enquanto a televisão balbucia as desgraças do mundo
a janela a desmente. a xícara de chá suada entre as mãos
adentra a sacada.
o vento lhe lambe as têmporas.
um ar quase gelado invade as crateras abertas em seu rosto.
avista da janela dois meninos passeiam em suas bicicletas.
os olhos parecendo janelas
retratando a inocência que permeia suas almas.
a senhora os cumprimenta deliciadamente,
ao que os meninos não retribuem.
"você viu aquela velha na janela?! dizem que nunca sai de casa"
ao que o segundo responde:
"é cara!! ouvi minha mãe dizer que ela tem um pacto com o
diabo."
- velha macumbeira! - grita o primeiro menino
HahAha as risadas se afastam, ao mesmo tempo em que as pedaladas
aceleram e as pernas parecem entrelaçar-se.
Teresa deixa a sacada. senta-se em frente à televisão.
o relógio tiquetaqueia ao lado do pano de prato do padre Marcelo Rossi.
calendário de 2007.
desliga a televisão. liga o rádio. acomoda-se sobre a poltrona. fecha os
olhos.
o rádio pede um copo de água para a oração.
será que chá não serve? - Pensa Teresa - melhor não arriscar.
deixa a poltrona com destino à pia.
liga a torneira. a pressão da água faz o copo transbordar e a água
escorrer por
suas mãos repleta de veias, que mais parecem mangueiras verdes e azuis.
tudo parece girar, o chá cai quebrando a xícara que atravessava
gerações.
o braço adormece. com um clarão tudo escurece.
a janela ficou aberta, a oração não foi feita, a torneira está ligada.
e o rádio balbucia algo sobre as maravilhas de um outro mundo.

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