quarta-feira, 17 de abril de 2024

Empréstimo Post-mortem


    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraçada. Trágica, obviamente, mas sentimentos não são objetos concretos. São abstrações que se mesclam como nuvens. Nesse caso, admito, uma nuvem com um formato familiar e inusitado – um gato andando a cavalo. Consigo achar algo triste e engraçado simultaneamente. Convenhamos, não é patético pensar que alguém que tinha pressa teve que postergar a solução de seu problema respeitando a senha prioritária de idoso do cadáver? Alguém deve ter usado o horário do almoço para ir à agência e não ter conseguido se alimentar por conta de alguém que nunca mais sentirá fome. Pensemos num idoso que chegou após o cadáver e teve que esperar. Qual é a prioridade de um cadáver? Diria Nelson Rodrigues que a condição humana é ridícula. Há como negar? Eu, se fosse a mulher, temeria mais o ridículo do que a própria lei. Vilipêndio de cadáver - o desrespeito do cadáver ou suas cinzas – não é um crime que tenha uma pena tão pesada. Mas rodar o mundo protagonizando essa cena patética me assusta e me apena. Ninguém merece tanto. Nem ela. Nem o cadáver. A título de curiosidade, deixo aqui o registro do grau que a coisa tomou. Buscando o canal para assistir o jogo do Grêmio, passo pela CNN em espanhol e me deparo com a condutora apresentando – em espanhol, evidentemente - o caso entrecerrando os lábios a cada frase para não cair na gargalhada. 

     Não se fala de outra coisa na internet e estou com isso dando volta na minha cabeça desde que me deparei com esse absurdo. Há anos não escrevo. Essa pobre mulher, ao contrário do tio Paulo, que não pôde assinar, me fez voltar a escrever. Devo admitir que por algum momento cheguei a sentir compaixão pela autoproclamada sobrinha do cadáver. Paulo Coelho conta uma história de um aldeão que, condenado à morte por um rei, é indagado se tem algo a dizer. Seriam, claro está, suas últimas palavras: “Posso ensinar seu cavalo a voar, majestade!” – respondeu de maneira convicta. O rei, em silêncio, ouve a condicionante do réu. “Preciso apenas de dois anos de treino e garanto que ensino seu cavalo a voar”. O rei, cético, concede os dois anos solicitados pelo prisioneiro, mas adverte que, caso o cavalo não voe em dois anos, dará cabo de sua vida. Ao chegar em casa, o aldeão é recebido pela família em prantos questionando sua sanidade mental. Acalmando a família: o sorridente e aliviado aldeão parece flutuar ao dizer: “Calma, família! Acabo de ganhar dois anos de vida!” E, dentre o restante das justificativas, deixo aqui a principal, com a qual encerro meus parênteses e volto ao Tio Paulo. O aldeão diz como seu primeiro argumento: “Nunca alguém tentou ensinar um cavalo a voar, e pode ser que ele aprenda.” Sou sincero ao afirmar que senti pena da mulher, pois me parece que ela realmente pensou que “nunca alguém tentou solicitar a um morto para que assinasse.” Há um pequeno fragmento do vídeo no qual ela sustenta a mão dele em direção a caneta e se inclina sobre o cadáver como a pedir: “Assina aí, tio Paulo!”. Como é que ela ia saber que ele não assinaria se ela não pedisse. 

    Diógenes, filósofo grego e um dos mais famosos representantes da escola cínica, era conhecido pelo seu desdém às convenções sociais. O filósofo, como prova do pouco caso que fazia de tais convenções, se masturbava, urinava e defecava em lugares públicos (muito antes do 08/01). Reza a lenda que Diógenes deixou instruções sobre o que deveria ser feito do seu corpo após a morte. O filósofo pediu para que, após sua morte, seu corpo fosse descartado e deixado ao léu para ser devorado por animais. Desejava reforçar que o corpo físico não passa de um objeto que carregamos, uma casca, mas que nos é inútil após a morte, assim como os ritos fúnebres. Lembrei disso, pois prefiro ser devorado por animais a ser submetido a uma fila do Banrisul após minha morte. Há convenção social mais cruel do que uma fila de banco após a morte?

    Para encerrar essas linhas, lembrei de duas obras que envolvem cadáveres e gostaria de deixar a indicação, bastante propícia para o contexto. A primeira obra é “O mito de Sísifo”, de Albert Camus. Sísifo, a diferença de Diógenes que nunca se casou, prestes a morrer, quis testar o amor de sua mulher e instruiu sua esposa Mérope a não observar os rituais fúnebres após sua passagem para o outro mundo. Ao que, ao invés de ouvir um “imagina”, “eu não seria capaz”, ouviu um: “ok”... “pódexa”. Sísifo solicitou, como o filósofo cínico, não cínico filósofo, à esposa não enterrasse seu corpo. Mérope realizou seu desejo- ou falta dele -  e abandonou seu corpo em praça pública. Sísifo, no inferno, se sentindo desapontado pelo pouco caso demonstrado pela esposa, pediu aos deuses para regressar com o intuito de punir sua esposa que não lhe rendeu as devidas homenagens. Sísifo, segundo Camus, “quando pôde provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal.” Dizem, agrego isso por minha conta, que ele viveu seus anos de fugitivo em uma cidadezinha às margens do Golfo do México como pescador até que foi encontrado. Ao negar retornar ao submundo, todos sabemos seu fim, acaba castigado e condenado a carregar uma pedra gigantesca ao cume de uma montanha apenas para vê-la rolar ladeira abaixo novamente. São inúmeras as analogias com nosso trabalho diário. O livro trata sobre o absurdo da vida à luz da filosofia. É uma boa leitura para encarar notícias como essa. Uma das primeiras frases do livro é essa: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.”

 A última recomendação que faço é de um conto muito antigo, faz parte da obra Satyricon, de Petronio. Conta que havia em Éfeso, uma mulher conhecida por sua castidade. Ao ficar viúva, se meteu ao mausoléu do marido e chorava todos os dias. Não aceitava comida nem bebida. Por toda a cidade corria a história da virtude da mulher exemplar que definhava em lágrimas e abstenções após a partida do marido. Ao mesmo tempo, não longe dali, o rei mandou crucificar dois ladrões e ordenou a um soldado que os vigiassem dia e noite para evitar que seus corpos fossem roubados pela família para a realização de rituais fúnebres. O soldado, ao observar a luz que vinha daquele mausoléu e escutar prantos delicados, resolveu se aproximar e tratou de consolar a mulher. Resumo da história: o soldado acaba convencendo a mulher a se alimentar e, com o corpo satisfeito, outra fome cobra força e leva os dois a manterem relações sexuais dentro do mausoléu. Ao lembrar do ser trabalho, o soldado, como quem vigia o carro de tempo em tempo em um bairro perigoso, nota que falta um crucificado. Ao se lamentar com a mulher e aceitar o destino que o espera, ocupar o espaço na cruz, à virtuosa mulher se lhe ocorre uma ideia. Oferece o corpo do marido para ser crucificado para que o rei não note a ausência do ladrão. “Que os deuses não permitam que ao mesmo tempo eu presencie dois funerais dos homens que eu mais amei na vida. Prefiro pendurar o morto a permitir que matem ao vivo.” – Lamentou a mulher. 


Essas são as obras que vieram a minha cabeça imediatamente ao refletir sobre o vilipêndio de cadáver no episódio do empréstimo post-mortem. Aliás, o código penal prevê detenção e multa para o crime em questão. Espero que a mulher, se condenada, não tenha que recorrer ao empréstimo para o pagamento da multa.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Sopinha de ossos 1,2,3




Um dos pilares essenciais para que uma narrativa funcione é algo a que chamamos verossimilhança. O que lemos, ouvimos ou vemos é plausível dentro do universo ficcional criado? É essa tal verossimilhança que nos fará comprar ou não a história que nos é narrada. Coleridge – poeta precursor do romantismo inglês – propunha uma suspensão da descrença para alcançar a “fé poética”. Ou seja, ao assistir Chaves, esquecíamos por um momento que Roberto Bolaños tinha 40 anos e nos encantávamos com o guri do 8 (tradução de Chavo del ocho – nome original). Ao suspender nossa descrença, em alguns momentos nos emocionávamos, como no episódio em que ele é acusado de ladrão ou quando pensávamos que ele não iria para Acapulco.

Utilizarei o exemplo de Round 6, produção sul-coreana que explodiu nas últimas semanas, para desenvolver e explorar alguns elementos do conceito de narrativa. A série sul-coreana é hoje a mais vista da história da Netflix, encabeçando as listas de produções em todos os países onde a Netflix oferece seus serviços.  China, Crimeia, Síria e Coreia do Norte não possuem Netflix. Na Coreia do Norte, por certo, a reprodução de round 6 é crime passível de morte. Kim Jon Un proibiu o consumo de produções advindas da Coreia do Sul. Quem tratar de traficar K-pop ou Doramas para a Coreia do Norte será sentenciado à morte por tratar de perverter a juventude norte-coreana com a degradada cultura do irmão siamês do sul. Penso que há algumas explicações para tamanho sucesso e com esse texto trato de oferecer algumas delas calcadas nas páginas dos jornais.

Traço as linhas iniciais desse texto em um dispositivo sul-coreano. Enquanto escrevo, lembro que estou trabalhando elementos da narrativa com meus alunos adolescentes, todos peritos em Dorama, K-pop e produções que fazem da Coreia do Sul um grande potencial do entretenimento. O país asiático tem investido pesado no audiovisual, pois entendeu que esse soft power já não é tão soft em tempos de redes sociais e streaming além de gerar divisas para o país com uma economia em rápido crescimento. Apesar do sucesso da economia coreana e de sua rápida ascensão, ultrapassando o Brasil e figurando como a décima maior economia mundial, há forte um sentimento de desajuste social. Os coreanos se sentem angustiados e o diretor da série – rejeitada há dez anos atrás – tocou fibras internas em comum com a maioria (senão todos) dos países ao redor do globo terrestre.

A série faz uma crítica ao capitalismo do mercado financeiro ao qual estamos submetidos. Financistas entediados resolvem criar um jogo para divertimento próprio. Pobres competirão durante 6 rounds por uma fortuna. As etapas consistem em brincadeiras infantis, cuja eliminação resulta na morte do competidor. “Eu ganho dinheiro com empréstimos” – sussurra o pioneiro dos jogos no leito de morte. A expressão “dinheiro faz dinheiro” é antiga e, apesar de clichê, nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje. Tanto é assim que o diretor, Hwang Dong-hyuk, teve seu roteiro rejeitado por dez anos. Além disso, o próprio Dong-hyuk, segundo Wall Street Jornal, teve problemas financeiros que o levaram a vender seu notebook enquanto vivia com sua mãe e sua avó. A pandemia colaborou para o desenho de um contexto no qual a série cai como uma luva. A brecha que existia entre ricos e pobres se converteu num abismo de tal sorte que o salto de um extremo a outro se tornou tão improvável que arriscar a vida num jogo se torna algo razoável. É importante apontar que a série teve que ser editada para borrar o número de telefone que aparecia no cartão, devido ao número de solicitações para participar do jogo. Eis aqui, alunos, o outro extremo da verossimilhança, quando vilãos são agredidos ou ameaçados na rua por conta do seu personagem.

Não tenho dúvidas que o fenômeno mundial da série se deve a uma espécie de globalização das precariedades. GOG dizia que favela é favela em qualquer lugar e eu concordo. Eu acrescentaria que fodido é fodido em qualquer lugar e a série é sobre isso (e não tá tudo bem). A série é um olhar sobre os fodidos. Ainda que com outros nomes, a precarização do trabalho é uma realidade que não conhece fronteiras. O personagem principal é um motorista desempregado. Em tempos de redes sociais, do arrasta pra cima, dos coachs quânticos, das mensagens motivacionais, do mindset, a precarização se casa com o bovarismo, característica tão essencial da nossa identidade. Somos adeptos do pensamento mágico e a educação não vem nos ajudando a discernir romantização do trabalho precário de empreendedorismo. Eu me identifiquei muito com o personagem principal. Eis aqui, queridos alunos, outro elemento central de uma narrativa: os personagens. Existem dois tipos de personagens em uma narrativa: personagens planos e esféricos. Personagens planos são aqueles que dão cor a histórias mais maniqueístas, são bons, sacanas, tontos, independentemente do contexto no qual estão inseridos. Personagens esféricos, por sua vez, são complexos e podem surpreender por suas atitudes e sempre há espaço para redenção. Volte a essa parte ao final da série e você entenderá melhor a última linha. O personagem principal é bastante complexo assim como outros que o circundam, a exemplo da garota norte-coreana que sonha com trazer a família para o país.

Sete de cada dez brasileiros estão endividados. E como a taxa de desemprego não diminui, as perspectivas de futuro não são boas. Round 6 cai como uma luva no Brasil atual. Enquanto escrevo esse texto, circulam as imagens de famílias inteiras revirando um caminhão de lixo em busca de alimentos em Fortaleza. Enquanto o preço da carne dispara devido à inflação, ossos passam a ser vendidos por quilo em Santa Catarina para sopa – 4 reais o quilo. “O osso é vendido e não dado” – pontua a placa à maneira de lição moral: Não dê o osso, ensine a caçar! O Brasil, num moonwalk tropical, deslizou décadas para trás e, apesar de ser um dos maiores exportadores de carne no cenário internacional, reduziu o consumo para o nível de 25 anos atrás. É o veganismo resignado. No entanto, a crise não é para todo mundo, o consórcio internacional de jornalistas trouxe à luz inúmeros documentos que revelam nomes de donos de Off-Shores nas ilhas virgens britânicas. Off-shores são empresas registradas em países com um regime fiscal quase nulo. Empresas em paraísos fiscais para driblar a cobrança de impostos no país de origem. Eis o enredo, alunos. Outro elemento essencial da narrativa. Tanto Round 6 quanto o Brasil 2021 podem ser resumidos a uma massa de endividados sob o jugo de uma elite que sequer se comunica na linguagem do povo que governa. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, aparece na lista como dono de uma empresa batizada Dreadnoughts International Group Limited. “Dreadnoughts” é o nome de um navio couraçado de guerra. Escreveu Borges: “O nome é o arquétipo da coisa, já nas letras de rosa está a rosa. E todo o Nilo na palavra Nilo.” Imaginemos que essa empresa fizesse jus ao nome e realmente fosse um navio. O nome seria deveras simbólico, pois dentro desse navio, repleto de canhões, Guedes escondeu 9 milhões de dólares e, escapando do Brasil, atracou a embarcação nas Ilhas virgens britânicas. O real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar durante a gestão de Guedes na Economia. Ao assumir o ministério, o dólar estava em R$ 3,85. Enquanto escrevo esse texto, a moeda americana alcançou os R$ 5,60. É importante sublinhar que o preço do dólar é um fator que influencia os preços do mercado interno em um mundo globalizado. Apesar da Petrobrás ser brasileira, o preço da gasolina, a partir do governo Temer, foi dolarizado, ou seja, também está à mercê das flutuações do dólar. O aumento da moeda americana torna tudo mais caro, os alimentos que o digam. Guedes, no entanto, na contramão do resto do país, lucrou 18 milhões de reais com a genuflexão da moeda nacional diante da estrangeira. Desde que assumiu a pasta, segundo alguns estudos, o ministro lucrou 14 mil reais diariamente. Foi bastante simbólico o fato da justificativa de Guedes ser dada em inglês. Não esqueçamos que aqueles que desfrutavam da carnificina e do tétrico show proporcionado pelos jogadores na série se comunicavam em inglês e não compartilhavam sequer da cultura do país do qual se aproveitavam. Personagens planos, assim como não há complexidade em Guedes. Sádico ao ponto de rechaçar a ideia de um dólar baixo recomendando às domésticas visitas à Cachoeira do Itapemirim em vez de ir à Disney. “Vai conhecer onde nasceu o Roberto Carlos, vai passear o Brasil – vociferou o ministro no início do ano passado. A língua inglesa, na conversa dos “vips”, no nome da Off-Shore de Paulo Guedes e no seu esboço de justificativa desenham um país extremamente desigual cuja suspensão da descrença que falávamos ao início do texto sequer se faz necessário. O aumento do dólar que afasta o pão e a carne da boca do pobre, enche o porquinho de Paulo Guedes em terra estrangeira. Round 6 soa menos cruel que o Brasil de Bolsonaro, na série morrem 455, aqui já morreram mais de 600 mil e ninguém levará os 53 milhões do ministro que se acumulam no paraíso fiscal. O espaço da narrativa, uma ilha paradisíaca, outra vez parece uma analogia pronta. Sinto que esse texto já veio pronto, só transpus pro Word.  O consórcio de jornalismo investigativo que descobriu essa empresa de Guedes batizou a operação de Pandora Papers - papéis de Pandora. Segundo o mito de Pandora, Zeus prepara uma caixa com todos os males do mundo e oferece a Epimeteu, irmão de Prometeu, com o objetivo de se vingar do fato de Prometeu ter disponibilizado aos humanos o fogo. Após um vacilo de Epimeteu, Pandora abre a caixa e deixa escapar todos os males contidos na caixa, restando apenas um item ao fundo: a esperança. O encontro do vencedor dos jogos com o organizador tem como pano de fundo uma aposta que envolve esse elemento – a esperança. “Hoy se me agotó la esperanza”, encerro esse texto com uma citação da Shakira, que também está na lista.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Quando a resignação é covardia


Texto escrito em setembro de 2017


O poeta Pasolini acreditava que antes de lutar por um mundo melhor devemos lutar para evitar que piore. Aponto que, apesar do salário congelado há quatro anos, a atual greve dos professores eclodiu por conta do parcelamento, cujo último mês iniciou com uma mísera parcela de 350 reais.
Ainda assim, há professores que seguem trabalhando. Como Italo Calvino escreveu que toda leitura de um clássico é, na verdade, uma releitura, lanço mão da Literatura buscando retratar o mundo por analogia. A atitude de alguns professores que não entraram em greve ou que deixaram de fazê-la tão somente receberam os salários me faz lembrar um conto de Tchékhov.
O conto faz uma crítica à resignação covarde. Durante um acerto de contas, a governanta Iúlia Vassílievna escuta passivamente seu chefe construir uma narrativa mentirosa na qual ela ganharia muito menos do que foi combinado. “Então, a senhora ficou dois meses”. “Dois meses e cinco dias”. “Dois meses, tenho anotado aqui”. O chefe descontaria dias em que sua filha adoeceu, uma xícara que ela supostamente havia quebrado, e até um sapato que uma costureira roubou de sua filha sob o argumento de que ela deveria ser responsabilizada. Enfim, o chefe pagaria onze rublos quando ela deveria receber oitenta.
Apesar do rubor, dos olhos cheios d'água, Iúlia jamais reagiu. Após receber o mísero pagamento, a governanta timidamente murmura um "merci". Neste momento, o chefe se levanta indignado e pergunta a razão do agradecimento e se ela não havia percebido que ele a estava roubando. Iúlia disse que agradecia pelo dinheiro, pois houve locais em que trabalhou e nem sequer recebeu. (Lembro aqui quando o governador afirmou que o servidor deveria agradecer a Deus pela estabilidade.) Então, o chefe se desculpa e diz que lhe pagará os oitenta rublos, mas pergunta se alguém pode ser tão pateta. Se é possível não protestar. Nesse mundo é possível ser tão palerma? Iúlia dá um sorriso amarelo que o patrão lê como um "Sim, é possível". O sorriso de Iúlia e a resignação de alguns professores provam que sim. Em suma, a dignidade não é um valor indispensável a todos.

segunda-feira, 29 de junho de 2020






                                                                    Abismos

Uma confissão: cogitei votar no Bolsonaro. Não com o entusiasmo do Haddad que, recém terminada a campanha, afirmou, em uma palestra em Nova York, que talvez o Brasil crescesse sob as rédeas de um governo liberal. Minhas intenções, confesso, eram bem menos nobres. Votaria no Bolsonaro como quem é acometido por questionamentos inconfessáveis. Quase digitei 17 movido pelo “e se”. Meu humor normalmente nasce de um dilema que inicia com um “imagina”. Causa-me graça o improvável. A quebra de protocolos sociais, alguns deles, claro está, inconfessáveis, é fonte da minha diversão mais genuína. Esse traço de personalidade, talvez, se deva à formação cultural que tive. É possível que, de alguma maneira, Jackass siga retumbando no meu inconsciente. Ainda tenho muito presente uma cena do filme de 2002 e que talvez empreste razão ao subtítulo “O cara-de-pau”. Um rapaz dá início à cena relatando a um médico que participou de uma festa com alguns amigos, bebeu demais e acabou apagando. “Eu devo ter caído e quebrado alguma coisa, pois tenho tido dificuldade para caminhar desde então”, conclui o rapaz, arrastando a voz que aponta certo incômodo. O médico propõe um raio x, ao que o rapaz prontamente se dispõe. Ato contínuo, vemos o médico encarando atônito uma chapa de raio x que apresenta um carrinho de brinquedo cuidadosamente estacionado no reto do rapaz. O cara envolveu um carro em um preservativo e introduziu no próprio ânus apenas para colocar as pessoas em uma situação incômoda. Por conta da insólita situação, é constrangedora e, claro, hilária, a caça de palavras empreendida pelo médico para relatar ao paciente o que aconteceu. A cena acaba com o médico envolvendo o braço sobre o pescoço do rapaz e consolando-o enquanto sussurra que ninguém precisa saber disso. O amigo que o acompanha à consulta já é muita gente, afirma o médico. Sigo achando essa cena engraçadíssima pela completa falta de sentido. Os amigos com os quais compartilho tais conjecturas irrefletidas são minhas amizades mais sinceras. Enquanto escrevo essas linhas, penso que talvez seja essa a metáfora perfeita para a embaraçosa situação nacional. Após uma festa (festa da democracia, como alguns rotularam as manifestações de 2013), acabamos entorpecidos e despertamos agora sem conseguir caminhar direito e, independentemente do raio X, não sabemos como expelir aquilo que colocamos pra dentro. Não tem maneira de sair no cocô? - questiona o rapaz, simulando aflição. Não, responde o médico, vai doer. É necessário cirurgia.
Tenho agora a plena consciência de que fui invadido por esse humor involuntário das conjecturas absurdas. O que aconteceria se colocássemos um idiota - tradução de Jackass - na presidência? Admito que jactava-me a projeção imaginária do Bolsonaro discursando na ONU, lançando mão de repetidos Taokeys. Vingança perfeita. Depois do 7x1, obrigaríamos Angela Merkel a dialogar com um quadrúpede. Por ironia do destino ou macabra coincidência, a vingança seria apenas a inversão da posição do sete. Hipócrates escreveu em algum lugar que o número 7 é a fonte de todos os câmbios. Eis o nosso câmbio. De 7x1 para 17.
Enquanto escrevo essas linhas, lembro de um conto de Luiz Vilela, chamado abismos. Nesse conto, a alguns passos de um abismo, um casal admira as luzes da cidade. Deslumbrada, a mulher, ao inclinar-se para abraçar o companheiro, topa com seus olhos fixos que a fitavam. Ela questiona se há algo de errado ao que ele, levantando-se, responde bruscamente: “Vamos embora”. Já no carro, após quilômetros em silêncio e sob forte interrogatório acerca de seu comportamento, ele responde:
Eu ia te matar. Eu ia te empurrar lá de cima, no abismo.
Atônita, a mulher pede para que ele pare o carro imediatamente ou ela se jogará. Ao longo do caminho, ele tenta, sem sucesso, explicar que possuímos sulcos na alma que não terminamos de entender. Posso entendê-lo perfeitamente e meu texto caminha nesse sentido. Nossa íntima geografia abarca abismos desconhecidos e, às vezes, inacessíveis a nossas bússolas. Assim, de maneira abrupta, levantei-me do abismo e se desanuviou a ideia de votar no Bolsonaro como uma piada do improvável. Acabei votando no Haddad sabendo que era inútil. Inês já era morta. Bolsonaro, cria do antipetismo, como Pacman, se alimentou do petismo que lhe ofereceram. Curiosidade: o nome Pacman é uma ocidentalização da onomatopéia japonesa Paku, som que - segundo os japoneses - representa o abrir e fechar da boca. Ao som da abjeta cançãozinha riponga de “vira-voto-vira-vira”, era possível ouvir Paku... Paku… Paku, enquanto Bolsonaro avançava no jogo e comia tudo o que via pela frente. Inclusive gente.
Aconteceu. Era previsível. Bolsonaro ganhou e, à laia de quem diminui a velocidade para observar um acidente na via, inconscientemente buscando corpos, tenho escutado as entrevistas de Bolsonaro e toda a malta de idiotas que compõem o governo. Quero deixar de fazê-lo, mas não consigo. A burrice do Bolsonaro me causa uma atração inexplicável. Bolsonaro é tão tosco que chega a ser digno de ingresso. Foram inúmeras as vezes que ouvi seus pronunciamentos aos sussurros de “que doente”. “Que retardado”, murmurava entredentes enquanto pendia a cabeça negativamente de um lado a outro. Porque tu não para de escutar, perguntou um amigo meu ao qual relatei esse fato. Não sei, respondi. Não sei… Enfim, abismos. Schadenfreude é uma palavra que expressa um sentimento de desfrute do infortúnio alheio. Talvez esse termo, coincidentemente alemão, ajude a desenhar os primeiros traços de uma explicação para esse abismo o qual não posso deixar de encarar. Não deixa de ser uma ironia o fato de eu conseguir externalizar meu sentimento para com o governo apenas por meio de um termo alemão. 8x1.
Talvez, tenho pensado muito nessa hipótese, minha fixação por esse abismo em particular se explique, em parte, pelo meu gosto pela literatura. Não estaremos presenciando um novo movimento em contraponto ao realismo mágico? Nesse movimento, os personagens ganharam vida antes dos autores. Bolsonaro, ao contrário do que normalmente acontece, não seria um autor, Olavo de Carvalho tampouco, nem Ernesto Araújo, Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, ou Ricardo Salles. Seriam todos personagens. Indomáveis personagens que não respeitam qualquer lógica narrativa, haja vista a imprevisibilidade do governo. Não há análise plenamente possível, pois não há lógica. Estaríamos vivendo a revolta dos personagens de algo ao qual eu rotularia realismo desencantado, numa clara oposição ao Realismo mágico. Esse movimento literário é caracterizado pela ausência de qualquer tipo de abstração, magia, esperança, fascínio ou encanto. No enredo, caberia apenas uma tediosa cotidianidade óbvia. As capas dos livros são cinzas. Livros, de preferência, sem muita coisa escrita. Aglomerações de tweets isentos de coesão ou coerência. Os personagens não são dotados de qualquer traço de complexidade, pois, como as palavras levam invariavelmente à complexidade, resta a iletrada vulgaridade. A complexidade é o curso natural da correnteza da qual emergem as palavras. As pessoas, no realismo desencantado, se comunicam por meio de gestos, sempre com os dedos, pois semblante é coisa de teatro, teatro é arte e arte, como qualquer bom consumidor do realismo desencantado sabe, é coisa de vagabundo. Vamos a um breve manual de como se dá a comunicação no contexto do realismo desencantado. Dedos imitando arminha podem representar felicidade ou revolta. Notem que primário. Explico. Arminha com dedo acompanhada de sorriso irônico e olhos semicerrados: felicidade. Arminha com dedo acompanhada de cara fechada: indignação. Dedos desenhando aspas no ar significam o contrário do que se quis dizer anteriormente, ou o desejo de sublinhar exatamente o que se disse, pois o domínio das aspas é complexo no tocante a isso daí. Escrevi há um tempo atrás que sinto falta de quando o indicador e o polegar fugindo do punho fechado, formando uma espécie de L meio enviesado, representavam apenas o símbolo do Latino. E esse símbolo, claro está, era utilizado somente por ele. Em certa altura da política nacional adeptos de espectros políticos mais preguiçosos se apoderaram desse símbolo e vulgarizaram a discussão política. Se pudesse escolher a trilha sonora para retratar esse período da política tupiniquim, seria o single da XUXA “mexa os dedinhos” ou, em sua versão internacional, Put your finger in the air.
Realismo mágico foi um movimento literário que transformava o mágico em algo cotidiano, sem estranhamento algum. Uma mulher estendendo roupa poderia, por exemplo, sem qualquer antecedente causal, levitar e ganhar os céus. Bolsonaro, porém, transformaria tudo em uma maçante obviedade. Não há complexidade. Qualquer assunto complexo cabe na expressão “Isso daí”. “No tocante a isso daí”. Seja desarmamento, choro de criança, Coronavírus, Economia ou física quântica. “No tocante a isso daí”. Se possível: “Issaí”. Encerro esse texto admitindo que o Bolsonaro não me parece mais engraçado. Na verdade, ele nunca me pareceu engraçado. Se você entendeu o texto, querido leitor, e olha que, levando em conta a realidade do pais, isso é privilégio, ficou claro que sempre vi no Bolsonaro apenas um imbecil. Exatamente por isso me causava graça. A improbabilidade insólita de um completo animal governar uma nação despertava meu humor. Mas como já revelei, foi uma piada express, tão efêmera que nem cheguei a compartilhá-la com ninguém... até agora. Não votei nele e jamais votaria. Porém, tenho amigos que votaram e gosto de pensar na possibilidade de uma espécie de protesto. Tento acreditar que eles levaram a piada longe demais. Ou o fizeram à laia de protesto.
Na edição da Folha de São Paulo do dia oito de dezembro de 1980, devido ao assassinato de John Lennon, Paulo Francis cita um ótimo ensaio do socialista Michael Harrington, cujo texto recomendo fortemente a leitura. Michael propõe que a voz fanha de Bob Dylan era uma forma de contestar a cultura cruel que era capaz de criar um Bethoven, que não poderia ser melhorado e os horrores tecnológicos de “Napalm”, de Nagasaki e Hiroshima. Francis cita Harrington contextualizando a velha guerra de braço entre gerações. Na impossibilidade de superar o pai, eu o ridicularizo, o desafio, o ponho em xeque. Gosto de pensar que a eleição de 2018 foi fruto de um protesto, que Bolsonaro tenha sido eleito por ser estúpido. De zoeira. Mas temo que não. Temo que Bolsonaro tenha sido eleito por convicção. Sempre tive a clareza de que o Bolsonaro era um retardado. A graça era essa, amigos. Sua estupidez era peculiar desde sempre. A ignorância de Messias é um diamante em bruto, algo a ser apreciado pelas futuras gerações. Apesar dos esforços que uma parcela da esquerda que não acredita na burrice faz para tentar validar atitudes estapafúrdias de Bolsonaro como “cortina de fumaça”, nosso presidente é um monumental idiota. Espero que as pessoas que votaram como protesto, tomem consciência do erro e revejam suas atitudes mas, como cantou Gessinger, pra ser sincero, dos bolsonaristas convictos não espero muito. Afinal, já dizia o velho ditado: quando um tonto escolhe um caminho, o caminho acaba e o tonto segue.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ainda que eu queira, te juro que nunca voltarei






Estamos sozinhos. Escrevo com a trilha sonora dos cochichos de carros que rasgam a BR116. Há algum tempo estou a observar a constelação de luzes que se revezam sobre o brilho do asfalto molhado. Talvez o frio, o vai-e-vem incessante de faróis e luzes de freios ou a confortável sensação de observar sem ser visto, criou um ambiente propício para que florescesse em mim uma leve e agridoce melancolia. Sinto que essa avenida é um céu onde há sempre a certeza de fugazes luzes. Cada vez me custa mais trabalho desenhar textos. Sinto que me esvazio mais consoante à passagem dos dias. A alma me escapa entre os dedos.

Há algum tempo deixei de desejar e talvez esse fenômeno remonte à infância, período no qual abandonei a caça por estrelas cadentes. Criança, brotaram-me verrugas nos dedos. Vai doer, vó? Perguntei, ao passo que a adrenalina prendia um calor que subia desde as pernas invadindo as costas até formigar o pescoço e ruborizar minhas bochechas por sentir-me enganado pela mãe da minha mãe que omitiu a presença de qualquer tipo de injeção no processo de remoção. No entanto, desembrulhava o médico, sem pudor algum, uma seringa nova. Impessoal, o médico vestia a indiferença de adultos que já passaram pelas provações da vida, à laia do professor que prepara prova aos alunos, submissos, a respirarem fundo e rezarem indecifráveis preces que se tornam mais efusivas ao ritmo dos dedos que o educador leva à língua ao separar as avaliações distribuídas de classe em classe. A tensão inodora e incolor sufoca como Sarin. É só um choquezinho em cada uma delas, disse a voz do médico abafada pelo tapabocas branco como um sub-zero níveo pago pelo erário público. À medida que o tapabocas se aproximava tocando o êmbolo da seringa como quem acaricia um gatilho, encarei minha mão direita tomada de verrugas como um incentivo semelhante ao último olhar que lançara à mãe antes de, no parque de diversões, em uma remota São Leopoldo Fest, montar por primeira vez no Kamikaze ao lado do meu primo que não poderia colar em mim a pecha de cagalhão. Absorto, encarava minha mão na tentativa de entender o que me levou a entrar naquela fila do parque Tupã e subir na Elba da minha vó em direção ao pronto-atendimento da Scharlau. Com os olhos apertados, como se tentasse abrir uma noz repousada na cavidade ocular, ouvi minha avó perguntar a razão do aparecimento daquelas verrugas nos meus dedos, prolongando assim meu sofrimento. Ao abrir os olhos lentamente na esperança desesperada do banhista que sente areia a roçar seus pés novamente após a sensação desoladora de não dar pé e não saber nadar, percebi como a crista enorme de uma nova onda prestes a me devorar a agulha reluzindo ameaça. A ansiedade sabe a água salobra. Tu costumas apontar o dedo para as estrelas? Suponho que me perguntava o médico quando voltara a apertar com as pálpebras com tanta força que não lhe pude responder devido à concentração no meu medo. Nem mesmo a ternura que adivinhei na sua voz desenhada com notas de riso diplomático foi capaz de aplacar meu pavor daquele instrumento de tortura que os adultos tinham a desfaçatez de comparar com picadinha de mosquito. Mas sim, quando guri, apontava estrelas. Desde os onze, por mera estética, deixei de alçar os olhos ao céu. Se estrelas causam verrugas, deixei de dar-lhes atenção. Astros esnobes que deixaram o brilho subir à cabeça.

Ao deixar de olhar o céu, meus olhos se resignaram ao chão. Então pude perceber que, a nossa particular maneira, somos estrelas também. Apenas um fonema nos difere das estrelas cadentes. Somos estrelas, claro está, porém carentes. Ao cair da noite, observo, aqui de cima, debruçado à janela, que formamos uma apressada constelação. Não sabemos bem pra onde vamos, mas vamos mesmo assim. Adeptos da filosofia zecapagodiana, deixamos a vida nos levar. Sabemos que devemos ir. Existir é estar em movimento. Imobilidade é a morte e por isso corremos demais. Como estrelas carentes que se prezem, deixamos brilho pelo trajeto. Ao final, apagaremos. Todos nós, mais dia menos dia, seremos noite. Algumas estrelas da minha família já se esfumaram. Se ontem foram intenso brilho, hoje descansam na infinita noite. Porém, seguem nascendo estrelas. Há um ano nasceu uma e há quatro semanas, outra. Muito tempo se passou desde que fui novidade na minha constelação. Pra ser sincero, nem lembro mais.

As estrelas, tanto as cadentes como as carentes, costumam nascer e morrer de forma parecida. Após nascer, vão esfriando pouco a pouco até que seu ciclo chega ao fim. Ciclos sempre individuais. Nós, estrelas carentes, gozamos breve tempo de existência. Fadados ao movimento, não há volta atrás. Ninguém nunca regressou a lugar nenhum que havia deixado antes. Por mais banal que se apresente o caminho, a volta está vedada. Ao perfilar-me na fila do Kamikaze, me dei conta de que já não haveria retorno. Um de dois: ou voltaria como cagalhão aos olhos do meu primo ou como alguém com uma nova experiência. Não voltaria igual. Não nos podemos rebobinar. Antes de começar esta linha, levantei para comer um pão recheado com goiabada. Ao regressar, estou alguns minutos mais velho, alguns gramas mais gordo e, se volto à cozinha por um copo d’água, haverá a ausência de um pão e de uma fatia de goiabada em uma embalagem aberta. Desde a janela, estiro o pescoço agora e são outros os carros e caminhões que, em fração de segundos, deslizam pelo asfalto. Segundos esses que se esfumam. Já não voltarei a viver os minutos que se decompuseram enquanto escrevia esse texto. Como estrela carente que sou, deixo um pouco de brilho em toda caneta que agarro. O tempo que escrevi a linha anterior me é inalcançável já. E esse tempo, aliado às infindáveis voltas do relógio que já vivi até aqui e que também são inacessíveis a mim, ignorando minhas desesperadas suplicas, evitam me encarar aos olhos quando, juntos, dotados de uma força descomunal, me empurram até o abismo da noite. Hoje, o tempo me empurra mais rápido e com mais força que outrora. O tempo, astuto como enxadrista profissional, me convencia quando criança a caminhar sozinho e, por vezes, correr. Muito corri na adolescência sedento de futuro. Sorríamos correndo, o tempo e eu, de mãos dadas contra o vento. Quando percebi o caminho mais tortuoso e quis voltar, o tempo, já muito forte, me obrigou a seguir caminhando. Desde então, o tempo já não sorri pra mim e eu, mais por birra que por esperança, caminho arrastando os pés. Mas, ainda assim, caminho. É inútil apresentar resistência. Haverá algo mais triste que a constatação de uma mulher que a himenoplastia não lhe devolveu a virgindade? Não se perde a virgindade duas vezes. Se o céu um dia foi o limite, com tristeza constato que hoje cavamos buracos. Em ano de eleição presidencial, buscamos paraísos idílicos perdidos. Admito que me assusta essa nostalgia ambidestra. A política, quintal onde deveríamos construir em conjunto um futuro, sentou no passado, sufocando o presente. Como curupiras angustiados, estamos a permitir que os calcanhares apontem nosso norte. Ansiosos por colgar medalhas num passado sem pescoço, caem ao chão as honrarias de perecíveis vitórias das inúmeras batalhas eternamente perdidas. Se a direita desenha, à ponta de faca, um sorriso de orelha a orelha num passado lúgubre, a esquerda, por sua vez, promete que ainda é possível sentar à grama para comer bergamota sob um agradável e brilhante sol que já se pôs. Como cantou Joaquin Sabina, aprendi em Comala que não deveríamos tentar voltar ao lugar no qual um dia fomos felizes. Não há regresso. Algo morreu em mim ao regressar à rua em que viveu minha avó e onde passei bons momentos da minha infância. Anos depois, tudo estava diferente permanecendo exatamente igual. Surpreso, me dei conta que quem tinha mudado havia sido eu. Recuperei a rua, mas não a minha infância. Fiquei compadecido com a senhora que, reconstruindo o hímen, entendeu que a virgindade se perde apenas uma vez. Ao descer da Falcon, frente ao campo onde fiz tantos gols e perdi outros tantos, notei o brilho nos olhos dos meninos que, deixando de lado a bola, encaravam minha moto com olhos de desejo. De mãos dadas com o tempo, os pequenos corriam desacorçoados em direção ao futuro mais rápido que seus pés. Quando quis alertá-los do quão traiçoeiro o tempo pode ser, o jogo já havia recomeçado com a seriedade sincera que só cabe na brincadeira. Essa experiência me causou uma azia na alma e a queimação, vez que outra, como hoje, ainda me causa desconforto. Uma leve melancolia me acomete. Não aceitem que ninguém lhes prometa o solo fértil e o aconchegante ambiente do passado. Não posso conceber anseio maior que esse. Afirmo amargurado, no entanto, que a volta definitiva é impossível. Sendo maior que a minha mãe, constato tristemente que o regresso dos regressos já me é impossível, nem cortando minhas pernas poderia aconchegar-me no âmago do seu útero. Já não somos um só. Morreremos sozinhos. Como estrelas carentes, devemos aprender a carregar com o pesado fardo de nosso inevitável porvir. Fecho a janela triste ao perceber que o movimento dos carros não cessará e que, mesmo dormido, me empurra o tempo a caminho da noite escura que, ao fechar a janela, é tudo o que alcanço a ver: uma escuridão sem estrelas.

sábado, 18 de março de 2017

O que eu vou comer agora?




"Não como porco porque porco come qualquer coisa"
                                                                                                                                                                                           Ariosto Ducchese

Escreveu Shakespeare que "o ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra." Depois de ler que nossa carne está adulterada, acho que veneno a mais, veneno a menos... Porém não escrevo para destilar ódio, ainda que espero que essas palavras sirvam como um forte empurrão.
Não sei se existe o termo "suicídio virtual". Caso exista, já passei da fase em que padecemos de uma depressão cibernética e estou no elevador subindo ao topo do prédio de onde, de braços abertos, me atirarei, mas, como cantou O Rappa, por se tratar de uma morte virtual: "vocês não vão ver os meus pedaços por aí".
Diz a Bíblia que "a lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado". O Facebook foi o responsável por mais um blackout. Digam-me como é que alguém pode ter qualquer iluminação quando memes cruéis predominam no Facebook após a triste constatação da adulteração nas carnes que levariam, segundo as investigações, até papelão.
Não necessito revelar aos meus amigos próximos o fato de que sou pobre, pois é bastante provável que eles também sejam. A pobreza nos foi passada por osmose. Cresci onde muitos nascem, mas poucos crescem. Meu bairro é um dos mais perigosos do estado. Esse desprivilegioso privilégio me foi muito útil. A vida aqui, se acompanhada da devida reflexão, ensina mais que qualquer graduação.
Lembro que se caçava ratão e lagarto aqui aos arredores para comer. Pombas, artigo de luxo, estava extinta no bairro. Meu bairro era a Síria das pombas. Eu tinha 13 anos quando, a caminho da escola, sobre o dique, avistei um mendigo segurando um cágado. Ao ver o morador de rua, radiante, pedi para segurar o cágado. Sorrindo, o simpático homem, estendendo os braços, disse: "Claro". Enquanto encarava o cágado recebia por parte do animal um olhar gélido, de uma indiferença tamanha que só voltaria a receber de uma professora que desnutria qualquer possibilidade de carinho por mim na graduação. Simultâneo a essa troca de olhares entre o cágado e eu, o mendigo comentou como quem não pôde conter a ansiedade: "Vou fazer uma sopa de tartaruga". O cágado, talvez não se reconhecendo como tartaruga, manteve o olhar de resignação. As perceptíveis notas de felicidade na voz do homem não foram capaz de impedir que eu arremessasse a tal "tartaruga" no meio do rio sob o olhar atônito do homem que experimentou uma súbita mudança no seu semblante. O homem olhou para mim, olhou para o rio, novamente para mim, fechou os olhos e desatou um choro desesperado. Soluçando, me perguntava o que comeria agora. Eu não havia pensado nisso. Improvisei uma desculpa sussurrada quando o homem já se afastava levantando poeira com a força que batia os pés no chão do dique em direção à vila. Fui para a escola cabisbaixo. Desde então busco pensar mais a fundo nas coisas.
Aos 13 anos, aprendi o que muitos vegetarianos beirando os 50 ainda não aprenderam. O vegetarianismo não se trata apenas de "salvar bichinhos". Há implicações bastante complexas nisso que vão muito além dos limitados polos de "bem" e "mal". Hoje me pergunto, onde aquele homem comeria agora? Comeria o sanduíche natural de R$ 25,00 do Food-Truck de vocês? Ou talvez assistiria a um vídeo de seus ídolos de culinária hipster para aprender a fazer uma lasanha de beringela? Talvez acompanhado de um delicioso suco verde? "Ele não poderia 'substituir' a tartaruga por, por exemplo, nada."
Diferentemente de vocês, jamais faria piadas com o uso colossal de agrotóxicos nos alfaces de vocês. Talvez sim, tiraria sarro da gourmetização de tudo o que vocês metem a mão. Quando cresci aprendi que o conceito de bom e mau é bastante relativo. No momento em que vocês querem "salvar bichinhos" vocês podem até por o pé no circulo do "bem", mas ao tentar fazer isso por meio de memes rindo da senhora de casa que bota a carne na mesa dos seus filhos, do aposentado que oferece um churrasco no domingo aos seus netos, vocês são arrastados pelo pescoço para a categoria de "crápulas" que são dezenove categorias depois do círculo do "mal". Valer-se de memes de desgraças alheias com a ideia do "bem feito" só reforça a ideia do Homer que no episódio "Lisa vegetariana", em coro com Bart, canta para a Lisa uma canção que tem como refrão: "não conquistas nada com uma salada".
Não apenas acho válido como sublime fazer piadas com a própria desgraça, com o Titanic afundando exigiria violinistas. Essas palavras vão endereçadas a quem utiliza esses memes sobre o ocorrido com as carnes com um ar de superioridade. Vocês oferecendo o veganismo se valendo dessa triste situação me faz lembrar de um cara de preto que estava no leito do meu avô oferecendo, minutos após sua morte, caixão. Percebo que o veganismo deixou de ser uma prática individual e se tornou uma espécie de religião moderna para os "cools" e os devotos, como rico ou político quando faz caridade, jamais perde a oportunidade de fotinhos e "hashtags". Concordo com o Pondé que escreveu que "toda a verdadeira virtude é silenciosa". E, como estamos falando de religião, Jesus, quando perguntado por um discípulo: "Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?", Jesus respondeu "Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete."
Quando vocês tiram sarro de quem come carne vocês mostram que não ligam para as pessoas. Vocês cagam pra minha saúde e do meu irmão e eu estou cagando para a galinha, o porco e a vaca de vocês. Mas, ao final, como recomenda Jesus, vocês tem meu perdão. E espero que me perdoem também. Só tenho uma dúvida: vegetariano pode comer do corpo de Cristo?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sobre a Reforma do Ensino Médio




A crítica de professores (me incluo aqui) sempre foi que a educação não deve ser refém do vestibular e, ao abrir meu facebook hoje, a pergunta que mais leio é "e o vestibular?" Aí percebo que talvez a educação nunca foi refém do vestibular, os reféns eram os professores. Amigos, quem já foi professor (ou aluno) do Ensino Médio sabe da necessidade urgente de uma reforma. No segundo turno das eleições de 2014, votei na Dilma esperando essa bendita reforma educativa. Se vocês buscarem na internet poderão ver a ex-presidenta argumentando sobre a urgência de uma mudança no ensino e sustentando não haver lógica em um sistema totalmente improdutivo onde se "acumulam" disciplinas em alunos representando fielmente aquilo que Paulo Freire criticou classificando como 'educação bancária'. É contraproducente 13 matérias para alunos do Ensino Médio que já tem uma, ainda que sutil, ideia do caminho que quer seguir na vida... dura vida. (Ou, ainda mais importante, do que não quer seguir).
Não podemos fechar os olhos para o grande problema oriundo desse sistema maçante e, consequentemente, desestimulante: a evasão escolar. No ano de 2007, uma pesquisa do PNAD já apontava que apenas 21,8 % dos alunos que conseguiam uma ocupação no mercado de trabalho voltava às escolas. Traduzindo: praticamente 80% dos alunos que conseguiam emprego já não regressavam aos bancos escolares. Penso que a educação está acima de qualquer birra ou preferência político- partidária. O índice catastrófico de evasão escolar é a morte do futuro do país a conta gotas. Vejo nessa reforma a possibilidade de atacar frontalmente o problema da evasão. Ontem, fiquei incrédulo ao assistir a uma entrevista de especialistas que argumentavam "que a reforma representava um atropelo numa matéria que vinha sendo debatida desde a década de 80". Porra... quase 30 anos pensando? Democracia não é escutar todo mundo o tempo todo. Chega o momento em que é necessário agir. Do jeito que tá, não dava mais.
Lembremos nossa passagem pela escola. Todos os que, neste momento, deslizam seus olhos sobre essas letras passaram pela escola. Farei a pergunta clássica: "Foi bom pra você?!" Eu, particularmente, adorava História, Filosofia, Português e Sociologia. Porém, eram uma tortura as aulas de Química, Física, Biologia e afins. Hoje, fui buscar meu diploma na Unisinos. Estou oficialmente formado em Letras: Português/Espanhol e sigo sem saber ler a tabela periódica. Isso nunca significou impedimento algum para minha formação. É evidente que se pudesse ter o poder de escolha sobre o que cursar no Ensino Médio jamais necessitaria ter utilizado meus talentos cênicos (Artes, aqui, foi essencial) para que a professora Lígia não me reprovasse no segundo ano. 

Enfim, criticar uma reforma que antes era defendida simplesmente por ser proposta por outro político não me parece a atitude mais correta frente a um problema que não pode esperar até que tenhamos "Jesus" na presidência. Claro está que não tenho a menor simpatia pelo presidente, inclusive, nutro tanta antipatia por ele quanto pela Química orgânica. No entanto, acredito que devemos juntar forças para combater os absurdos (que não são poucos) no lugar de resistir a uma reforma que era inevitável. Gritemos contra a reforma da previdência que quer nos forçar a contribuir 49 anos para que só então possamos solicitar aposentadoria. Se não nos unirmos para combater o que deve ser veementemente rejeitado e nos agarramos a birras sinto dizer que seremos, inevitavelmente, uma geração de velhinhos que irá às praças para que os pombos nos alimentem.


Empréstimo Post-mortem

    Tenho um senso de humor meio atípico. O absurdo me seduz. Não posso deixar de achar a situação do morto na agência bancária muito engraç...