"As memórias preservadas desde a infância e que carregamos durante nossa vida são talvez a nossa melhor educação." Aloysha Karamazóv
A vida é
feita de lembranças, momentos, lugares, pessoas, sentimentos, cheiros,
sensações, enfim, de todas as abstrações que compõem a poesia da nossa existência.
Consoante, há locais que figuram importantes momentos de nossa vivência, e que
certamente servem (e outros servirão) como pano de fundo para histórias,
contextualizando as diferentes fases de nossas vidas e servindo como pilares para a estruturação do nosso eu, aquele trajeto que só pode ser traçado individualmente. Trajetória única.
Todos já tivemos inúmeros melhores amigos, já declaramos diversas vezes amor eterno (não por má-fé, mas por inocência ou ingenuidade) e perdemos as contas de quantas profissões já planejamos seguir na aurora da vida. No entanto, muitos dos nossos melhores amigos, desde a mais remota infância, hoje, não estão mais ao nosso lado, aqueles amores que outrora ferviam com o ardor de um vulcão, foram atenuados pela corrosão do cotidiano não perseverando nem sequer um cumprimento de quando em vez, senão a indiferença cínica da vaidade humana. Já aquelas oníricas profissões do imaginário infantil, onde tudo era possível (até hoje alimento essa dúvida, não seria tudo possível?)- no meu caso, jogador de futebol, desenhista, ou (e porque não 'e') bombeiro - descansam em alguma gaveta do ontem, devido aos caminhos que não tomamos.
Assim, hoje, ao olharmos para trás e conferirmos o retrovisor na árdua e inconstante estrada de nossas vidas, repleta de lombadas, buracos, curvas e demasiado número de pedágios (que repetidas vezes nos fazem acreditar que somos incapazes de ir mais além, seja pelo itinerário insuficiente ou pela incapacidade de contorná-los e subverter obstáculos impostos.) constatamos apenas sombras, figuras difusas, vozes ecoando em um universo paralelo, memórias soltas que volta e meia nos assaltam, cores esmorecidas, sorrisos inocentes, lágrimas impertinentes, felicidades instantâneas, mágoas profundas, formando verdadeiras cicatrizes existenciais. Penso que todos esses retalhos quando costurados contumaz formam uma colcha que muitos chamam de passado – mesmo que componha o presente, por vezes, mais que o próprio presente.
Apesar de, no transcorrer do tempo, tudo parecer difuso: eventos, nomes, acontecimentos, pessoas, alguns locais normalmente são bem demarcados em nossa mente, eternos até. Locais que frequentemente representam espaços onde, quando retornamos, somos afogados por nostalgias, e podemos, a partir desse artifício, reviver momentos sublimes de nossas vidas. É muito triste, todavia, quando esses locais deixam de existir porque uma parcela de nossa vida se irá junto com eles. Morremos por parcela. Um exemplo disso, é aquele guri de sete anos de idade, em meados de 98, espantado com um mar azul, que parecia crianças fazendo bagunça, mas não uma bagunça qualquer, era uma bagunça organizada, uma bagunça de adultos. Cantos, gritos e todos de azul, um mar de almas com fisionomias diferentes entonavam o hino rio-grandense em uma só voz. Um mar onde o guri nunca teve medo de não dar pé e, não tendo medo, se deixou levar pela correnteza de cantos, gritos e movimentos. Aquele guri não existe mais. Morreu. Ou melhor, irá morrer. Uma morte premeditada, esse deve ser o motivo das lágrimas que insistiam em emergir dos meus olhos ao contemplar aquele estádio, hoje, com 21 anos de idade, absorto em reflexões acerca do tempo - O tempo é rei? Monarquia ingrata. Saber da morte daquele menino, que poderia ser evocado por mim toda vez que eu adentrava as dependências do estádio Olímpico me deixou relutante a abandonar aquele estádio, que abrigava seu último jogo. Fiz questão de percorrer o mesmo trajeto onde andava quando era pequeno, desbravando aquele universo tão esplêndido e misterioso ao mesmo tempo. Passo a passo, fui revivendo momentos que pensei não fazerem mais parte da minha memória, porém emergiram do meu inconsciente. Sem dar-me conta, debulhava-me em lágrimas, mas só fui notar quando os soluços prejudicaram minha respiração e, consequentemente, minha caminhada. Espantado, sentei-me e com a testa apoiada nos braços cruzados sobre os joelhos. Tudo que me restava era lamentar uma parcela de minha morte. Chorava a perda do menino de sete anos.
A queda do estádio Olímpico representa a derrocada de uma parcela significativa da minha vida. Sinto-me corrompido com a destruição do estádio, pois uma centelha de minha alma está lá, assim como as decepções e alegrias mais contundentes que já experimentei. Eu estou lá. Sentirei as dores quando o estádio for ao chão, ao passo que, não terei mais onde dimensionar uma parcela de meu passado. Aquele menino ficará perdido no tempo e no espaço, se bem que... não muito diferente desse que vos escreve.
Todos já tivemos inúmeros melhores amigos, já declaramos diversas vezes amor eterno (não por má-fé, mas por inocência ou ingenuidade) e perdemos as contas de quantas profissões já planejamos seguir na aurora da vida. No entanto, muitos dos nossos melhores amigos, desde a mais remota infância, hoje, não estão mais ao nosso lado, aqueles amores que outrora ferviam com o ardor de um vulcão, foram atenuados pela corrosão do cotidiano não perseverando nem sequer um cumprimento de quando em vez, senão a indiferença cínica da vaidade humana. Já aquelas oníricas profissões do imaginário infantil, onde tudo era possível (até hoje alimento essa dúvida, não seria tudo possível?)- no meu caso, jogador de futebol, desenhista, ou (e porque não 'e') bombeiro - descansam em alguma gaveta do ontem, devido aos caminhos que não tomamos.
Assim, hoje, ao olharmos para trás e conferirmos o retrovisor na árdua e inconstante estrada de nossas vidas, repleta de lombadas, buracos, curvas e demasiado número de pedágios (que repetidas vezes nos fazem acreditar que somos incapazes de ir mais além, seja pelo itinerário insuficiente ou pela incapacidade de contorná-los e subverter obstáculos impostos.) constatamos apenas sombras, figuras difusas, vozes ecoando em um universo paralelo, memórias soltas que volta e meia nos assaltam, cores esmorecidas, sorrisos inocentes, lágrimas impertinentes, felicidades instantâneas, mágoas profundas, formando verdadeiras cicatrizes existenciais. Penso que todos esses retalhos quando costurados contumaz formam uma colcha que muitos chamam de passado – mesmo que componha o presente, por vezes, mais que o próprio presente.
Apesar de, no transcorrer do tempo, tudo parecer difuso: eventos, nomes, acontecimentos, pessoas, alguns locais normalmente são bem demarcados em nossa mente, eternos até. Locais que frequentemente representam espaços onde, quando retornamos, somos afogados por nostalgias, e podemos, a partir desse artifício, reviver momentos sublimes de nossas vidas. É muito triste, todavia, quando esses locais deixam de existir porque uma parcela de nossa vida se irá junto com eles. Morremos por parcela. Um exemplo disso, é aquele guri de sete anos de idade, em meados de 98, espantado com um mar azul, que parecia crianças fazendo bagunça, mas não uma bagunça qualquer, era uma bagunça organizada, uma bagunça de adultos. Cantos, gritos e todos de azul, um mar de almas com fisionomias diferentes entonavam o hino rio-grandense em uma só voz. Um mar onde o guri nunca teve medo de não dar pé e, não tendo medo, se deixou levar pela correnteza de cantos, gritos e movimentos. Aquele guri não existe mais. Morreu. Ou melhor, irá morrer. Uma morte premeditada, esse deve ser o motivo das lágrimas que insistiam em emergir dos meus olhos ao contemplar aquele estádio, hoje, com 21 anos de idade, absorto em reflexões acerca do tempo - O tempo é rei? Monarquia ingrata. Saber da morte daquele menino, que poderia ser evocado por mim toda vez que eu adentrava as dependências do estádio Olímpico me deixou relutante a abandonar aquele estádio, que abrigava seu último jogo. Fiz questão de percorrer o mesmo trajeto onde andava quando era pequeno, desbravando aquele universo tão esplêndido e misterioso ao mesmo tempo. Passo a passo, fui revivendo momentos que pensei não fazerem mais parte da minha memória, porém emergiram do meu inconsciente. Sem dar-me conta, debulhava-me em lágrimas, mas só fui notar quando os soluços prejudicaram minha respiração e, consequentemente, minha caminhada. Espantado, sentei-me e com a testa apoiada nos braços cruzados sobre os joelhos. Tudo que me restava era lamentar uma parcela de minha morte. Chorava a perda do menino de sete anos.
A queda do estádio Olímpico representa a derrocada de uma parcela significativa da minha vida. Sinto-me corrompido com a destruição do estádio, pois uma centelha de minha alma está lá, assim como as decepções e alegrias mais contundentes que já experimentei. Eu estou lá. Sentirei as dores quando o estádio for ao chão, ao passo que, não terei mais onde dimensionar uma parcela de meu passado. Aquele menino ficará perdido no tempo e no espaço, se bem que... não muito diferente desse que vos escreve.
"A memória trai a todos, é uma aliada do esquecimento, é uma aliada da morte." Joseph Brodsky



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