quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Sopinha de ossos 1,2,3




Um dos pilares essenciais para que uma narrativa funcione é algo a que chamamos verossimilhança. O que lemos, ouvimos ou vemos é plausível dentro do universo ficcional criado? É essa tal verossimilhança que nos fará comprar ou não a história que nos é narrada. Coleridge – poeta precursor do romantismo inglês – propunha uma suspensão da descrença para alcançar a “fé poética”. Ou seja, ao assistir Chaves, esquecíamos por um momento que Roberto Bolaños tinha 40 anos e nos encantávamos com o guri do 8 (tradução de Chavo del ocho – nome original). Ao suspender nossa descrença, em alguns momentos nos emocionávamos, como no episódio em que ele é acusado de ladrão ou quando pensávamos que ele não iria para Acapulco.

Utilizarei o exemplo de Round 6, produção sul-coreana que explodiu nas últimas semanas, para desenvolver e explorar alguns elementos do conceito de narrativa. A série sul-coreana é hoje a mais vista da história da Netflix, encabeçando as listas de produções em todos os países onde a Netflix oferece seus serviços.  China, Crimeia, Síria e Coreia do Norte não possuem Netflix. Na Coreia do Norte, por certo, a reprodução de round 6 é crime passível de morte. Kim Jon Un proibiu o consumo de produções advindas da Coreia do Sul. Quem tratar de traficar K-pop ou Doramas para a Coreia do Norte será sentenciado à morte por tratar de perverter a juventude norte-coreana com a degradada cultura do irmão siamês do sul. Penso que há algumas explicações para tamanho sucesso e com esse texto trato de oferecer algumas delas calcadas nas páginas dos jornais.

Traço as linhas iniciais desse texto em um dispositivo sul-coreano. Enquanto escrevo, lembro que estou trabalhando elementos da narrativa com meus alunos adolescentes, todos peritos em Dorama, K-pop e produções que fazem da Coreia do Sul um grande potencial do entretenimento. O país asiático tem investido pesado no audiovisual, pois entendeu que esse soft power já não é tão soft em tempos de redes sociais e streaming além de gerar divisas para o país com uma economia em rápido crescimento. Apesar do sucesso da economia coreana e de sua rápida ascensão, ultrapassando o Brasil e figurando como a décima maior economia mundial, há forte um sentimento de desajuste social. Os coreanos se sentem angustiados e o diretor da série – rejeitada há dez anos atrás – tocou fibras internas em comum com a maioria (senão todos) dos países ao redor do globo terrestre.

A série faz uma crítica ao capitalismo do mercado financeiro ao qual estamos submetidos. Financistas entediados resolvem criar um jogo para divertimento próprio. Pobres competirão durante 6 rounds por uma fortuna. As etapas consistem em brincadeiras infantis, cuja eliminação resulta na morte do competidor. “Eu ganho dinheiro com empréstimos” – sussurra o pioneiro dos jogos no leito de morte. A expressão “dinheiro faz dinheiro” é antiga e, apesar de clichê, nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje. Tanto é assim que o diretor, Hwang Dong-hyuk, teve seu roteiro rejeitado por dez anos. Além disso, o próprio Dong-hyuk, segundo Wall Street Jornal, teve problemas financeiros que o levaram a vender seu notebook enquanto vivia com sua mãe e sua avó. A pandemia colaborou para o desenho de um contexto no qual a série cai como uma luva. A brecha que existia entre ricos e pobres se converteu num abismo de tal sorte que o salto de um extremo a outro se tornou tão improvável que arriscar a vida num jogo se torna algo razoável. É importante apontar que a série teve que ser editada para borrar o número de telefone que aparecia no cartão, devido ao número de solicitações para participar do jogo. Eis aqui, alunos, o outro extremo da verossimilhança, quando vilãos são agredidos ou ameaçados na rua por conta do seu personagem.

Não tenho dúvidas que o fenômeno mundial da série se deve a uma espécie de globalização das precariedades. GOG dizia que favela é favela em qualquer lugar e eu concordo. Eu acrescentaria que fodido é fodido em qualquer lugar e a série é sobre isso (e não tá tudo bem). A série é um olhar sobre os fodidos. Ainda que com outros nomes, a precarização do trabalho é uma realidade que não conhece fronteiras. O personagem principal é um motorista desempregado. Em tempos de redes sociais, do arrasta pra cima, dos coachs quânticos, das mensagens motivacionais, do mindset, a precarização se casa com o bovarismo, característica tão essencial da nossa identidade. Somos adeptos do pensamento mágico e a educação não vem nos ajudando a discernir romantização do trabalho precário de empreendedorismo. Eu me identifiquei muito com o personagem principal. Eis aqui, queridos alunos, outro elemento central de uma narrativa: os personagens. Existem dois tipos de personagens em uma narrativa: personagens planos e esféricos. Personagens planos são aqueles que dão cor a histórias mais maniqueístas, são bons, sacanas, tontos, independentemente do contexto no qual estão inseridos. Personagens esféricos, por sua vez, são complexos e podem surpreender por suas atitudes e sempre há espaço para redenção. Volte a essa parte ao final da série e você entenderá melhor a última linha. O personagem principal é bastante complexo assim como outros que o circundam, a exemplo da garota norte-coreana que sonha com trazer a família para o país.

Sete de cada dez brasileiros estão endividados. E como a taxa de desemprego não diminui, as perspectivas de futuro não são boas. Round 6 cai como uma luva no Brasil atual. Enquanto escrevo esse texto, circulam as imagens de famílias inteiras revirando um caminhão de lixo em busca de alimentos em Fortaleza. Enquanto o preço da carne dispara devido à inflação, ossos passam a ser vendidos por quilo em Santa Catarina para sopa – 4 reais o quilo. “O osso é vendido e não dado” – pontua a placa à maneira de lição moral: Não dê o osso, ensine a caçar! O Brasil, num moonwalk tropical, deslizou décadas para trás e, apesar de ser um dos maiores exportadores de carne no cenário internacional, reduziu o consumo para o nível de 25 anos atrás. É o veganismo resignado. No entanto, a crise não é para todo mundo, o consórcio internacional de jornalistas trouxe à luz inúmeros documentos que revelam nomes de donos de Off-Shores nas ilhas virgens britânicas. Off-shores são empresas registradas em países com um regime fiscal quase nulo. Empresas em paraísos fiscais para driblar a cobrança de impostos no país de origem. Eis o enredo, alunos. Outro elemento essencial da narrativa. Tanto Round 6 quanto o Brasil 2021 podem ser resumidos a uma massa de endividados sob o jugo de uma elite que sequer se comunica na linguagem do povo que governa. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, aparece na lista como dono de uma empresa batizada Dreadnoughts International Group Limited. “Dreadnoughts” é o nome de um navio couraçado de guerra. Escreveu Borges: “O nome é o arquétipo da coisa, já nas letras de rosa está a rosa. E todo o Nilo na palavra Nilo.” Imaginemos que essa empresa fizesse jus ao nome e realmente fosse um navio. O nome seria deveras simbólico, pois dentro desse navio, repleto de canhões, Guedes escondeu 9 milhões de dólares e, escapando do Brasil, atracou a embarcação nas Ilhas virgens britânicas. O real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar durante a gestão de Guedes na Economia. Ao assumir o ministério, o dólar estava em R$ 3,85. Enquanto escrevo esse texto, a moeda americana alcançou os R$ 5,60. É importante sublinhar que o preço do dólar é um fator que influencia os preços do mercado interno em um mundo globalizado. Apesar da Petrobrás ser brasileira, o preço da gasolina, a partir do governo Temer, foi dolarizado, ou seja, também está à mercê das flutuações do dólar. O aumento da moeda americana torna tudo mais caro, os alimentos que o digam. Guedes, no entanto, na contramão do resto do país, lucrou 18 milhões de reais com a genuflexão da moeda nacional diante da estrangeira. Desde que assumiu a pasta, segundo alguns estudos, o ministro lucrou 14 mil reais diariamente. Foi bastante simbólico o fato da justificativa de Guedes ser dada em inglês. Não esqueçamos que aqueles que desfrutavam da carnificina e do tétrico show proporcionado pelos jogadores na série se comunicavam em inglês e não compartilhavam sequer da cultura do país do qual se aproveitavam. Personagens planos, assim como não há complexidade em Guedes. Sádico ao ponto de rechaçar a ideia de um dólar baixo recomendando às domésticas visitas à Cachoeira do Itapemirim em vez de ir à Disney. “Vai conhecer onde nasceu o Roberto Carlos, vai passear o Brasil – vociferou o ministro no início do ano passado. A língua inglesa, na conversa dos “vips”, no nome da Off-Shore de Paulo Guedes e no seu esboço de justificativa desenham um país extremamente desigual cuja suspensão da descrença que falávamos ao início do texto sequer se faz necessário. O aumento do dólar que afasta o pão e a carne da boca do pobre, enche o porquinho de Paulo Guedes em terra estrangeira. Round 6 soa menos cruel que o Brasil de Bolsonaro, na série morrem 455, aqui já morreram mais de 600 mil e ninguém levará os 53 milhões do ministro que se acumulam no paraíso fiscal. O espaço da narrativa, uma ilha paradisíaca, outra vez parece uma analogia pronta. Sinto que esse texto já veio pronto, só transpus pro Word.  O consórcio de jornalismo investigativo que descobriu essa empresa de Guedes batizou a operação de Pandora Papers - papéis de Pandora. Segundo o mito de Pandora, Zeus prepara uma caixa com todos os males do mundo e oferece a Epimeteu, irmão de Prometeu, com o objetivo de se vingar do fato de Prometeu ter disponibilizado aos humanos o fogo. Após um vacilo de Epimeteu, Pandora abre a caixa e deixa escapar todos os males contidos na caixa, restando apenas um item ao fundo: a esperança. O encontro do vencedor dos jogos com o organizador tem como pano de fundo uma aposta que envolve esse elemento – a esperança. “Hoy se me agotó la esperanza”, encerro esse texto com uma citação da Shakira, que também está na lista.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Quando a resignação é covardia


Texto escrito em setembro de 2017


O poeta Pasolini acreditava que antes de lutar por um mundo melhor devemos lutar para evitar que piore. Aponto que, apesar do salário congelado há quatro anos, a atual greve dos professores eclodiu por conta do parcelamento, cujo último mês iniciou com uma mísera parcela de 350 reais.
Ainda assim, há professores que seguem trabalhando. Como Italo Calvino escreveu que toda leitura de um clássico é, na verdade, uma releitura, lanço mão da Literatura buscando retratar o mundo por analogia. A atitude de alguns professores que não entraram em greve ou que deixaram de fazê-la tão somente receberam os salários me faz lembrar um conto de Tchékhov.
O conto faz uma crítica à resignação covarde. Durante um acerto de contas, a governanta Iúlia Vassílievna escuta passivamente seu chefe construir uma narrativa mentirosa na qual ela ganharia muito menos do que foi combinado. “Então, a senhora ficou dois meses”. “Dois meses e cinco dias”. “Dois meses, tenho anotado aqui”. O chefe descontaria dias em que sua filha adoeceu, uma xícara que ela supostamente havia quebrado, e até um sapato que uma costureira roubou de sua filha sob o argumento de que ela deveria ser responsabilizada. Enfim, o chefe pagaria onze rublos quando ela deveria receber oitenta.
Apesar do rubor, dos olhos cheios d'água, Iúlia jamais reagiu. Após receber o mísero pagamento, a governanta timidamente murmura um "merci". Neste momento, o chefe se levanta indignado e pergunta a razão do agradecimento e se ela não havia percebido que ele a estava roubando. Iúlia disse que agradecia pelo dinheiro, pois houve locais em que trabalhou e nem sequer recebeu. (Lembro aqui quando o governador afirmou que o servidor deveria agradecer a Deus pela estabilidade.) Então, o chefe se desculpa e diz que lhe pagará os oitenta rublos, mas pergunta se alguém pode ser tão pateta. Se é possível não protestar. Nesse mundo é possível ser tão palerma? Iúlia dá um sorriso amarelo que o patrão lê como um "Sim, é possível". O sorriso de Iúlia e a resignação de alguns professores provam que sim. Em suma, a dignidade não é um valor indispensável a todos.

Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...