domingo, 29 de janeiro de 2012

OVNI





Passo a passo, cabeça baixa, possuía o olhar perdido. Andava distraído pela rua, tinha acabado de molhar a manga do seu moletom com loló. Rua vazia, deserta e silenciosa. Silêncio que assusta. Silêncio que provoca e ao mesmo tempo oprime os ouvidos de quem está caminhando na  avenida Caxias do Sul, durante a madrugada.

O escuro da noite  só é quebrado devido a pequenos feixes de luz. O poste formando pequenos holofotes à espera de um grande astro do cotidiano para o banhar de luz e brilho. Estava com dor nos pés, pois caminhou a tarde inteira pelas ruas. Mas estava certo de que isso passaria. Assim como sua fome, e seu sono. Havia dado fortes fungadas na cola. Sempre passam.

Caminhava a procura de uma marquise, onde pudesse descansar um pouco. Passo a passo locomovia-se sob a escuridão, ouvia os cães latindo conforme passava. Sentia-se envergonhado, pois estava acordando as pessoas que tentavam dormir. Volta e meia alguém ligava a luz, descortinava alguma janela e o olhava com um olhar intimidador, olhar  inquisidor.

Um objeto na rua, em meio ao breu da noite, o fez perder a distração que o tomava. Quando avistou tal objeto, seus pés automaticamente tornaram-se estáticos. Aquilo parecia ser de metal, quem sabe de alumínio, de forma arredondada. O tal objeto brilhava, e aquele brilho o seduzia. Brilhava muito.

Olhou para os dois lados da rua e confirmou que estava sozinho. Não acreditava em nada sobrenatural, aquilo não poderia estar acontecendo com ele, logo com ele. Um menino mulambento com as mangas do moleton esgarçadas e uma garrafinha de água mineral dentro das calças, que a mantinha firme contra o corpo, sem a garrafinha provavelmente as calças cairiam.

Esqueceu por um momento de quem era. Esqueceu que sentia frio e fome. Esqueceu que tinha 8 anos e nunca tinha frequentado a escola. Esqueceu que esqueceu que seu pai provavelmente o esqueceu. Quanto mais se aproximava, mais o objeto aparentemente de metal, arredondado, brilhava, reluzia. Ia tomando forma, e assim ia reconhecendo aquilo.

Quando chegou perto o bastante para o brilho tomar forma, sorriu. Olhou para os dois lados naquela rua, não havia ninguém, breu instaurado. Juntou a moeda de um real e continuou seu trajeto. Naquela noite, o menino sentiu um pequeno lapso de felicidade.


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