Não estou afim de escrever esse texto, mas, mesmo assim, irei escrevê-lo. Mais por uma necessidade do que propriamente por uma vontade. À medida que o carnaval ia se aproximando, o burburinho nas redes sociais ia aumentando proporcionalmente, até que se tornou ensurdecedor. Ao menos aos meus ouvidos. Enfim, a necessidade de escrever esse texto que vocês estão lendo é o meu claro desconforto para com um comportamento que venho acompanhando com mais frequência desde que entrei na universidade.
A simples vivência em uma universidade pode, digo isso sem a menor sombra de dúvidas, proporcionar um complexo amadurecimento, seja intelectual ou social, e, consequentemente, a busca por conhecimento que, se investido o esforço necessário - sim, esforço ( retomarei essa ideia mais adiante), construirão um cidadão sólido que agregará valor à sociedade e não somente ao "camarote". No entanto, a universidade também pode ser o pior lugar do mundo, graças a pessoas que não empregam o esforço necessário na busca pelo conhecimento e, como se não bastasse, querem vestir a carapuça de "acadêmicos esforçados" e recorrem ao "kit". Esse "kit" inclui, desde óculos de um determinado modelo, ao estilo musical, este que muda abruptamente ao ser aprovado no vestibular. Aquele aluno que foi prestar o vestibular escutando Radiohead, Foo Fighters e afins, ao conferir seu nome no listão dos aprovados e após cursar uma semana - "sete dias", como diria Samara - do seu respectivo curso, atualiza seu celular onde, a partir de então, ressoarão, tão somente, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Mallu Magalhães, Maria Gadú, Chico Buarque, Gilberto Gil, etc. Não quero aqui desmerecer nenhum desses artistas e negar-lhes o talento- oh céus, Who Am I?!.
Apenas quero questionar a necessidade dessa cizânia ao adentrar os portões de uma universidade. Enfim, o agora aluno deixa sua singularidade de lado e abraça um mundo artificial que não lhe pertence. Apesar de ser triste, não é isso que me causa desconforto. O que verdadeiramente me incomoda são ideias prontas de um "imaginário acadêmico" que esses pseudointelectuais abraçam. Um senso comum do qual essas pessoas partilham e, a partir de então, se sentem no direito de criticar tudo aquilo que os cerca, movidos por um raciocínio enferrujado e argumentos pífios.
Acabar com esses equívocos, ou ao menos expô-los, é a necessidade que se faz presente neste momento e que pretendo saciar com a publicação deste texto. Cada um tem o direito de não gostar do que quiser. Eu que o diga. Minha lista de desgostos é imensa. Mas tenho a plena convicção de que meus gostos não me tornam melhor do que ninguém... muito menos pior. E isso deveria servir para todos.
O fato de você não gostar de carnaval, não te torna uma pessoa culta, tão somente te torna uma pessoa que ... que... que não gosta de carnaval - simples assim. Ler, simplesmente ler, não te torna inteligente. Erra aquele que pensa que quantidades de livros lidos é o que conta. Na questão da leitura; interpretação, contexto, processos mentais, cotidiano, experiência de mundo são todos partes de um processo muito mais complexo do que simplesmente... acabar o teu livro. Assistir novela não faz de você um imbecil, assim como não assistir não fará de você um gênio. Gostar de futebol, não faz de você um alienado, assim como não gostar de futebol não faz de você alguém articulado, politizado ou imune às artimanhas de um governo corrupto.
Então... se você "não gosta do carnaval", simplesmente não vá! Mas que seja por opção tua... e não porque é "de bom tom" não gostar de carnaval, televisão e futebol. Não quero criticar quem não gosta de carnaval, acredito que eu também não goste tanto assim. O que pretendo criticar aqui é qualquer "orgulho" referente ao fato de não gostar de carnaval. No momento em que ponho essas colocações no papel, me dou conta do quão infantis são as afirmações que estou fazendo. Algo como: "apesar do teu colega gostar do vermelho você não é melhor que ele, isso mostra apenas que vocês são diferentes." Algo totalmente condenável em um mundo onde a grande maioria tenta combater a intolerância ao próximo com a máxima que expressa uma ideia com a qual nunca concordei. A máxima de que somos todos iguais.