" Eu sou o Paulo Nunes!"
" Tá! Eu sou o Danrlei! Só não vale bomba, porque essa bola dói!"
O futebol nunca foi apenas um esporte. Tampouco somente entretenimento, passatempo ou programação televisiva. Sempre considerei o futebol algo quase espiritual. Uma paixão. Uma paixão nacional. Falo, claro está, do Brasil onde vivem meus amigos de infância e eu. Logo, compactuávamos desde muito cedo do mesmo sentimento em relação ao esporte.
No Brasil onde cresci não havia neve. Lá vivíamos no limiar da miséria. E foi em meio a essa mesma miséria onde construí fortes vínculos, cuja intensidade, depois de crescido, nunca mais experimentei. Foi tendo como pano de fundo a miséria que registrei os mais sinceros sorrisos, firmei as mais profundas promessas e recebi, ainda que singelos, os aprendizados mais significativos.
No Brasil onde cresci não havia neve. Lá vivíamos no limiar da miséria. E foi em meio a essa mesma miséria onde construí fortes vínculos, cuja intensidade, depois de crescido, nunca mais experimentei. Foi tendo como pano de fundo a miséria que registrei os mais sinceros sorrisos, firmei as mais profundas promessas e recebi, ainda que singelos, os aprendizados mais significativos.
Dentre os inúmeros professores que a providência pôs em meu caminho, nem todos foram necessariamente humanos. Como o campinho onde reunia-se a gurizada dos arredores. Esse local, praticamente um templo sagrado, ficava no coração de uma vila muito violenta, onde a única ONG que se dispunha a entrar era exclusivamente o futebol. Quando surgia uma bola, todas as diferenças eram deixadas de lado até o pôr do sol - toque de recolher ditado pelas mães.
" Cara, já tá quase noite!".
" Tá! OHH, PESSOAL! QUEM FIZER GANHA!"
Não existia mundo exterior quando a bola estava rolando. Não existiam temas de casa. Não existiam segundas, terças, maio, janeiro... fronteiras. Não existiam corpos estirados no chão sem vida esperando nossos ávidos olhares à procura de furos. Não existia tristeza, exceto quando não havia goleiro fixo no time e chegava minha vez de ficar embaixo das traves. A bola e, consequentemente, sua atmosfera tinham o poder de deixar todo o mundo fora do campinho em segundo plano.
Apesar de, na minha infância, o Brasil, o meu Brasil, é claro, já possuir o rótulo de "país da bola", era raro possuirmos uma. No entanto, isso nunca foi entrave para que nossas partidas, verdadeiras peleias, ocorressem. Era muito frequente jogarmos com uma bola de vôlei promocional que alguém, nunca eu, havia ganhado na escola em um sorteio desses promotores de algum curso de inglês, datilografia ou seja lá o que for.
"Bah, que bom, Tiago! Tu ganhou a bola naqueles sorteios dentro da sala?"
"Não, Vini! Ganhei um curso de datilografia."
"Ué... E essa bola?!"
"Troquei com a Maria, ela queria o curso."
"Pffff.... como menina é tonta.. ou ela gosta de ti! Hmm... deve ser isso!"
"Cala boca, meu! Vamos lá chamar os gêmeos pra jogar!"
" Tá!"
Lembro que essas bolas eram extremamente frágeis e, passado uma semana, jogávamos somente com a alma da bola, uma alma negra, que alguns chamavam de "câmera". Mas não ficava por aí, não. Lembro de Jogarmos também com bola de basquete (jamais façam isso), bolas de plástico e, o que era mais comum, uma bola furada, já sem vida, da qual retirávamos sua "alma" murcha e a revestíamos com jornal e, mesmo pós-mortem, cumpria impecavelmente seu papel.
O futebol no campinho era uma comunhão. Comungávamos a igualdade e confortavamo-nos em olhar para o lado e sentir que dividíamos um universo de coisas. Estudávamos na mesma escola, apesar de não estarmos na mesma série. Morávamos no mesmo bairro, ainda que não na mesma rua. Jogávamos juntos, mesmo que sem a mesma habilidade. E amávamos o futebol, mas torcíamos por times diferentes. No entanto, havia um rótulo que nos abarcava e nos unia. Éramos brasileiros. Todos vivíamos no mesmo Brasil. De quando em vez, com a assiduidade de uma estrela cadente, um evento fazia-nos vestir a mesma camiseta surrada, amarela e, como era de se esperar, falsificada. A camiseta da seleção brasileira. Era tempo de copa do mundo. Onze jogadores que defendiam as cores da seleção brasileira. Seleção esta que nos representava por inteiro. Cada um dos jogadores que vestiam a camiseta canarinho era um de nós. Nos sentíamos realmente representados (e ainda me sinto) por aqueles homens que também haviam crescido em meio a dificuldades. Também viam no futebol uma válvula de escape para uma série de mazelas que vivenciavam. Enfim, tiveram uma infância como a nossa. Vieram do mesmo Brasil que nós. Que não é o mesmo Brasil onde cresceram os pilotos de fórmula-1. Não é o mesmo Brasil onde cresceram àqueles que vociferam contra o governo do país, gritando aos quatro ventos que o país retrocedeu. Que não gostam do rótulo de país do futebol. Quem cresceu no mesmo Brasil em que cresci sabe apontar as melhorias e poderia ficar mais de horas conversando sobre as inúmeras mudanças. No Brasil onde eu vivo, a melhora foi significativa.
É claro que ainda temos que melhorar muito para o amanhã, mas não devemos esquecer que estamos à anos luz do ontem. A educação pode ser tomada como exemplo. Quando na quinta série, lembro de ter uma professora que anotava no quadro as páginas que teríamos que copiar de um livro e deixava a sala para fumar e tomar café. Minutos depois de sua saída, Deixávamos a sala para ir jogar futebol no campo em frente à escola. Hoje, sou professor de Língua Portuguesa e convivo no contexto escolar e, graças ao meu bom Alá, nunca mais encontrei um exemplo de professora como aquela, além de notar que há um olhar diferenciado para a educação.
Hoje, os jogadores continuam sendo pessoas que vieram de onde meus amigos e eu viemos. Nossa seleção permanece sendo constituída de garotos que jogaram em campinhos de futebol como os que jogávamos. Guris que viam no futebol uma grande paixão. Que depois de uma tarde inteira de correria em um campinho bebiam água em uma garrafa de dois litros que havia passado pela boca de mais quinze e, mesmo morrendo de sede, tinham a consciência de que não poderiam beber demais, pois a mão do colega já estava suspensa no ar em direção ao ouro líquido e transparente que reluzia no interior da garrafa. Homens que representam o meu país. O meu Brasil. O país do futebol. Assim, eu não seria, de maneira nenhuma, capaz de torcer contra a seleção. Ainda mais agora que o futebol voltou pra casa.
Resolvi escrever este texto quando, ao caminhar pelo meu bairro em um fim de tarde, avistei, a alguns metros, três meninos ao redor de uma bola de futebol, uma bola boa, jogando par ou ímpar. Ao me aproximar, ouvi algo que me pôs lágrimas nos olhos e que, de repente, como mágica, instantaneamente me transportou para alguma remota tarde da minha infância:
"Eu sou o Neymar"
"Tá, eu sou o Marcelo Moreno!"
Ao que o terceiro menino que estava posicionado entre duas árvores na calçada com os joelhos levemente flexionados e os braços abertos, cerrou os olhos, bateu palma, podendo-se ouvir um pequeno estrondo seco, pois usava luvas de inverno, e respondeu:
" Eu sou o Júlio César!"
"No hay un anciano que olvide dónde escondió su tesoro."
Gabriel Gárcia Marquez
" Cara, já tá quase noite!".
" Tá! OHH, PESSOAL! QUEM FIZER GANHA!"
Não existia mundo exterior quando a bola estava rolando. Não existiam temas de casa. Não existiam segundas, terças, maio, janeiro... fronteiras. Não existiam corpos estirados no chão sem vida esperando nossos ávidos olhares à procura de furos. Não existia tristeza, exceto quando não havia goleiro fixo no time e chegava minha vez de ficar embaixo das traves. A bola e, consequentemente, sua atmosfera tinham o poder de deixar todo o mundo fora do campinho em segundo plano.
Apesar de, na minha infância, o Brasil, o meu Brasil, é claro, já possuir o rótulo de "país da bola", era raro possuirmos uma. No entanto, isso nunca foi entrave para que nossas partidas, verdadeiras peleias, ocorressem. Era muito frequente jogarmos com uma bola de vôlei promocional que alguém, nunca eu, havia ganhado na escola em um sorteio desses promotores de algum curso de inglês, datilografia ou seja lá o que for.
"Bah, que bom, Tiago! Tu ganhou a bola naqueles sorteios dentro da sala?"
"Não, Vini! Ganhei um curso de datilografia."
"Ué... E essa bola?!"
"Troquei com a Maria, ela queria o curso."
"Pffff.... como menina é tonta.. ou ela gosta de ti! Hmm... deve ser isso!"
"Cala boca, meu! Vamos lá chamar os gêmeos pra jogar!"
" Tá!"
Lembro que essas bolas eram extremamente frágeis e, passado uma semana, jogávamos somente com a alma da bola, uma alma negra, que alguns chamavam de "câmera". Mas não ficava por aí, não. Lembro de Jogarmos também com bola de basquete (jamais façam isso), bolas de plástico e, o que era mais comum, uma bola furada, já sem vida, da qual retirávamos sua "alma" murcha e a revestíamos com jornal e, mesmo pós-mortem, cumpria impecavelmente seu papel.
O futebol no campinho era uma comunhão. Comungávamos a igualdade e confortavamo-nos em olhar para o lado e sentir que dividíamos um universo de coisas. Estudávamos na mesma escola, apesar de não estarmos na mesma série. Morávamos no mesmo bairro, ainda que não na mesma rua. Jogávamos juntos, mesmo que sem a mesma habilidade. E amávamos o futebol, mas torcíamos por times diferentes. No entanto, havia um rótulo que nos abarcava e nos unia. Éramos brasileiros. Todos vivíamos no mesmo Brasil. De quando em vez, com a assiduidade de uma estrela cadente, um evento fazia-nos vestir a mesma camiseta surrada, amarela e, como era de se esperar, falsificada. A camiseta da seleção brasileira. Era tempo de copa do mundo. Onze jogadores que defendiam as cores da seleção brasileira. Seleção esta que nos representava por inteiro. Cada um dos jogadores que vestiam a camiseta canarinho era um de nós. Nos sentíamos realmente representados (e ainda me sinto) por aqueles homens que também haviam crescido em meio a dificuldades. Também viam no futebol uma válvula de escape para uma série de mazelas que vivenciavam. Enfim, tiveram uma infância como a nossa. Vieram do mesmo Brasil que nós. Que não é o mesmo Brasil onde cresceram os pilotos de fórmula-1. Não é o mesmo Brasil onde cresceram àqueles que vociferam contra o governo do país, gritando aos quatro ventos que o país retrocedeu. Que não gostam do rótulo de país do futebol. Quem cresceu no mesmo Brasil em que cresci sabe apontar as melhorias e poderia ficar mais de horas conversando sobre as inúmeras mudanças. No Brasil onde eu vivo, a melhora foi significativa.
É claro que ainda temos que melhorar muito para o amanhã, mas não devemos esquecer que estamos à anos luz do ontem. A educação pode ser tomada como exemplo. Quando na quinta série, lembro de ter uma professora que anotava no quadro as páginas que teríamos que copiar de um livro e deixava a sala para fumar e tomar café. Minutos depois de sua saída, Deixávamos a sala para ir jogar futebol no campo em frente à escola. Hoje, sou professor de Língua Portuguesa e convivo no contexto escolar e, graças ao meu bom Alá, nunca mais encontrei um exemplo de professora como aquela, além de notar que há um olhar diferenciado para a educação.
Hoje, os jogadores continuam sendo pessoas que vieram de onde meus amigos e eu viemos. Nossa seleção permanece sendo constituída de garotos que jogaram em campinhos de futebol como os que jogávamos. Guris que viam no futebol uma grande paixão. Que depois de uma tarde inteira de correria em um campinho bebiam água em uma garrafa de dois litros que havia passado pela boca de mais quinze e, mesmo morrendo de sede, tinham a consciência de que não poderiam beber demais, pois a mão do colega já estava suspensa no ar em direção ao ouro líquido e transparente que reluzia no interior da garrafa. Homens que representam o meu país. O meu Brasil. O país do futebol. Assim, eu não seria, de maneira nenhuma, capaz de torcer contra a seleção. Ainda mais agora que o futebol voltou pra casa.
Resolvi escrever este texto quando, ao caminhar pelo meu bairro em um fim de tarde, avistei, a alguns metros, três meninos ao redor de uma bola de futebol, uma bola boa, jogando par ou ímpar. Ao me aproximar, ouvi algo que me pôs lágrimas nos olhos e que, de repente, como mágica, instantaneamente me transportou para alguma remota tarde da minha infância:
"Eu sou o Neymar"
"Tá, eu sou o Marcelo Moreno!"
Ao que o terceiro menino que estava posicionado entre duas árvores na calçada com os joelhos levemente flexionados e os braços abertos, cerrou os olhos, bateu palma, podendo-se ouvir um pequeno estrondo seco, pois usava luvas de inverno, e respondeu:
" Eu sou o Júlio César!"
"No hay un anciano que olvide dónde escondió su tesoro."
Gabriel Gárcia Marquez

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