sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Meu partido é... um coração partido


Os meus amigos estão perdidos, confusos, melhor dizendo, e entendo. Sinceramente, entendo. É compreensível que, no contexto atual, com tamanho distanciamento e falta de identificação, haja um desencantamento pela política e, em certa medida, uma ignorância no que tange a consciência de uma identidade ideológica. Reitero que não só entendo como também compartilho da mesma aflição que vocês. Posso, inclusive, parafrasear Cazuza, pois também o "meu partido é um coração partido." Pra mim é ainda mais difícil externar todo meu descontentamento para com o estado atual da política brasileira, tendo em conta que sempre gostei da política - por mais estranho que pareça - e ainda penso, em alguma altura da vida, quando me sentir mais preparado, quem sabe, fazer parte dela.

Devo, antes de mais nada, esclarecer que a concepção de política é bastante abrangente. A palavra política é infinitamente maior do que apenas essa política partidária – do pra rir tem que fazer rir - com a qual estamos acostumados. Eu, particularmente, entendo a política como sendo uma prática corrente do nosso cotidiano. A vida, por si só, nos torna seres políticos, na medida em que assumimos diversos papéis sociais para adaptarmo-nos frente à sociedade. Todos somos filhos, pais, amigos, chefes, subordinadas, alunas, professoras, namorado, sobrinha, vizinho, vendedora, consumidor, etc. Tzvetan Todorov, inclusive, escreve que o sentido da vida é o outro. Apenas a partir da visão do outro é que me torno capaz de perceber o mundo de forma mais ampla e compreendê-lo a partir de um olhar diferenciado, redescobrindo constantemente a sociedade estruturada a partir da sensibilização com essa experiência do outro. Ou seja, quanto mais exploro minha percepção e meu contato com o outro, mais completo me torno como indivíduo. Assim, o exercício da política se constitui como a tentativa da construção do bem comum. Se, da mesma maneira que eu, tu concordas com essa concepção de política, tu podes te considerar uma pessoa de esquerda.


Os termos conhecidos como "esquerda" e "direita" surgiram da Revolução Francesa de 1789, quando, nas assembleias, os partidários do rei sentavam à direita do presidente e aqueles que defendiam a revolução ficavam à esquerda. Ou seja, é fato que a direita surge como os defensores da religião e do rei – o status quo estabelecido. A direita política, por mais que negue, desde que foi criada, jamais entendeu a política como a tentativa de construção do bem comum. Muito antes pelo contrário, a direita ainda pensa na hierarquização social e, consequentemente, a desigualdade social como inevitável, natural, normal e, em certa medida, até desejável, pois, segundo creem, não há prosperidade coletiva e, como se não bastasse, argumentam que é necessário uma taxa de desempregados para manter a inflação sobre controle. Não irei me ater muito na diferença política desses termos, até porque há muitas nuances. No entanto, é importante ressaltar que, se na esquerda o outro é que vai ser o norte dessa construção política, na direita eu imponho minha experiência individual ao outro sem levar em conta sua singularidade, seu contexto, seus problemas e suas razões. O "eu", seguindo um pensamento de direita,  é o epicentro do processo. O parâmetro é sempre o “eu”. Se "eu" consegui entrar numa faculdade, todos conseguem. Se "eu" nunca fiz aborto, defendo a proibição do aborto. Se "eu" nunca "roubei", defendo a pena de morte, ainda que eu nunca tenha passado pela tentação. Se “eu” nunca fui vítima de racismo, o racismo não existe, por mais que eu seja branco. Se “eu” não sofri preconceito, homofobia não existe, mesmo que eu não seja gay. Enfim,  meu papel é julgar o pecador desde o meu pedestal.  Poderia exemplificar ricamente, com ilustríssimos exemplos da nossa direita, mas me faltaria tempo e disposição para escrever da minha parte e paciência e boa vontade de ler da sua. Vou me ater a uma propaganda do Maluf, onde ele solta um mantra atenuado da direita que é " Bandido bom, é bandido mort... preso!" Ou seja, eu não sou ladrão. Ladrão é o "outro", não interessa o que ocorra, o "outro" deve ser punido, enclausurado, preso e, de preferência, morto.






Sou de esquerda porque não pretendo impor minhas experiências e percepções ao outro, não costumo me usar como exemplo e colaborar com um mecanismo que eterniza as mazelas e desigualdades enquanto tenta esconder as abissais diferenças que, desde o Brasil colonial perduram em nossa sociedade. Sei que querer não é poder. Estou sempre disposto a mudar de opinião. Diferentemente da direita que se apega a morais e valores preconceituosos quando nossas políticas públicas já deveriam atentar a ciência e não a tradições escrotas.



Estamos diante de uma decisão de extrema importância para o destino do país. Há que escolher um lado. Um lado da "velha polarização", segundo Marina Silva. De um lado o PT de Lula e Dilma, e de outro o PSDB de Fernando Henrique e Aécio Neves. Há diferença? Sim. E não são poucas. Devemos decidir entre um governo de direita e outro de esquerda. Também tenho críticas ao PT. Gostaria, por vezes, de ver o partido defendendo bandeiras mais radicais para a esquerda. Mas, é inegável o avanço do Brasil na construção de um país menos desigual. Segundo a reportagem abaixo, por exemplo, em 2000, quatorze por cento dos brasileiros viviam em extrema pobreza. Em 2003, quando Lula assumiu o poder, o número atingia cerca de 17,5 %. Hoje, apenas 3% dessa população vive nessa situaçao em extrema pobreza. Nos últimos dez anos a desigualdade social vem diminuindo consideravelmente. Mais de 22 milhões de brasileiros saíram da miséria. A classe média, esse ano, cresceu 6%. De acordo com alguns economistas, entre 2001 e 2012, a classe média cresceu 37% acima da taxa de inflação. O analfabetismo que girava em torno de 13,5 % em 2003, foi drasticamente reduzido e hoje não alcança 5% da população.






Esses dois partidos representam duas concepções diferentes de sociedade. Uma sociedade que busca o fim da desigualdade social representado pelo governo do PT e outra que toma as desigualdades como algo natural e inevitável e endossa uma sociedade de privilégios. Disponibilizo  32 capas da época em que o PSDB estava no governo através do FHC para aqueles que não viveram a era FHC/ PSDB. 

Enfim, no domingo voto na Dilma, pois acredito em um governo que, em doze anos, tirou o país do mapa da fome, construiu universidades como nenhum outro, investiu em educação como nenhum outro, investiu nos serviços públicos como nenhum outro, diminuiu drasticamente a mortalidade infantil através do que a direita sempre chamou de "bolsa miséria", reconhecida por uma das mais renomadas revistas de saúde (através de estudos)  e etc, etc e etc.

Enfim, quero um governo que lute por um país melhor para todos e não somente para mim. Dispenso uma "mudança" que arrume a casa para que setenta por cento da população não possa entrar descalça e só uma seleta elite tenha acesso ao sofá.

sábado, 20 de setembro de 2014

Quem tem medo da polícia?




Há pessoas defendendo cegamente o policial que matou o camelô com argumentos de "ninguém mandou reagir", "quem não gosta de polícia é vagabundo", "quem não deve não teme", "vagabundo tem que morrer" e coisas do gênero. A cada dia que passa nossa sociedade legitima a mentalidade vigente de que policiais tem o direito de matar em prol das "pessoas de bem".  O famoso ditado de que devemos sacrificar o lobo para poupar a ovelha. O problema nesse raciocínio é que eu não me considero "uma pessoa de bem" (não confunda “pessoa de bem” com uma boa pessoa). Nunca tive amigos que foram “pessoas de bem”. Esse tipo de pessoa quase só vi pela televisão.

Quero, nesse breve texto, refletir sobre alguns dos tão disseminados jargões da família em relação ao abuso de força policial. 

“Ninguém mandou reagir”.

Só reagimos àquilo que não concordamos. A abordagem é diferente de acordo com a região em que a pessoa é abordada.  Não é nada agradável, e eu já passei por isso, ser tratado aos solavancos em uma abordagem policial com um soldado te sacudindo e gritando ofensas ao pé do ouvido e ter seus calcanhares chutados quando suas pernas já estão abertas. Tudo isso antes mesmo de perguntarem teu nome. O Brasil é o único país onde vemos disparos acidentais toda semana. As vítimas aqui também são previsíveis. São sempre as mesmas. Aqueles que não se enquadram no padrão Sheherazade.

"Quem não gosta de polícia é vagabundo"

Não vejo necessidade de me aprofundar na refutação dessa ideia tendo em conta a reiterada abordagem violenta praticada pela polícia em larga escala nos bairros pobres exposta acima. Como disse o pequeno príncipe, tatuado no corpo de um grande número de garotas: Você é eternamente responsável por aquilo que cativa.

"Quem não deve não teme". 

Por incrível que pareça, fui descobrir essa função “protetora” da polícia, quase na idade adulta,  quando - ao passear por um bairro nobre de Porto Alegre -  policiais parados, andando de bicicleta e, pasmem, sorrindo. No meu bairro, nunca via policiais. A segurança pública sempre foi ausente. No entanto, vez que outra, cantando pneus, com giroflex ligado surgiam soldados de armas em punho. Polícia no bairro gerava uma sensação incômoda, um clima ruim de problema não resolvido pairava no ar. A presença da polícia era seguida de medo e reclusão. Era não. Ainda é assim. Lembro que

“Entra pra dentro, vi uns carros de polícias andando pra lá e pra cá. Não te quero mais na rua.”

“Ahhhh... mãe!”

“Não tem A nem B! Tá cheio de carro de polícia aí! Quer morrer?!"


Assim, eu nunca “devi” nada para a polícia e, todavia, me cagava de medo! 
Creio que esse dito é o pior de todos e, depois de uma rápida análise, podemos identificar a raiz e a síntese do erro na mentalidade das “pessoas de bem”. A pessoa pode dever algo para um policial, mas como poderemos DEVER PARA A POLÍCIA? Alguém me explica? Aí está o erro. Ninguém deve nada para a polícia, senão para a justiça. A sociedade deve ter em mente que a polícia é um meio para a justiça e não um fim em si mesmo. A polícia não tem o direito de matar as pessoas. Independentemente do desejo de higienização da elite, não adotamos pena de morte no país. Um policial que mata. Na minha opinião, não passa de um mero assassino.


Que bom que existe o rap para proporcionar ao jovem uma reflexão sobre os problemas sociais. Quero encerrar este Desabafo com a música homônima de Marcelo D2:


                                        Tu quer a paz, eu quero também,
                                        Mas o estado não tem direito de matar ninguém
                                        Aqui não tem pena de morte, mas segue o pensamento.
                                        O desejo de matar de um Capitão Nascimento
                                        Que, sem treinamento, se mostra incompetente
                                        O cidadão por outro lado se diz impotente, mas
                                        A impotência não é uma escolha também
                                        De assumir a própria responsabilidade, hein?
                                        Que você tem em mente? Se é que tem algo em mente
                                        Porque a bala vai acabar ricocheteando na gente!







domingo, 7 de setembro de 2014

Povo que não tem virtude acaba por ser escravo?



                                                  
                                                                                         

"My eyes have seen the glory of the tramplin at the zoo
 We Washed ourselves in niggers blood and all the mongrals too
 We´re taking down the zog machine jew by jew by jew
 THE WHITE MAN MARCHES ON! "

                                                            Johnny Rebel






                                                          MA   -   CA    -    CO



Bastaram estas três sílabas serem flagradas em slow motion na boca de uma jovem loira, sem dúvida alguma, pertencente à tradicional elite brasileira, para gerar um frenesi na mídia e nas redes sociais sobre o tema do preconceito racial. A imprensa bateu forte no episódio e, por inúmeras vezes, o registro da moça gritando ofensas ao goleiro Aranha do Santos foi repetido e obteve repercussão mundial. Por consequência deste fato, o clube que a menina torce, por uma infeliz coincidência, o mesmo que o meu, acabou por ser submetido a um julgamento no STJD – Supremo Tribunal de Justiça Desportiva -, no qual acabou eliminado da Copa do Brasil, campeonato que estava disputando (e que eu estava crente que sairia campeão) quando ocorreu o lamentável episódio. 

No entanto, também achando exagerada a punição ao clube, compactuo com uma afirmação feita pelo presidente Fábio Koff, ao dizer que se a decisão acabar com racismo, o Grêmio fica felizDoce ilusão. Embora o racismo seja um problema escamoteado - historicamente varrido para debaixo do tapete, e, na maioria das vezes, visto como algo superado há muito, permanece de tal maneira arraigado à sociedade que esta mesma sociedade sequer enxerga o quão racista ainda é -  e muito.

Com o advento das redes sociais e a necessidade que seus usuários sentem de opinarem instantaneamente sobre todo e qualquer assunto sem a devida reflexão, se tornou muito comum saber qual é o pensamento corrente e verdadeiro, sem tempo para análises, das pessoas sobre, como já explicitei, os mais diversos temas. Assim, é muito simples termos uma ideia sobre o que defende o senso comum. Basta abrirmos nossas páginas na internet para sermos confrontados com inúmeras opiniões rasas, equivocadas e, PASMEM, racistas... e racistas pra caralho... PRA CARALHO!

Depois do lamentável fato ocorrido, como era de se esperar, o goleiro foi convidado a dar uma entrevista à televisão e, nesta entrevista, disse que o povo gaúcho é racista e insinuou também que isso pode ter raízes na colonização do estado. E eu concordo plenamente. Mas pelo jeito, apenas eu e ele. Pois dito isso, as redes sociais se tornaram verdadeiros campos de concentração. Mas, ao invés de alavancas ou interruptores,  o  disseminador do gás mortífero da ignorância era o famoso “publicar”.

Infelizmente, esse episódio de racismo deixou bem claro, ao menos para mim, o quanto ainda somos racistas e não reconhecemos. Levou-me a questionar em que estado vivem o restante dos  gaúchos, que copiosamente vociferam que o Rio Grande do Sul não é um estado racista. Das duas uma: ou nunca saíram do estado, ou nunca viajaram por ele. Ou, uma terceira e mais provável possibilidade, não sejam negros.

Eu não posso tratar essa questão do meu ponto de vista de branco, somente. Não posso afirmar convictamente que o estado não é homofóbico, racista ou elitista. Se eu não sou gay, negro ou pobre.

É fácil, apesar de extremamente desonesto, afirmar sem ressalvas que não há racismo quando você não é negro. Seguindo a mesma lógica, eu poderia afirmar, após um farto jantar, que a fome não existe. Além de parecer idiota, neste caso, estaria gravemente faltando com o respeito com todos aqueles que padecem deste mal que ainda assola uma parcela relativamente significativa da população não só brasileira como mundial. Fazer esse tipo de afirmações é de uma desonestidade intelectual sem tamanho.

Não se faz necessário sair pelo estado afora para comprovar a tese de que somos racistas. Faça isso de dentro do teu quarto. Abra a tua rede social e, por sua conta, faça a análise das publicações sobre o caso. Leia os comentários. Os gaúchos inverteram os papéis. A menina (vilã) virou vítima e o goleiro(vítima) virou o vilão da história. Ele se tornou o culpado por vivermos em uma sociedade preconceituosa e ela o ter chamado de “MA-CA-CO!... MA-CA-CO!”. Surgiram até fotos onde ela está próxima a uma menina negra. Lamentáveis publicações onde argumentam que ela tinha  “amigos negros”. Algo que me lembrou o infame argumento do "Eu não sou racista, já até peguei uma negra."

Eu, como gaúcho, tenho propriedade para dizer: o Rio Grande do Sul é um estado racista. O mais racista do país. “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo?”. Um gritante exemplo de racismo é que, além de inverter os papéis na história, no fundo, não estamos ligando para o caso. Continuamos não dando a mínima para o racismo. A maioria esmagadora das pessoas está mais preocupada em evitar generalizações do que discutir seriamente a questão e, assim, trabalhar para colocar a intolerância racial para fora e trancar a porta.

- O meu estado não é racista, o meu time não é racista, eu não sou racista; Logo, o racismo não existe.

 Outro comportamento tipicamente racista é o opressor apresentar um comportamento de vitimização frente ao historicamente oprimido. Como um constante desmerecimento da revolta de um negro ao ser chamado de macaco. Costumo exemplificar isso com a imagem de uma pessoa portando um fuzil carregado que,  a uma simples troca de olhares, levanta os braços e se diz ameaçada por alguém que está com um canivete na mochila. Na tentativa de atenuar a grave injúria racial, é comum argumentos como:

“Chamar alguém de burro pode, e negro de macaco é ofensa? Absurdo!”


Fica claro que devemos esclarecer algumas coisas. Ofensa é uma coisa. Chamar alguém de burro, gordo, filho da puta (como pululou inúmeras vezes em exemplos tentando atenuar a injúria) é ofender alguém pura e simplesmente. Agora, macaco dito a um negro constitui, obviamente, uma injúria racial, algo, ao menos na minha opinião, muito grave. 

Li até em algum lugar que a intenção da menina não foi ser racista, mas que "no calor do momento..." 

Bom... retornemos aos fatos. Ela não chamou o Aranha de "frangueiro", "mão de couve", "gordo", "filho da puta", "cara de cu", ou coisa que o valha,

                                                    ... mas...  

MA-CA-CO, como ficou bem claro nas reverberadas imagens e vídeos reproduzidos em larga escala na internet e televisão. Assim, discordo mais que plenamente de tal argumento. 




Houve também uma grande onda de ofensas ao goleiro pelo simples fato de não relevar tudo, manter-se de cabeça baixa e também por ter respondido às ofensas. (Que isso? Um negro me respondendo? Que ousadia!!).  

      Como escreveu Florestan: 
Em lugar de procurar entender como se manifesta o "preconceito de cor" e quais são seus efeitos reais, o homem branco suscita o perigo da absorção do racismo, ataca as "queixas" dos negros ou dos mulatos como objetivação desses perigos.
       O goleiro Aranha foi acusado por não ser humilde - conceito este, inclusive, que, apesar de não saber exatamente seu real significado, jamais o quero vinculado à minha pessoa. Penso que, no Brasil, um cara humilde e um cara bunda mole são expressões quase equivalentes. 

Darcy Ribeiro disse uma vez que na América latina podemos ser duas coisas: resignados ou indignados. 

         Menos o negro! Ao negro só lhe resta o papel de resignado. Um exemplo disso foi a exaltação ao ato de Daniel Alves ao comer a banana, num simbólico ato de resignação, e, na sequência, a ridícula campanha (publicitária) do #Somostodosmacacos. Podemos ver mais claramente a não aceitação da indignação de um negro nesse caso do Aranha. SOMOS TODOS MACACOS É O CACETE! É fácil dizer que "somos todos macacos" e, mais uma vez, tentar negar o racismo e a necessidade de enfrentá-lo. Creio que para superarmos a intolerância racial, antes de tudo, é necessário praticar a empatia. Calçar o sapato do outro. Colocar-se no lugar do outro.  Sempre foi usado, desde a época da escravidão, um argumento para justificar uma negação da humanidade dos negros e, consequentemente, poder escravizá-los. 

Mas o que será que significa para um negro ser chamado de macaco? Quando tu me chamas de macaco, por consequência, tu, mesmo que inconscientemente, estás negando minha humanidade e, como se não bastasse, estendes também tua injúria a todos os meus ancestrais, a toda uma raça, comparando-a com macacos. Se eu sou MA-CA-CO, minha mãe é uma MA-CA-CA, meu pai é um MA-CA-CO, meu avô era um MA-CA-CO? Mas estamos longe de calçar os sapatos e, assim, entender, pensar e respeitar o OUTRO

  
                                 


 Outro exemplo de racismo é o argumento usado contra as cotas, entendido, não como uma dívida histórica com os negros, e sim como uma "vantagem" dos negros sobre os brancos. Um raciocínio não só racista como ignorante de qualquer senso histórico do país. Tendo em conta que a discriminação que, como fica claro, ainda assola a nossa sociedade, é uma clara herança social escravagista. Pois como aponta Florestán, no livro "O negro no mundo dos brancos":
 Nenhum dele se levantou prol indenização do escravo ou do liberto, em consequência, os segmentos, a população brasileira que estava associada à condição do escravo ou de liberto vira-se nas piores condições de vida nas grandes cidades. Foram reduzidos a uma condição marginal, na qual se viram mantidos até o presente. Somente depois de 1945 começaram a surgir oportunidades reais de classificação na estrutura competitiva, ainda assim, para números limitados de indivíduos potencialmente capazes de terem êxito na competição sócio-econômica com os brancos (pág.43)




    Concluo que é inegável o fato de que no Brasil, o pobre tem cor. E, parafraseando o grande Marcelo Yuka, todo camburão tem um pouco de navio negreiro. Mas, por desconhecimento, desonestidade, ou puro preconceito, fazemos de conta que o problema não existe ou, se existe, "não é um problema meu!"

   E, como cantou Lulu Santos, assim caminha a humanidade e, sem uma reflexão séria sobre o problema e com formadores de opinião vomitando besteiras ululantes, o racismo segue escamoteado e produzindo desde bananas atiradas em estádios de futebol a injúrias raciais e o genocídio negro que continua mundo a fora.... and the white man marchs on!




                                                              "Sou eu mesmo e eu, meu deus e o meu orixá. 
                                                               No primeiro barulho, eu vou atirar. 
                                                               Se eles me pegam, meu filho fica sem ninguém,

                                                               e o que eles querem: mais um "pretinho" na febem."

                                                                                                                          Racionais MC's



                                  











sexta-feira, 13 de junho de 2014

E agora eu era herói...





           "Voltei ao lugar onde nasci e gritei: 'Meus amigos da juventude onde estão?' 
           E o eco respondeu: Onde estão?" 
                                                                                                               Provérbio Árabe





   " Eu sou o Paulo Nunes!"

   " Tá! Eu sou o Danrlei! Só não vale bomba, porque essa bola dói!"

     O futebol nunca foi apenas um esporte. Tampouco somente entretenimento, passatempo ou programação televisiva. Sempre considerei o futebol algo quase espiritual. Uma paixão. Uma paixão nacional. Falo, claro está, do Brasil onde vivem meus amigos de infância e eu. Logo, compactuávamos desde muito cedo do mesmo sentimento em relação ao esporte.

           No Brasil onde cresci não havia neve. Lá vivíamos no limiar da miséria. E foi em meio a essa mesma miséria onde construí fortes vínculos, cuja intensidade, depois de crescido, nunca mais experimentei. Foi tendo como pano de fundo a miséria que registrei os mais sinceros sorrisos, firmei as mais profundas promessas e recebi, ainda que singelos, os aprendizados mais significativos.

     Dentre os inúmeros professores que a providência pôs em meu caminho, nem todos foram necessariamente humanos. Como o campinho onde reunia-se a gurizada dos arredores. Esse local, praticamente um templo sagrado, ficava no coração de uma vila muito violenta, onde a única ONG que se dispunha a entrar era exclusivamente o futebol. Quando surgia uma bola, todas as diferenças eram deixadas de lado até o pôr do sol - toque de recolher ditado pelas mães.

" Cara, já tá quase noite!".

" Tá! OHH, PESSOAL! QUEM FIZER GANHA!"

  Não existia mundo exterior quando a bola estava rolando. Não existiam temas de casa. Não existiam segundas, terças, maio, janeiro... fronteiras. Não existiam corpos estirados no chão sem vida esperando nossos ávidos olhares à procura de furos. Não existia tristeza, exceto quando não havia goleiro fixo no time e chegava minha vez de ficar embaixo das traves. A bola e, consequentemente, sua atmosfera tinham o poder de deixar todo o mundo fora do campinho em segundo plano.

    Apesar de, na minha infância, o Brasil, o meu Brasil, é claro, já possuir o rótulo de "país da bola", era raro possuirmos uma. No entanto, isso nunca foi entrave para que nossas partidas, verdadeiras peleias, ocorressem. Era muito frequente jogarmos com uma bola de vôlei promocional que alguém, nunca eu, havia ganhado na escola em um sorteio desses promotores de algum curso de inglês, datilografia ou seja lá o que for.

"Bah, que bom, Tiago! Tu ganhou a bola naqueles sorteios dentro da sala?"

"Não, Vini! Ganhei um curso de datilografia."

"Ué... E essa bola?!"

"Troquei com a Maria, ela queria o curso."

"Pffff.... como menina é tonta.. ou ela gosta de ti! Hmm... deve ser isso!"

"Cala boca, meu! Vamos lá chamar os gêmeos pra jogar!"

" Tá!"

       Lembro que essas bolas eram extremamente frágeis e, passado uma semana, jogávamos somente com a alma da bola, uma alma negra, que alguns chamavam de "câmera". Mas não ficava por aí, não. Lembro de Jogarmos também com bola de basquete (jamais façam isso), bolas de plástico e, o que era mais comum, uma bola furada, já sem vida, da qual retirávamos sua "alma" murcha e a revestíamos com jornal e, mesmo pós-mortem, cumpria impecavelmente seu papel.

      O futebol no campinho era uma comunhão. Comungávamos a igualdade e confortavamo-nos em olhar para o lado e sentir que dividíamos um universo de coisas. Estudávamos na mesma escola, apesar de não estarmos na mesma série. Morávamos no mesmo bairro, ainda que não na mesma rua. Jogávamos juntos, mesmo que sem a mesma habilidade. E amávamos o futebol, mas torcíamos por times diferentes. No entanto, havia um rótulo que nos abarcava e nos unia. Éramos brasileiros. Todos vivíamos no mesmo Brasil. De quando em vez, com a assiduidade de uma estrela cadente, um evento fazia-nos vestir a mesma camiseta surrada, amarela e, como era de se esperar, falsificada. A camiseta da seleção brasileira. Era tempo de copa do mundo. Onze jogadores que defendiam as cores da seleção brasileira. Seleção esta que nos representava por inteiro. Cada um dos jogadores que vestiam a camiseta canarinho era um de nós. Nos sentíamos realmente representados (e ainda me sinto) por aqueles homens que também haviam crescido em meio a dificuldades. Também viam no futebol uma válvula de escape para uma série de mazelas que vivenciavam. Enfim, tiveram uma infância como a nossa. Vieram do mesmo Brasil que nós. Que não é o mesmo Brasil onde cresceram os pilotos de fórmula-1. Não é o mesmo Brasil onde cresceram àqueles que vociferam contra o governo do país, gritando aos quatro ventos que o país retrocedeu. Que não gostam do rótulo de país do futebol. Quem cresceu no mesmo Brasil em que cresci sabe apontar as melhorias e poderia ficar mais de horas conversando sobre as inúmeras mudanças. No Brasil onde eu vivo, a melhora foi significativa.

     É claro que ainda temos que melhorar muito para o amanhã, mas não devemos esquecer que estamos à anos luz do ontem. A educação pode ser tomada como exemplo. Quando na quinta série, lembro de ter uma professora que anotava no quadro as páginas que teríamos que copiar de um livro e deixava a sala para fumar e tomar café. Minutos depois de sua saída, Deixávamos a sala para ir jogar futebol no campo em frente à escola. Hoje, sou professor de Língua Portuguesa e convivo no contexto escolar e, graças ao meu bom Alá, nunca mais encontrei um exemplo de professora como aquela, além de notar que há um olhar  diferenciado para a educação.

     Hoje, os jogadores continuam sendo pessoas que vieram de onde meus amigos e eu viemos. Nossa seleção permanece sendo constituída de garotos que jogaram em campinhos de futebol como os que jogávamos. Guris que viam no futebol uma grande paixão. Que depois de uma tarde inteira de correria em um campinho bebiam água em uma garrafa de dois litros que havia passado pela boca de mais quinze e, mesmo morrendo de sede, tinham a consciência de que não poderiam beber demais, pois a mão do colega já estava suspensa no ar em direção ao ouro líquido e transparente que reluzia no interior da garrafa. Homens que representam o meu país. O meu Brasil. O país do futebol. Assim, eu não seria, de maneira nenhuma, capaz de torcer contra a seleção. Ainda mais agora que o futebol voltou pra casa.

    Resolvi escrever este texto quando, ao caminhar pelo meu bairro em um fim de tarde, avistei, a alguns metros, três meninos ao redor de uma bola de futebol, uma bola boa, jogando par ou ímpar. Ao me aproximar, ouvi algo que me pôs lágrimas nos olhos e que, de repente, como mágica, instantaneamente me transportou para alguma remota tarde da minha infância:

    "Eu sou o Neymar"

    "Tá, eu sou o Marcelo Moreno!"

     Ao que o terceiro menino que estava posicionado entre duas árvores na calçada com os joelhos levemente flexionados e os braços abertos, cerrou os olhos, bateu palma, podendo-se ouvir um pequeno estrondo seco, pois usava luvas de inverno, e respondeu:

    " Eu sou o Júlio César!"




                                     "No hay un anciano que olvide dónde escondió su tesoro."
                                                                                            Gabriel Gárcia Marquez



sábado, 1 de março de 2014

A batucada não é de bom tom?





      Não estou afim de escrever esse texto, mas, mesmo assim, irei escrevê-lo. Mais por uma necessidade do que propriamente por uma vontade. À medida que o carnaval ia se aproximando, o burburinho nas redes sociais ia aumentando proporcionalmente, até que se tornou ensurdecedor. Ao menos aos meus ouvidos. Enfim, a necessidade de escrever esse texto que vocês estão lendo é o meu claro desconforto para com um comportamento que venho acompanhando com mais frequência desde que entrei na universidade. 

       A simples vivência em uma universidade pode, digo isso sem a menor sombra de dúvidas, proporcionar um complexo amadurecimento, seja intelectual ou social, e, consequentemente, a busca por conhecimento que, se investido o esforço necessário - sim, esforço ( retomarei essa ideia mais adiante), construirão um cidadão sólido que agregará valor à sociedade e não somente ao "camarote". No entanto, a universidade também pode ser o pior lugar do mundo, graças a pessoas que não empregam o esforço necessário na busca pelo conhecimento e, como se não bastasse, querem vestir a carapuça de "acadêmicos esforçados" e recorrem ao "kit". Esse "kit" inclui, desde óculos de um determinado modelo, ao estilo musical, este que muda abruptamente ao ser aprovado no vestibular. Aquele aluno que foi prestar o vestibular escutando Radiohead, Foo Fighters e afins, ao conferir seu nome no listão dos aprovados e após cursar uma semana - "sete dias", como diria Samara - do seu respectivo curso, atualiza seu celular onde, a partir de então, ressoarão, tão somente, Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Mallu Magalhães, Maria Gadú, Chico Buarque, Gilberto Gil, etc. Não quero aqui desmerecer nenhum desses artistas e negar-lhes o talento- oh céus, Who Am I?!. 

    Apenas quero questionar a necessidade dessa cizânia ao adentrar os portões de uma universidade. Enfim, o agora aluno deixa sua singularidade de lado e abraça um mundo artificial que não lhe pertence. Apesar de ser triste, não é isso que me causa desconforto. O que verdadeiramente me incomoda são ideias prontas de um "imaginário acadêmico" que esses pseudointelectuais abraçam. Um senso comum do qual essas pessoas partilham e, a partir de então, se sentem no direito de criticar tudo aquilo que os cerca, movidos por um raciocínio enferrujado e argumentos pífios. 

    Acabar com esses equívocos, ou ao menos expô-los, é a necessidade que se faz presente neste momento e que pretendo saciar com a publicação deste texto. Cada um tem o direito de não gostar do que quiser. Eu que o diga. Minha lista de desgostos é imensa. Mas tenho a plena convicção de que meus gostos não me tornam melhor do que ninguém... muito menos pior. E isso deveria servir para todos. 

   O fato de você não gostar de carnaval, não te torna uma pessoa culta, tão somente te torna uma pessoa que ... que... que não gosta de carnaval - simples assim. Ler, simplesmente ler, não te torna inteligente. Erra aquele que pensa que quantidades de livros lidos é o que conta. Na questão da leitura; interpretação, contexto, processos mentais, cotidiano, experiência de mundo são todos partes de um processo muito mais complexo do que simplesmente... acabar o teu livro.  Assistir novela não faz de você um imbecil, assim como não assistir não fará de você um gênio. Gostar de futebol, não faz de você um alienado, assim como não gostar de futebol não faz de você alguém articulado, politizado ou imune às artimanhas de um governo corrupto. 

   Então... se você "não gosta do carnaval", simplesmente não vá! Mas que seja por opção tua... e não porque é "de bom tom" não gostar de carnaval, televisão e futebol. Não quero criticar quem não gosta de carnaval, acredito que eu também não goste tanto assim. O que pretendo criticar aqui é qualquer "orgulho" referente ao fato de não gostar de carnaval. No momento em que ponho essas colocações no papel, me dou conta do quão infantis são as afirmações que estou fazendo. Algo como: "apesar do teu colega gostar do vermelho você não é melhor que ele, isso mostra apenas que vocês são diferentes." Algo totalmente condenável em um mundo onde a grande maioria tenta combater a intolerância ao próximo com a máxima que expressa uma ideia com a qual nunca concordei. A máxima de que somos todos iguais

















domingo, 23 de fevereiro de 2014

06:15



Ao refletir minha imagem, vejo a miragem de algo que já não existe; que o tempo insiste na contínua transmutação e,
                         de grão
                                     em 
                                          grão,
                                                    c
                                                    a
                                                    i
                                                    o 
                                                                                                                               
nesse  vão do esquecimento, intento lento, mas cabal, que não me faz bem, tampouco mal,
apenas cumpre seu rumo, que posso constatar sozinho em frente ao espelho também em desalinho.
                     
                            Nessa peça vazia, dou vazão à sangria de dias no calendário, e o erário desse acordo, já foi pré-estipulado, sendo a morte o descanso de um, enfim,
           
                                                                              aposentado.


Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...