domingo, 29 de maio de 2016

Segunda de matem-me outra vez.




* Texto escrito no domingo de páscoa 

Por volta de dois mil anos atrás, Jesus era crucificado por andar pregando ideias transgressoras. Jesus... um jovem cabeludo, revolucionário, pobre e sempre acompanhado pelo seu bonde.
Ainda é possível ler nos postes a promessa de que "Jesus breve voltará." Eu espero sinceramente que ele não volte. O clima tá tenso. O pico tá islâmico, diria um amigo meu. Esse pessoal que clama pela volta de cristo, cada um de vocês que, reunidos em uma pequena igreja atrás da minha casa, não me deixam dormir devido a suas cantorias, seus urros, gritos e choros, vocês, o matariam novamente.
Vocês entenderam a porra toda do avesso. Tudo errado. Jesus daria zero pra vocês. Jesus pregou o "amai-vos uns aos outros". Ele jamais diria algo como "órgão excretor não reproduz."."Que atire a primeira pedra quem nunca pecou.", gritou Cristo. Esse princípio se opõe a ditos como "direitos humanos são para humanos direitos.". Reza uma lenda apócrifa, evidentemente, que, no exato momento em que Jesus impediu o apedrejamento de Maria Madalena, um fariseu com três pedras na mão gritava do meio da multidão que só não iria estuprá-la porque ela não merecia.
Enquanto vocês se denominam "pessoas de bem", Jesus afirmava que não fazia acepção de pessoas, da mesma forma que seu pai. Cristo nunca deu uma vara de pescar aos famintos, saciou a fome multiplicando pães e peixes.
Que desgosto sentiria Jesus ao ver Felicianos e Malafaias invertendo suas palavras e lucrando horrores em seu nome. Criaturas disseminadoras de ódio quando Jesus compartilhava amor. O cabeludo de Jerusalém nos ensinou que amar é ser capaz de dar a vida pelos outros e vocês querem encarcerar menores e dizem sorrindo que chacinas em presídios não são problemas, mas soluções.
Pôncio Pilatos quis soltar Jesus, mas a multidão clamava para que ele fosse crucificado. O "bandido bom é bandido morto" tem história. Não é difícil imaginarmos algum anônimo desentendido, ignorado pela história, ver Jesus crucificado e, não sabendo exatamente o que se passou, sussurrar como um mantra: "Se tá pendurado aí em cima, alguma deve ter aprontado. Ninguém morre de graça."
Os tempos mudaram. No fundo, as pessoas nem tanto. Mudaram os ídolos. Ontem gritavam "Barrabás!", hoje gritam "Bolsomito!" Ontem, sexta, Jesus foi crucificado. Se ele ressuscita no Domingo, se matará na segunda ao descobrir que Bolsonaro concorrerá à presidência por um partido que leva seu nome.
Imaginem só... Sexta-feira santa, Domingo de páscoa e segunda de matem-me outra vez.
Ahhhh.... Feliz Páscoa, meus amigos. 

Ustedes son golpistas, sí o qué?

* Texto escrito no dia posterior à votação do processo de Impeachment no senado


Tenho percebido uma enorme recusa dos apoiadores do impeachment em serem chamados de golpistas ao longo de todo o processo. Bradavam, inclusive, a máxima: "Não vai ter golpe, vai ter Impeachment." Ontem, entretanto, ficou difícil sustentar a tese de que esse processo não passa de um golpe. Golpe, no dicionário, significa "medida traiçoeira". Indo mais a fundo o termo "traiçoeira" é relativo à "traição". Diziam, os apoiadores do Impeachment que a presidenta havia cometido um CRIME. "Crime de responsabilidade fiscal", "Pedaladas fiscais", diziam. Assim, foi aberto um processo de Impeachment.
Criou-se uma comissão que, segundo o relatório, analisaria se houve ou não um crime passível de impedimento. A defesa defendeu, a acusação acusou. Ao longo desse tempo, os deputados estudariam o processo e diriam, segundo sua interpretação, se houve ou não o tal "crime" de responsabilidade fiscal. Havendo crime, não se trataria de um golpe: medida traiçoeira arquitetada pelo vice-presidente Michel Temer. Se há crime não há golpe. Ainda que o vice tenha se mantido no cargo após todo o PMDB sair do governo. Ou que, em outras ocasiões, Eduardo Cunha tenha se expressado totalmente contrário ao Impeachment, argumentando que isso não poderia ocorrer porque não somos uma "republiqueta". "NÃO VAI TER GOLPE, VAI TER IMPEACHMENT!", gritavam. Gritavam alto. Gritavam tão alto que não se ouviam uns aos outros.
Chegou a data da votação. Depois do intensivão dos deputados, chega o tão esperado dia da prova. A prova se resume a uma questão dissertativa. Fácil, teoricamente. "Após a leitura do processo de Impeachment, responda se a presidenta cometeu, ou não, crime de responsabilidade. Justifique sua resposta."
Peço para que você leia de novo a questão. As respostas foram "Pela minha mãe que completa 104 anos, eu voto sim"; "Pelo Bruno e pelo Filipe, eu voto sim"; "Pela memória do meu pai, eu voto sim"; "pelos desempregados, eu voto sim"; "pelo meu estado e pela cidadezinha onde nasci, eu voto sim"; "pela minha esposa e pelo povo que foi às ruas, eu voto sim"; "contra a corrupção e pela Bianca que nasceu ontem, meu voto é sim." Alguns, no entanto, poucos, é verdade, responderam ao que pedia a prova: "Não há crime de responsabilidade no processo. E não havendo crime se trata de um golpe."
Nessa prova, foram muito mal os deputados. Não responderam coisa com coisa. Gostaria de fazer uma pequena analogia. O que aconteceu ontem na "Camara de deputados" seria similar aos exemplos que seguirão após os dois pontos: você responder "europeu" quando a moça do caixa fizer a pergunta clássica "crédito ou débito?". Quando o professor de matemática perguntar quanto é 22 x 4, você levantar a mão e soltar o grito do fundo do peito "Predicativo do sujeito". Quando o professor de português perguntar quem é o sujeito de uma frase qualquer e você, ao levantar, com água nos olhos e a voz pausada, gritar "Setenta e seis, senhor professor!" Ou quando vocês pedirem a mão da namorada de vocês, ela olhar pra vocês e gritar "alumínio, alumínio, alumínio e alumínio."
Enfim, foi ridículo. Mas como não há correção, os deputados não voltarão com seus votos cheios de correções em caneta vermelha e tampouco deverão devolver o voto para a câmara com a assinatura da mãe, para que a mãe esteja consciente do que o deputado anda fazendo durante as comissões. Os deputados que fizeram a prova, não serão submetidos a um feedback. Lamentavelmente, eles passarão de ano sem ter estudado a matéria e ficarem apenas fazendo bagunça na sala de aula. Isso é revoltante.
Ainda assim, uma coisa ficou clara. Não há mais espaços para a negativa de um "golpe". Após a votação, ficou claro que não há um processo imparcial e técnico, senão algo difuso, medíocre e sombrio. Bastante sombrio.
Pablo Escobar, no auge de sua carreira, dirigia pelas cidades de Cali com seu primo quando foi parado por um policial. O policial pediu os documentos, Escobar disse que não tinha. O policial solicitou os documentos do veículo, Escobar respondeu que também não tinha. O policial, ao ver muitas armas de grosso calibre no chão do carro disse: "suponho que vocês também não tenham o registro dessas armas. Escobar respondeu que não. Então, com a voz entrecortada o policial perguntou "E eu posso saber porque vocês não portam nenhum documento?"
- "Porque somos bandidos", respondeu Pablo Escobar.
Boquiaberto, o policial pediu para que o traficante seguisse viagem.
Gostaria de encerrar essa reflexão com essa analogia. Não há motivos, não há argumentos e não há crime que justifique a queda de uma presidenta democraticamente eleita. Logo, tenham a hombridade de Pablo Escobar, assumam-se. Assumem que vocês estão levando adiante um golpe. Apoiam um golpe. São golpistas. Apoiam uma traição que o vice, investigado na Lava-Jato e um réu, como presidente da Câmara dos deputados, levam adiante contra uma mulher que sequer foi citada em escândalo algum ou tem seu nome em alguma lista.
Penso no futuro, não saberei explicar essa fase pela qual passa o país. Mas, tirando proveito do meu gosto pela Literatura, quando me perguntarem como esses fatos grotescos se sucederam e uma parte do país deu sustentação para a viabilidade do golpe, explicarei que eu não fazia parte desse grupo e utilizarei uma frase de um personagem do grande Suassuna e, como Xicó, olhando para o chão, direi: "Não sei... só sei que foi assim."

sábado, 28 de maio de 2016

Bovary votaria pelo sim





Ao conversar com um amigo, pude entender melhor o atual processo de impeachment. Mas a conversa não foi sobre política. Reclamava eu para esse velho amigo a maré de azar pela qual estava passando e que essa mesma maré, na mais recente de suas ondas, havia levado meu notebook. Maldizendo minha falta de sorte, confessei que não teria grana para comprar outro computador. Um olhar de cumplicidade foi seguido do seguinte comentário: "Por que tu não dá uns tapas nele?", perguntou meu amigo. "Em quem?", sussurrei eu, olhando para trás. "No teu notebook. No meu sempre funciona. As vezes ele dá umas travada. Daí dou uns 'tapão' do lado e ele destrava.", disparou meu amigo, convicto enquanto gesticulava com a palma da mão direita.
Naquele momento me veio a síntese do impeachment. O Brasil sendo meu notebook e o impeachment como os tapas. Escreveu Sérgio Buarque de Holanda que o brasileiro segue o bovarismo. Calma, não é 'bolivarianismo'. Escrevi bovarismo. Essa definição representa nossa disposição a esperar o inesperado. Acreditamos que algo possa acontecer e, instantaneamente, melhorar o que não está indo bem. O conceito deriva do clássico romance de Flaubert, chamado "Madame Bovary". Nesse romance francês, a bela Emma Bovary, após ler muitas histórias de amor, fantasia romances que possam servir como fuga para sua vida cinza e também para a sua tediosa relação conjugal.
Tal sentimento é compreensível na lógica do futebol. Inclusive, fui acometido por essa desrazão inúmeras vezes. A última delas foi no último jogo do Grêmio. Acreditava piamente que o Grêmio iria, devido a algum milagre, claro está, anotar três gols no segundo tempo e conseguir a classificação para a próxima fase da Libertadores. Já havia feito até cálculos acompanhado do meu Xis salada. "Se fizer um antes dos 15...", sussurei próximo ao alface. Esse mesmo sentimento maldito foi o que me levou a assistir o jogo contra a Alemanha até o final.
No entanto, creio que essa lógica, se é que podemos chamar de lógica, se torna bastante nociva quando aplicada à política. Não há milagres na política. No futebol, sim. É óbvio que Deus é brasileiro. Mas seu trajeto é bem demarcado. Do estádio pra igreja da igreja pro estádio. Falando nisso, tá mais do que na hora Dele fazer uma visitinha à Arena.
Enfim, é inegável o fato de que o Brasil está travado, porém, não acredito que um tapão resolva nossos problemas. Pelo contrário, temo que entrem vírus que impossibilitem o trabalho do antivírus que nunca havia trabalhado tão bem. Meu amigo dava seus tapas porque a fé dele no destravamento é maior do que o medo do prejuízo. Isso me difere do meu amigo. Hoje, meu medo é muito maior que minha fé. Talvez isso se deva ao fato de ter lido Madame Bovary e saber que ela come arsênico ao não conseguir lidar com os problemas que ela mesma criou... ou não.

Sem bons sentimentos

Hoje pela manhã, não estava assistindo à sessão do Senado que votará o Impeachment. Enquanto organizava meu quarto, ouvia uma seleção de músicas dos anos 90. Basta apertar o botão "musica" no controle remoto e escolher um canal musical. Convenhamos que é muito mais agradável ouvir a voz da Paula Toller do que a da Ana Amélia. "Parece cocaína, mas é só tristeza", cantou Renato Russo, muito melhor do que a voz do Aécio.
Não assistir à votação, no entanto, não significará surpresa ao confirmar que a presidenta Dilma Rouseff foi afastada do cargo. Estou feliz em não ouvir a Ana Amélia ou o Perrella votando ou até mesmo se pronunciando. Minha cara pegaria fogo tamanha a vergonha alheia que sentiria ao escutar a jornalista que foi CC fantasma do marido por oito anos, recebendo 8 mil reais sem trabalhar ou o dono do helicóptero com meia tonelada de pasta base de cocaína votando pelo afastamento de uma presidenta por "pedaladas fiscais" e, segundo seus reiterados discursos, acabar com a "roubalheira institucionalizada". Lembrando que a mesma Ana Amélia que mamava no senado sem trabalhar, hoje é uma senadora. Afinal, já diz a máxima da meritocracia, "querer é poder", certo?
A hipocrisia humana é algo interessante. Acompanhando todo esse processo, notei detalhes que revelam uma desfaçatez galopante. Percebi, por exemplo, que as pessoas que votaram no Aécio Neves em 2014, foram os mesmos que pintaram as caras de verde-amarelo e saíram às ruas "contra a corrupção que está aí". Os paladinos na cruzada contra a corrupção votaram em Aécio Frozen, mesmo cientes de todas as suas maracutaias, sendo a menor delas um aeroporto construído no sítio do próprio tio com dinheiro público. Titio ficava com a chave. É ou não é o "Top das privatizações"? Não é por acaso que o nome do senador esteja mais presente nas listas de corrupção do que as próprias linhas da folha, pois algumas listas foram escritas em folhas de ofício. Aliás, ouvi rumores que a Tilibra lançará em breve um caderno de 200 folhas para toda a "gente de bem" do país, cada folha terá o nome do Aécio em uma linha diferente.
Saindo da esfera "do asfalto" e invadindo a política, hoje está sendo votado a admissão e o afastamento da presidenta por conta de um relatório que leva o carimbo do PSDB na folha de rosto. O partido perdedor, PERDEDOR, que PERDEU, saindo DERROTADO, não se contentou com o segundo lugar. Partiu, então, para a tática do Fluminense. O velho e famoso tapetão. E o mesmo PSDB do derrotado, principalmente em seu próprio estado, "Aécio Let it go", que durante a campanha se auto-titulou "especialista em derrotar o PT", já declarou que assumirá ministérios. Mas claro, não é golpe.
Após todo esse processo asqueroso e dissimulado, o que nos resta é esperar. Recordo de um personagem de Mia Couto que dizia que "a vantagem de pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem esperança." E, em resposta a toda a euforia das redes sociais, afirmo que deveríamos ter lido mais Nelson Rodrigues que pode nos ajudar a entender tanto o fato do Fluminense não ter jogado a série B após ter sido rebaixado, quanto o PSDB, vulgo perdedor, a partir de amanhã, assumir ministérios.O escritor, torcedor fanático do Fluminense, inclusive, escreveu que "muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos."

Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...