quarta-feira, 17 de abril de 2024

Empréstimo Post-mortem


    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraçada. Trágica, obviamente, mas sentimentos não são objetos concretos. São abstrações que se mesclam como nuvens. Nesse caso, admito, uma nuvem com um formato familiar e inusitado – um gato andando a cavalo. Consigo achar algo triste e engraçado simultaneamente. Convenhamos, não é patético pensar que alguém que tinha pressa teve que postergar a solução de seu problema respeitando a senha prioritária de idoso do cadáver? Alguém deve ter usado o horário do almoço para ir à agência e não ter conseguido se alimentar por conta de alguém que nunca mais sentirá fome. Pensemos num idoso que chegou após o cadáver e teve que esperar. Qual é a prioridade de um cadáver? Diria Nelson Rodrigues que a condição humana é ridícula. Há como negar? Eu, se fosse a mulher, temeria mais o ridículo do que a própria lei. Vilipêndio de cadáver - o desrespeito do cadáver ou suas cinzas – não é um crime que tenha uma pena tão pesada. Mas rodar o mundo protagonizando essa cena patética me assusta e me apena. Ninguém merece tanto. Nem ela. Nem o cadáver. A título de curiosidade, deixo aqui o registro do grau que a coisa tomou. Buscando o canal para assistir o jogo do Grêmio, passo pela CNN em espanhol e me deparo com a condutora apresentando – em espanhol, evidentemente - o caso entrecerrando os lábios a cada frase para não cair na gargalhada. 

     Não se fala de outra coisa na internet e estou com isso dando volta na minha cabeça desde que me deparei com esse absurdo. Há anos não escrevo. Essa pobre mulher, ao contrário do tio Paulo, que não pôde assinar, me fez voltar a escrever. Devo admitir que por algum momento cheguei a sentir compaixão pela autoproclamada sobrinha do cadáver. Paulo Coelho conta uma história de um aldeão que, condenado à morte por um rei, é indagado se tem algo a dizer. Seriam, claro está, suas últimas palavras: “Posso ensinar seu cavalo a voar, majestade!” – respondeu de maneira convicta. O rei, em silêncio, ouve a condicionante do réu. “Preciso apenas de dois anos de treino e garanto que ensino seu cavalo a voar”. O rei, cético, concede os dois anos solicitados pelo prisioneiro, mas adverte que, caso o cavalo não voe em dois anos, dará cabo de sua vida. Ao chegar em casa, o aldeão é recebido pela família em prantos questionando sua sanidade mental. Acalmando a família: o sorridente e aliviado aldeão parece flutuar ao dizer: “Calma, família! Acabo de ganhar dois anos de vida!” E, dentre o restante das justificativas, deixo aqui a principal, com a qual encerro meus parênteses e volto ao Tio Paulo. O aldeão diz como seu primeiro argumento: “Nunca alguém tentou ensinar um cavalo a voar, e pode ser que ele aprenda.” Sou sincero ao afirmar que senti pena da mulher, pois me parece que ela realmente pensou que “nunca alguém tentou solicitar a um morto para que assinasse.” Há um pequeno fragmento do vídeo no qual ela sustenta a mão dele em direção a caneta e se inclina sobre o cadáver como a pedir: “Assina aí, tio Paulo!”. Como é que ela ia saber que ele não assinaria se ela não pedisse. 

    Diógenes, filósofo grego e um dos mais famosos representantes da escola cínica, era conhecido pelo seu desdém às convenções sociais. O filósofo, como prova do pouco caso que fazia de tais convenções, se masturbava, urinava e defecava em lugares públicos (muito antes do 08/01). Reza a lenda que Diógenes deixou instruções sobre o que deveria ser feito do seu corpo após a morte. O filósofo pediu para que, após sua morte, seu corpo fosse descartado e deixado ao léu para ser devorado por animais. Desejava reforçar que o corpo físico não passa de um objeto que carregamos, uma casca, mas que nos é inútil após a morte, assim como os ritos fúnebres. Lembrei disso, pois prefiro ser devorado por animais a ser submetido a uma fila do Banrisul após minha morte. Há convenção social mais cruel do que uma fila de banco após a morte?

    Para encerrar essas linhas, lembrei de duas obras que envolvem cadáveres e gostaria de deixar a indicação, bastante propícia para o contexto. A primeira obra é “O mito de Sísifo”, de Albert Camus. Sísifo, a diferença de Diógenes que nunca se casou, prestes a morrer, quis testar o amor de sua mulher e instruiu sua esposa Mérope a não observar os rituais fúnebres após sua passagem para o outro mundo. Ao que, ao invés de ouvir um “imagina”, “eu não seria capaz”, ouviu um: “ok”... “pódexa”. Sísifo solicitou, como o filósofo cínico, não cínico filósofo, à esposa não enterrasse seu corpo. Mérope realizou seu desejo- ou falta dele -  e abandonou seu corpo em praça pública. Sísifo, no inferno, se sentindo desapontado pelo pouco caso demonstrado pela esposa, pediu aos deuses para regressar com o intuito de punir sua esposa que não lhe rendeu as devidas homenagens. Sísifo, segundo Camus, “quando pôde provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal.” Dizem, agrego isso por minha conta, que ele viveu seus anos de fugitivo em uma cidadezinha às margens do Golfo do México como pescador até que foi encontrado. Ao negar retornar ao submundo, todos sabemos seu fim, acaba castigado e condenado a carregar uma pedra gigantesca ao cume de uma montanha apenas para vê-la rolar ladeira abaixo novamente. São inúmeras as analogias com nosso trabalho diário. O livro trata sobre o absurdo da vida à luz da filosofia. É uma boa leitura para encarar notícias como essa. Uma das primeiras frases do livro é essa: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.”

 A última recomendação que faço é de um conto muito antigo, faz parte da obra Satyricon, de Petronio. Conta que havia em Éfeso, uma mulher conhecida por sua castidade. Ao ficar viúva, se meteu ao mausoléu do marido e chorava todos os dias. Não aceitava comida nem bebida. Por toda a cidade corria a história da virtude da mulher exemplar que definhava em lágrimas e abstenções após a partida do marido. Ao mesmo tempo, não longe dali, o rei mandou crucificar dois ladrões e ordenou a um soldado que os vigiassem dia e noite para evitar que seus corpos fossem roubados pela família para a realização de rituais fúnebres. O soldado, ao observar a luz que vinha daquele mausoléu e escutar prantos delicados, resolveu se aproximar e tratou de consolar a mulher. Resumo da história: o soldado acaba convencendo a mulher a se alimentar e, com o corpo satisfeito, outra fome cobra força e leva os dois a manterem relações sexuais dentro do mausoléu. Ao lembrar do ser trabalho, o soldado, como quem vigia o carro de tempo em tempo em um bairro perigoso, nota que falta um crucificado. Ao se lamentar com a mulher e aceitar o destino que o espera, ocupar o espaço na cruz, à virtuosa mulher se lhe ocorre uma ideia. Oferece o corpo do marido para ser crucificado para que o rei não note a ausência do ladrão. “Que os deuses não permitam que ao mesmo tempo eu presencie dois funerais dos homens que eu mais amei na vida. Prefiro pendurar o morto a permitir que matem ao vivo.” – Lamentou a mulher. 


Essas são as obras que vieram a minha cabeça imediatamente ao refletir sobre o vilipêndio de cadáver no episódio do empréstimo post-mortem. Aliás, o código penal prevê detenção e multa para o crime em questão. Espero que a mulher, se condenada, não tenha que recorrer ao empréstimo para o pagamento da multa.

Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...