Antes de mais nada quero esclarecer que este não é um texto onde tento me explicar, justificar ou me redimir de qualquer maneira. Não busco e não necessito de aprovação alheia ou compreensão em tempos onde não há espaços para qualquer hegemonia. Talvez estas letras busquem dar uma resposta - parcial, talvez, mas ainda assim uma resposta - a um questionamento com o qual sou frequentemente sabatinado por amigos, colegas, alunos e conhecidos. O porquê de ter votado na Dilma nas eleições passadas. Eu sabia o porquê, porém não conseguia expressá-lo. Demandaria uma conversação mais longa que o contexto desses encontros quase nunca permitia somada a uma disposição que eu não tinha e sigo não tendo.
No entanto, eis que surge um fato concreto que utilizarei de exemplo para dar essa "reposta". Não estaria escrevendo esse texto se o exemplo não escancarasse meu sentimento e servisse de maneira mais que didática para explicar meu voto no PT, e, consequentemente, em Dilma Roussef, nas últimas eleições. Não serão necessários dados ou números, fontes ou entrevistas. Essa é apenas mais uma das inúmeras tentativas de fazer com que as pessoas compreendam minha escolha. Ou melhor, minha renúncia.
Muito cedo, aprendemos que toda "escolha" envolve inúmeras renúncias. Sempre há um número maior de renúncias do que de escolhas - que é sempre um número reduzido frente a infinidade de coisas das quais abrimos mão. Esse era meu grande dilema desde muito cedo, quando a mãe me dava direito a escolher um brinquedo no R$ 1,99. Essa escolha durava muito tempo. Várias idas e voltas ao caixa. Angustia desenhada no rosto. Perdia quilos movido pela indecisão até que, por fim, escolhia um brinquedo - lembro de um arco e flecha - e, claro está, essa escolha implicava a renúncia de outras duas mil e setenta e duas possibilidades de diversão. Entre tratores e bonequinhos. Normalmente as renúncias estão vinculadas às escolhas. Mas não as percebemos. Visamos apenas nossas escolhas e nem nos damos conta do enorme número de coisas das quais abrimos mão. Devo admitir que nas últimas eleições a renúncia exerceu um grande peso na minha escolha. Talvez um maior do que a própria escolha. Ou seja, paradoxalmente, também "escolhi a renúncia da minha escolha".
Ontem foi o último dia do Enem, e ainda que o tema da redação tenha sido sobre a violência contra a mulher, a proposta do texto gerou polêmica. Tal proposta causou frenesi nas redes. Foi refletindo sobre esse fato que cheguei a este exemplo didático que, de alguma maneira, explica meu voto. Ouvir ou - no caso das redes sociais - ler que propor uma redação sobre a violência contra as mulheres é "doutrinação ideológica marxista" não é engraçado. É trágico. Muito pior do que qualquer número que a economia possa apresentar ou qualquer rebaixamento da nota do país no grau de investimento. Logo, não há muito o que argumentar. Voltemos ao tema da renúncia. Votei na Dilma porque o outro candidato era o Aécio. Ponto. O tal paladino da justiça dessa galerinha imbecil que pensa que colocar jovens a refletir sobre a violência de gênero é "doutrinação ideológica". As reformas econômicas que a Dilma está fazendo são a mesma que o "vice-campeão" faria. Recessão. O discurso era"mudar o que tá ruim e manter o que está bom". Não existia sequer um projeto. O plano era simplesmente tirar uma mulher e colocar um homem. Não estou de acordo com o governo da Dilma e poderia citar um milhão de insatisfações. Mas dizer que o governo dela é de esquerda é não ter o mínimo senso de direção política. O que é compreensível, pois o que mais falta para essa gente é "bom-senso". Insinuar que um tema como o combate à violência contra a mulher é tema de esquerda deixa bastante claro para mim o porquê eu votei no PT. Tinha até esquecido. Votei para renunciar qualquer relação possível com essa galera. Jamais faria parte de qualquer círculo social dessa gente. Pois adaptando levemente Simone de Beauvoir, ninguém nasce imbecil; torna-se imbecil.
