sábado, 1 de outubro de 2011

Prostituição cotidiana


Chega ao serviço assim que o sol se põe. Paquera os faróis que vagarosamente refletem sua imagem na lataria dos carros com a ajuda da luz que emana do poste. O poste é seu companheiro, a ilumina durante as noites que cumpre seu horário nas frias e solitárias ruas de São Leopoldo.

Seu cabelo negro como a noite que a acolhe contrasta de uma forma magnífica quando recai sobre seus ombros. Sua pele é branca como a neve. Seu corpo parece desenhado por deuses, que porventura,  desenhavam excelentemente bem.

Se fosse a Branca de neve, a história certamente teria um desfecho trágico. Os 7 anões se apaixonariam perdidamente por ela, e depois de uma crise de ciúmes a história terminaria com um grande derramamento de sangue, em uma batalha que teria como troféu a linda moça. O que motivaria qualquer um a lutar até a morte.

Hoje a noite irá mais cedo para a casa, precisa concluir seu trabalho para a cadeira de Direito penal IV. É aluna do 4° semestre de Direito. Recebeu diversas ofertas de estágio. Prostitui-se por opção e conveniência  financeira, que o mundo capitalista nos impõe. Ninguém mais do que ela sabe que não comete crime algum.

Quando pequena desejava seguir a carreira que um magistério seguido de uma licenciatura em Letras lhe proporcionaria. Com toda certeza seria uma ótima professora. Carismática, inteligente, esforçada e portadora de uma empatia incrível. A carreira educacional certamente deslancharia.

Cursou um ano de Magistério,mas depois notou que o sálario de professora não era algo digno à profissão. Desistiu da vida de professora. Acha besteira essa falácia de que dinheiro não importa. Quem diz que dinheiro não importa na maioria da vezes são aqueles que o possuem.

Sua vida é repleta de julgamentos de falsos moralistas que nem mesmo refletem sobre suas vidas ou suas palavras.  Palavras que não pesam mais na vida de Carla, mas que já pesaram e quase a levaram a buscar um refúgio em linhas brancas que são muito requisitadas nas noites de São Léo.

Durante o dia, vê diversos tipos de prostituições as quais as pessoas são submetidas e nem mesmo se dão conta. Porque é tão julgada? Foram criadas barreiras fortemente intransponíveis para a mente das pessoas, verdadeiros nós , que dificilmente serão desatados. Prostituição é o uso degradante das pessoas.

Ela acredita que as piores prostituições são aquelas nas quais as pessoas usam camisetas de campanha política e portam bandeiras em esquinas, seguram faixas em frente à sinaleiras, vendem sua ideologia por preço de banana. Pessoas alienadas dão o seu voto... “DÃO O VOTO” pensa Carla enquanto levemente balança a cabeça em sinal de desaprovação.

Pessoas nos centros das grandes metrópoles com camisetas de grandes indústrias entregando panfletos. Seres humanos abaixo de uma fantasia pesada em frente a lojas de calçados, sob o sol, para alegrar os outros, ganhando diárias de entristecer até mesmo o mais feliz dos palhaços.

Nascer, prostituir-se, e morrer. Esse virou o destino de todos que sobrevivem nas grandes cidades, verdadeiras selvas de pedra. A vida é um jogo em que a maioria dos jogadores começam perdendo e com vários pontos a menos. Dificilmente alguém consegue virar esse jogo.

Verdadeira traça de biblioteca, leitora compulsiva. Lembra de um velho provérbio italiano que diz “Ao final do jogo, peão e rei voltam para a mesma caixa”. O que a maioria das pessoas não aceitam, criando lares pós morte que abrigarão moralistas, lugares que ela não tem a mínima ambição de ocupar.

O Honda Civic prata reduz a velocidade ao avistar a bela mulher, para junto ao acostamento e aguarda com intuito de que ela se aproxime e acerte o preço por uma injeção de vida, êxtase, e relaxamento frente às tensões diárias. Ela adentra o carro que arranca devagar, na traseira o adesivo da família feliz se afasta.

Uma hora depois ela está de volta a mesma esquina, a esquina de sua escola. Escola onde concluiu seu Ensino Médio através de elogios e ótimas notas, nunca reprovou. De volta ao poste que ilumina sua cabeça em frente à igreja formando uma espécie de aura divina. Maria Madalena do século 21.

Estranha ironia. Quando a noite cai mudam os jogadores no jogo da vida. Marquises de igreja se tornam abrigos para mendigos. Quando as luzes do teatro dão lugar à escuridão e as cortinas se fecham entram em ação os coadjuvantes, vultos cinzas. Numerosos vultos portadores de título de eleitor.

O seu expediente é demarcado pelo crepúsculo, que dá adeus ao dia e após um tempo saúda a chegada de mais um, parecido com o que  passou, mas nunca o mesmo. Nunca. Sabe que cada dia é único, assim como cada cliente, alguns são chuvosos outros ensolarados, mas todos passarão. 

Alcançou sua meta, após alguns programas resolver ir para a casa. Entra no s carro e vai rumo ao apartamento. Chegando ao seu destino toma um banho e tenta concentrar toda a energia aos estudos. Notebook, livros, e luminária móvel sobre a escrivaninha.

Mora sozinha, não acredita em amor. Na sua opinião é a nostalgia do que foi vivido que as pessoas nomeiam “amor”. Fechou-se por conveniência, nunca houve insistência. Amor para ela não representa consistência. Isso nunca soou como penitência disso tem plena consciência.

Deixa a papelada de lado, vai até a geladeira. Cata uma jarra de suco de uva, uma taça e passo a passo encosta-se a janela. Observa como a cidade renasce pouco a pouco e as luzes regem uma espécie de orquestra silenciosa que perpetua a rotina da sociedade.

Entre um gole e outro de suco perde-se em um mar de pensamentos que a dominam. Olhando lá de cima nota como os seres humanos parecem bactérias proliferando-se aos montes conforme o crepúsculo matinal  que dá boas vindas a um novo dia.

O sono se espalha pelo corpo como uma dose de morfina injetada em algum dos braços e que agora começa a surtir efeito. A cabeça dói um pouco e começa a sentir aquela nostalgia típica das pessoas que são vítimas da insônia. Coloca as mãos no bolso do moletom. Não quer mais suco. Guarda a Jarra e a taça, ambas vazias.

A manhã se instala aos poucos. A rua é dominada por carros, as calçadas por pessoas atrasadas, confusas. As cortinas se abrem e as luzes acendem, entram em ação os protagonistas do cotidiano. A multidão sem rosto que cumpre seu papel. A bela moça adormece enquanto as veias da cidade pulsam a todo o vapor. 

A paz e a tranquilidade da noite dão lugar ao caos diurno, capaz de estressar o mais controlado dos monges budistas. Ela dorme, seu olhos estão fechados, mas seu pensamento é aberto, diferentemente, lá embaixo, as pessoas estão acordadas com os olhos abertos, mas o pensamento fechado, em um sono profundo.

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