Há pessoas defendendo cegamente o
policial que matou o camelô com argumentos de "ninguém mandou
reagir", "quem não gosta de polícia é vagabundo", "quem não
deve não teme", "vagabundo tem que morrer" e coisas do gênero. A cada dia que passa nossa sociedade legitima a mentalidade vigente de que policiais tem o direito de matar
em prol das "pessoas de bem". O famoso ditado de que devemos sacrificar
o lobo para poupar a ovelha. O problema nesse raciocínio é que eu não me considero "uma pessoa de bem" (não confunda “pessoa de bem” com uma boa
pessoa). Nunca tive amigos que foram “pessoas de bem”. Esse tipo de pessoa quase só vi pela televisão.
Quero, nesse breve
texto, refletir sobre alguns dos tão disseminados jargões da família em relação ao
abuso de força policial.
“Ninguém mandou
reagir”.
Só reagimos àquilo que não concordamos. A abordagem é diferente de
acordo com a região em que a pessoa é abordada. Não é nada agradável, e eu já
passei por isso, ser tratado aos solavancos em uma abordagem policial com um soldado te sacudindo e gritando ofensas ao pé do ouvido e ter
seus calcanhares chutados quando suas pernas já estão abertas. Tudo isso antes mesmo de perguntarem teu nome. O Brasil é o único país onde vemos disparos
acidentais toda semana. As vítimas aqui também são previsíveis. São sempre as mesmas. Aqueles que não se enquadram no padrão Sheherazade.
"Quem não
gosta de polícia é vagabundo"
Não vejo necessidade de me aprofundar
na refutação dessa ideia tendo em conta a reiterada abordagem violenta
praticada pela polícia em larga escala nos bairros pobres exposta acima. Como disse o pequeno príncipe, tatuado no corpo de um grande número de garotas: Você é eternamente responsável por aquilo que cativa.
"Quem não deve não teme".
Por incrível que pareça, fui descobrir essa função “protetora” da
polícia, quase na idade adulta, quando - ao passear por um bairro nobre de Porto Alegre - policiais parados, andando de
bicicleta e, pasmem, sorrindo. No meu bairro, nunca via policiais. A segurança
pública sempre foi ausente. No entanto, vez que outra, cantando pneus, com
giroflex ligado surgiam soldados de armas em punho. Polícia no bairro gerava uma sensação
incômoda, um clima ruim de problema não resolvido pairava no ar. A presença da polícia era seguida de medo
e reclusão. Era não. Ainda é assim. Lembro que
“Entra pra dentro, vi uns carros
de polícias andando pra lá e pra cá. Não te quero mais na rua.”
“Ahhhh... mãe!”
“Não tem A nem B! Tá cheio de carro de polícia aí! Quer morrer?!"
Assim, eu nunca “devi” nada para a polícia e, todavia, me
cagava de medo!
Creio que esse dito é o pior de todos e, depois de uma rápida
análise, podemos identificar a raiz e a síntese do erro na mentalidade das “pessoas
de bem”. A pessoa pode dever algo para um policial, mas como poderemos DEVER
PARA A POLÍCIA? Alguém me explica? Aí está o erro. Ninguém deve nada para a
polícia, senão para a justiça. A sociedade deve ter em mente que a polícia é um
meio para a justiça e não um fim em si mesmo. A polícia não tem o direito de
matar as pessoas. Independentemente do desejo de higienização da elite, não adotamos pena de morte no país. Um policial que mata. Na
minha opinião, não passa de um mero assassino.
Que bom que existe o rap para proporcionar ao jovem uma reflexão sobre os problemas sociais. Quero encerrar este Desabafo com a música homônima de Marcelo D2:
Tu quer a paz, eu quero também,
Mas o estado não tem direito de matar ninguém
Aqui não tem pena de morte, mas segue o pensamento.
O desejo de matar de um Capitão Nascimento
Que, sem treinamento, se mostra incompetente
O cidadão por outro lado se diz impotente, mas
A impotência não é uma escolha também
De assumir a própria responsabilidade, hein?
Que você tem em mente? Se é que tem algo em mente
Porque a bala vai acabar ricocheteando na gente!
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