É provável que isso já tenha acontecido contigo. Ao chegar em casa, ligar a televisão e navegar por alguns canais, encontra uma luta. Boxe, digamos. A luta já começou. Você nunca ouviu falar de nenhum dos competidores. Ambos são estrangeiros e você também não faz a mínima ideia de qual seja a nacionalidade dos lutadores e tampouco te interessa saber. O que importa é que a luta está parelha. Uma luta bastante equilibrada entre o competidor que veste uma bermuda azul e o competidor com uma bermuda vermelha.
Então, você inconscientemente escolhe um lado. Uma escolha embasada pura e simplesmente na simpatia (ou antipatia) que você nutre pela cor da bermuda de um dos atletas. Nada mais. No competidor que veste a sua cor favorita - vermelho ou azul - você projeta tudo o que é bom, inclusive, você! Já no seu rival, você identifica tudo que há de mau - teu inimigo, teu chefe, tua sufocante rotina. Sem meio termo. Um passa a ser Deus e o outro a Regina Casé. É como se, instantaneamente, um houvesse caído do céu e o outro vindo diretamente dos bastidores do Esquenta.
Ressalto que os lutadores são muito equilibrados, possuem praticamente a mesma estatura e, além disso, ambos são patrocinados exatamente pelas mesmas empresas. Os atletas parecem ter, inclusive, a mesma técnica, e utilizar os mesmos golpes, e, como o Boxe não era a sua praia até então, tu não consegue diferenciar muito bem as coisas. E não importa. Porque o que importa é escolher um lado.
Bueno, após uma luta extremamente acirrada, o lutador que você estava apoiando perde por pontos no décimo quinto round ( Reitero que era uma luta apertada). E você, insensível à derrota de seu mais novo (ex-) amigo, continua navegando pelos canais com seu remo a pilhas que te permite navegar desde uma considerável distância do mar.
Uma atitude de escolha arbitrária com critérios tão superficiais que beirem a inexistência, é totalmente compreensível, dado um contexto específico. Como, por exemplo o da luta descrita anteriormente.
No entanto, tenho notado que essa lógica tem se estendido ao campo da política.
Escolhas essas que, diferentemente de uma luta casualmente descoberta depois de minutos a deriva com o remo remoto, deveriam respeitar a critérios rigorosos, análises, pesquisas, leituras, enfim, um processo complexo, individual e contínuo que não deveria se resumir a "cor de uma bermuda". Nesse caso, à sigla de um partido.
É necessário inserir-se no jogo político, além de extremamente importante e saudável para nossa democracia - a qual temos muito o que aprimorar - desde que essa inserção se dê de maneira consciente. E, como a consciência não é um ato instantâneo, senão um movimento, não só podemos como devemos ir tomando consciência ao longo do processo. Esclarecimento obtido por meio de livros, da leitura, da busca de informação e da transformação dessa informação em conhecimento. Existe um enorme abismo conceitual entre Informação e conhecimento. Somos a sociedade da informação, mas estamos longe de ser a sociedade do conhecimento. Política é coisa séria. Ler é essencial. Se informar é indispensável. E, além de tudo, ouvir. Antes de falar é necessário ouvir. Antes de escrever é necessário ler. E logo, pensar por si. Guiar-se sozinho. Já está na hora dos "conscientes de plantãot, os revoltados da revolta revoltosa, tirarem as rodinhas de sua Caloi roxa da Pocahontas. E desfrutarem o vento no rosto.
A sensação desse vento no rosto, conforme me disseram, aplaca confusões como:
Todo mundo que se diz de esquerda :
- Prega o Comunismo.
- Prega o Socialismo.
- É a favor de Nicolás Maduro.
- Almeja a situação da Venezuela. (Digna de piada)
- É totalmente a favor do Regime Cubano.
- É gay.
- Adora fazer abortos.
- Realiza abortos.
- É macumbeiro.
- Ganha dinheiro da Petrobrás. (Exceto, eu. Eu recebo!)
- Envia dinheiro pra Cuba.
- Fuma maconha.
- Faz pronatec.
- É contra a propriedade privada. (Oh deus!)
- É contra a polícia.
- Adotou um vagabundo.
- Acha que o Mensalão não existiu
- Já foi preso.
- Queria que a Cristina Kirschner posasse nua.
- Tem uma Kombi.
- É ateu.
Ou que, todo mundo que se diz de direita:
- É a favor da ditadura.
- Queria que voltasse a Lei Áurea.
- É evangélico.
- É homofóbico.
- Comprou o Kit Impeachment.
- Não sabe escrever Impeachment.
- É bolsonete.
- Usa gel.
- É a favor de privatizar a porra toda.
- Queria se mudar pra Miami.
- Odeia o PT.
- Não sabe o que é PEC.
- Votou no Lasier ou Ana Amélia (Leia-se RBS)
- Não sabe história.
- Defende o Estado Mínimo.
- É moralista.
- É fiscal de cú alheio.
- Não sabe o que é direita.
- É rico. (como bem disse Tim Maia, o Brasil é o país dos pobres de Direita)
- Lê Olavo de Carvalho.
- Usa neologismos criados pela mídia.
- Exerce moralismo repassando correntes no Whats App contra a Novela Babilônia
- Vai a protestos só pela Selfie. #MudandooBraZil
- Escreve Brasil com z.
- Compartilha vídeos do Alexandre Frota
Enfim, sarcasmos à parte (ainda que não partidarizados), está cada vez mais difícil suportar essa bipolarização. Esta guerra. Sem ideologia clara. A batalha do ouvi dizer. E as pessoas compram esses pacotes. Oxalá chegue o dia em que entendam que partido não é time de futebol ou religião e que a escolha não devem ser arbitrárias, pois ao apagar das luzes, os lutadores descem do ringue e quem apanha é você.

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