do vencedor dos jogos com o organizador tem como pano de fundo uma aposta que envolve esse elemento – a esperança. “Hoy se me agotó la esperanza”, encerro esse texto com uma citação da Shakira, que também está na lista.
