Eduardo nasceu em um lugar mágico, sua casa abrigava dez pessoas, mesmo não cabendo duas. Não era a única do bairro, todas as casas, seguiam esta mesma linhagem. Big family, small house. Todas as casas eram mágicas. Quando pequeno, vivia recluso dentro de casa, sua casa mágica. Eduardo escondia-se do mundo, mundo real que o olhava com desdém. Sempre na companhia de gibis e brinquedos, que seu irmão mais velho trazia, uma vez que outra, e logo após uma longa discussão com a mãe, sumia novamente por algumas semanas.
Certa vez após uma ligação e um choro copioso de sua mãe, seu irmão nunca mais apareceu. Eduardo apenas ficou sabendo, algum tempo depois, que ele havia morrido exercendo a profissão. Seu irmão era mágico. Eduardo seguiu a mesma profissão do irmão, para o desgosto da mãe, que sempre foi contra as mágicas dos filhos, que desde cedo faziam aparecer coisas, que não lhes pertenciam.
Eduardo não lembra como tornou-se mágico, nem mesmo qual foi a primeira mágica que fez, aliás foram tantas que ficaria quase impossível demarcar um número. Acredita que foi por influência dos amigos, que lhe apresentaram o maravilhoso pó mágico...Ahh o pó fantástico, verdadeiro pó de pirlimpimpim. Fruto de sensações indescritíveis, fugas da realidade que o cerceava, altos voos sentimentais, responsáveis por amenizar os picos emocionais que tanto o afligiam.
Eduardo era famoso, conseguiu grande repercussão logo na adolescência, inclusive capas de jornais e diversos noticiários. Desde cedo, tornou-se um mestre na arte da magia. Era fantástico como conseguia obter exito em seus truques com apenas algumas palavras, que eram super versáteis, pois funcionavam em todos os lugares em que se apresentava. E assim Eduardo conseguia fazer sumir diversas coisas que o interessasse.
Eduardo foi um adolescente tímido e estava imerso em uma depressão profunda. O pó fantástico foi decisivo para que ele se torna-se um mágico. Descobriu que aquele pó branco lhe dava a euforia de viver, o bem estar necessário para nunca mais pensar em suicídio, e elevava seu humor o fazendo rir de coisas simples. Após ver a simplicidade do mundo sempre com um sorriso estampado no rosto, até sua auto-estima melhorava.
O engraçado é que o pó era mágico, e era mágico por si só. A magia não está nos atos do mágico, e sim na interpretação, de tal ato, pelo público que observava atônito às apresentações. Seu público era formado por todo o tipo de pessoas, crentes, ateus, gordos, magros, negros, albinos. E todos admiravam o espetáculo e esboçavam exatamente as mesmas reações.
Como as apresentações aconteciam na maior parte das vezes em instituições públicas, quase exclusivamente bancos, uma e outra lotérica apenas. O público constituía-se de pessoas em filas, apressadas, reclamando, mas que durante a apresentação valorizavam ao máximo suas vidas. O público...ahhhh o público, sempre muito receptivo e respeitoso, prestando atenção a cada palavra de Eduardo. Algumas pessoas se emocionam, principalmente mulheres, a cada palavra mágica que sai da boca de Eduardo, e se debulham em lágrimas.
Eduardo sempre foi autodidata, aprendeu a profissão sem frequentar escola, e sem a ajuda do governo. Tornou-se um mágico bem sucedido devido a seu talento de cativar o público, totalmente predisposto à magia. Eduardo tem a certeza de que a situação atual do país e da educação, ambos com sistemas falidos, contribuirão para que o mundo se torne um circo onde os mágicos propagarão sua magia para retomar o que lhes foi roubado outrora.
Como mágico, Eduardo adentra o palco das instituições sempre com sua ferramenta, não é uma varinha mágica tradicional, mas exerce o mesmo efeito. Garante o sucesso da mágica. Artifício essencial para que o espetáculo seja bem sucedido. Sua ferramenta brilha e é com ela que ele conduz a apresentação e o próprio público. Atualmente as pessoas sabem reconhecer o espetáculo de Eduardo por suas sucintas palavras mágicas....É um assalto, não se movam e sairão todos sem nenhum arranhão.

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