Estamos
sozinhos. Escrevo com a trilha sonora dos cochichos de carros que rasgam a
BR116. Há algum tempo estou a observar a constelação de luzes que se revezam sobre
o brilho do asfalto molhado. Talvez o frio, o vai-e-vem incessante de faróis e
luzes de freios ou a confortável sensação de observar sem ser visto, criou um
ambiente propício para que florescesse em mim uma leve e agridoce melancolia. Sinto
que essa avenida é um céu onde há sempre a certeza de fugazes luzes. Cada vez
me custa mais trabalho desenhar textos. Sinto que me esvazio mais consoante à
passagem dos dias. A alma me escapa entre os dedos.
Há
algum tempo deixei de desejar e talvez esse fenômeno remonte à infância,
período no qual abandonei a caça por estrelas cadentes. Criança, brotaram-me
verrugas nos dedos. Vai doer, vó? Perguntei, ao passo que a adrenalina prendia
um calor que subia desde as pernas invadindo as costas até formigar o pescoço e
ruborizar minhas bochechas por sentir-me enganado pela mãe da minha mãe que
omitiu a presença de qualquer tipo de injeção no processo de remoção. No
entanto, desembrulhava o médico, sem pudor algum, uma seringa nova. Impessoal,
o médico vestia a indiferença de adultos que já passaram pelas provações da
vida, à laia do professor que prepara prova aos alunos, submissos, a respirarem
fundo e rezarem indecifráveis preces que se tornam mais efusivas ao ritmo dos
dedos que o educador leva à língua ao separar as avaliações distribuídas de
classe em classe. A tensão inodora e incolor sufoca como Sarin. É só um
choquezinho em cada uma delas, disse a voz do médico abafada pelo tapabocas
branco como um sub-zero níveo pago pelo erário público. À medida que o
tapabocas se aproximava tocando o êmbolo da seringa como quem acaricia um
gatilho, encarei minha mão direita tomada de verrugas como um incentivo
semelhante ao último olhar que lançara à mãe antes de, no parque de diversões,
em uma remota São Leopoldo Fest, montar por primeira vez no Kamikaze ao lado do
meu primo que não poderia colar em mim a pecha de cagalhão. Absorto, encarava
minha mão na tentativa de entender o que me levou a entrar naquela fila do
parque Tupã e subir na Elba da minha vó em direção ao pronto-atendimento da
Scharlau. Com os olhos apertados, como se tentasse abrir uma noz repousada na
cavidade ocular, ouvi minha avó perguntar a razão do aparecimento daquelas
verrugas nos meus dedos, prolongando assim meu sofrimento. Ao abrir os olhos
lentamente na esperança desesperada do banhista que sente areia a roçar seus
pés novamente após a sensação desoladora de não dar pé e não saber nadar,
percebi como a crista enorme de uma nova onda prestes a me devorar a agulha
reluzindo ameaça. A ansiedade sabe a água salobra. Tu costumas apontar o dedo
para as estrelas? Suponho que me perguntava o médico quando voltara a apertar com
as pálpebras com tanta força que não lhe pude responder devido à concentração
no meu medo. Nem mesmo a ternura que adivinhei na sua voz desenhada com notas
de riso diplomático foi capaz de aplacar meu pavor daquele instrumento de
tortura que os adultos tinham a desfaçatez de comparar com picadinha de
mosquito. Mas sim, quando guri, apontava estrelas. Desde os onze, por mera
estética, deixei de alçar os olhos ao céu. Se estrelas causam verrugas, deixei
de dar-lhes atenção. Astros esnobes que deixaram o brilho subir à cabeça.
Ao
deixar de olhar o céu, meus olhos se resignaram ao chão. Então pude perceber
que, a nossa particular maneira, somos estrelas também. Apenas um fonema nos
difere das estrelas cadentes. Somos estrelas, claro está, porém carentes. Ao
cair da noite, observo, aqui de cima, debruçado à janela, que formamos uma
apressada constelação. Não sabemos bem pra onde vamos, mas vamos mesmo assim. Adeptos
da filosofia zecapagodiana, deixamos a vida nos levar. Sabemos que devemos ir.
Existir é estar em movimento. Imobilidade é a morte e por isso corremos demais.
Como estrelas carentes que se prezem, deixamos brilho pelo trajeto. Ao final,
apagaremos. Todos nós, mais dia menos dia, seremos noite. Algumas estrelas da
minha família já se esfumaram. Se ontem foram intenso brilho, hoje descansam na
infinita noite. Porém, seguem nascendo estrelas. Há um ano nasceu uma e há
quatro semanas, outra. Muito tempo se passou desde que fui novidade na minha constelação.
Pra ser sincero, nem lembro mais.
As
estrelas, tanto as cadentes como as carentes, costumam nascer e morrer de forma
parecida. Após nascer, vão esfriando pouco a pouco até que seu ciclo chega ao
fim. Ciclos sempre individuais. Nós, estrelas carentes, gozamos breve tempo de
existência. Fadados ao movimento, não há volta atrás. Ninguém nunca regressou a
lugar nenhum que havia deixado antes. Por mais banal que se apresente o
caminho, a volta está vedada. Ao perfilar-me na fila do Kamikaze, me dei conta
de que já não haveria retorno. Um de dois: ou voltaria como cagalhão aos olhos
do meu primo ou como alguém com uma nova experiência. Não voltaria igual. Não
nos podemos rebobinar. Antes de começar esta linha, levantei para comer um pão
recheado com goiabada. Ao regressar, estou alguns minutos mais velho, alguns
gramas mais gordo e, se volto à cozinha por um copo d’água, haverá a ausência
de um pão e de uma fatia de goiabada em uma embalagem aberta. Desde a janela,
estiro o pescoço agora e são outros os carros e caminhões que, em fração de
segundos, deslizam pelo asfalto. Segundos esses que se esfumam. Já não voltarei
a viver os minutos que se decompuseram enquanto escrevia esse texto. Como
estrela carente que sou, deixo um pouco de brilho em toda caneta que agarro. O
tempo que escrevi a linha anterior me é inalcançável já. E esse tempo, aliado
às infindáveis voltas do relógio que já vivi até aqui e que também são
inacessíveis a mim, ignorando minhas desesperadas suplicas, evitam me encarar
aos olhos quando, juntos, dotados de uma força descomunal, me empurram até o
abismo da noite. Hoje, o tempo me empurra mais rápido e com mais força que
outrora. O tempo, astuto como enxadrista profissional, me convencia quando
criança a caminhar sozinho e, por vezes, correr. Muito corri na adolescência
sedento de futuro. Sorríamos correndo, o tempo e eu, de mãos dadas contra o vento.
Quando percebi o caminho mais tortuoso e quis voltar, o tempo, já muito forte,
me obrigou a seguir caminhando. Desde então, o tempo já não sorri pra mim e eu,
mais por birra que por esperança, caminho arrastando os pés. Mas, ainda assim,
caminho. É inútil apresentar resistência. Haverá algo mais triste que a
constatação de uma mulher que a himenoplastia não lhe devolveu a virgindade? Não se perde a virgindade duas
vezes. Se o céu um dia foi o limite, com tristeza constato que hoje cavamos
buracos. Em ano de eleição presidencial, buscamos paraísos idílicos perdidos. Admito
que me assusta essa nostalgia ambidestra. A política, quintal onde deveríamos
construir em conjunto um futuro, sentou no passado, sufocando o presente. Como
curupiras angustiados, estamos a permitir que os calcanhares apontem nosso
norte. Ansiosos por colgar medalhas num passado sem pescoço, caem ao chão as
honrarias de perecíveis vitórias das inúmeras batalhas eternamente perdidas. Se
a direita desenha, à ponta de faca, um sorriso de orelha a orelha num passado
lúgubre, a esquerda, por sua vez, promete que ainda é possível sentar à grama
para comer bergamota sob um agradável e brilhante sol que já se pôs. Como
cantou Joaquin Sabina, aprendi em Comala que não deveríamos tentar voltar ao
lugar no qual um dia fomos felizes. Não há regresso. Algo morreu em mim ao
regressar à rua em que viveu minha avó e onde passei bons momentos da minha
infância. Anos depois, tudo estava diferente permanecendo exatamente igual. Surpreso,
me dei conta que quem tinha mudado havia sido eu. Recuperei a rua, mas não a
minha infância. Fiquei compadecido com a senhora que, reconstruindo o hímen,
entendeu que a virgindade se perde apenas uma vez. Ao descer da Falcon, frente ao
campo onde fiz tantos gols e perdi outros tantos, notei o brilho nos olhos dos
meninos que, deixando de lado a bola, encaravam minha moto com olhos de desejo. De
mãos dadas com o tempo, os pequenos corriam desacorçoados em direção ao futuro
mais rápido que seus pés. Quando quis alertá-los do quão traiçoeiro o tempo
pode ser, o jogo já havia recomeçado com a seriedade sincera que só cabe na
brincadeira. Essa experiência me causou uma azia na alma e a queimação, vez que
outra, como hoje, ainda me causa desconforto. Uma leve melancolia me acomete.
Não aceitem que ninguém lhes prometa o solo fértil e o aconchegante ambiente do
passado. Não posso conceber anseio maior que esse. Afirmo amargurado, no
entanto, que a volta definitiva é impossível. Sendo maior que a minha mãe,
constato tristemente que o regresso dos regressos já me é impossível, nem
cortando minhas pernas poderia aconchegar-me no âmago do seu útero. Já não
somos um só. Morreremos sozinhos. Como estrelas carentes, devemos aprender a
carregar com o pesado fardo de nosso inevitável porvir. Fecho a janela triste
ao perceber que o movimento dos carros não cessará e que, mesmo dormido, me
empurra o tempo a caminho da noite escura que, ao fechar a janela, é tudo o que
alcanço a ver: uma escuridão sem estrelas.

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