domingo, 29 de maio de 2016

Ustedes son golpistas, sí o qué?

* Texto escrito no dia posterior à votação do processo de Impeachment no senado


Tenho percebido uma enorme recusa dos apoiadores do impeachment em serem chamados de golpistas ao longo de todo o processo. Bradavam, inclusive, a máxima: "Não vai ter golpe, vai ter Impeachment." Ontem, entretanto, ficou difícil sustentar a tese de que esse processo não passa de um golpe. Golpe, no dicionário, significa "medida traiçoeira". Indo mais a fundo o termo "traiçoeira" é relativo à "traição". Diziam, os apoiadores do Impeachment que a presidenta havia cometido um CRIME. "Crime de responsabilidade fiscal", "Pedaladas fiscais", diziam. Assim, foi aberto um processo de Impeachment.
Criou-se uma comissão que, segundo o relatório, analisaria se houve ou não um crime passível de impedimento. A defesa defendeu, a acusação acusou. Ao longo desse tempo, os deputados estudariam o processo e diriam, segundo sua interpretação, se houve ou não o tal "crime" de responsabilidade fiscal. Havendo crime, não se trataria de um golpe: medida traiçoeira arquitetada pelo vice-presidente Michel Temer. Se há crime não há golpe. Ainda que o vice tenha se mantido no cargo após todo o PMDB sair do governo. Ou que, em outras ocasiões, Eduardo Cunha tenha se expressado totalmente contrário ao Impeachment, argumentando que isso não poderia ocorrer porque não somos uma "republiqueta". "NÃO VAI TER GOLPE, VAI TER IMPEACHMENT!", gritavam. Gritavam alto. Gritavam tão alto que não se ouviam uns aos outros.
Chegou a data da votação. Depois do intensivão dos deputados, chega o tão esperado dia da prova. A prova se resume a uma questão dissertativa. Fácil, teoricamente. "Após a leitura do processo de Impeachment, responda se a presidenta cometeu, ou não, crime de responsabilidade. Justifique sua resposta."
Peço para que você leia de novo a questão. As respostas foram "Pela minha mãe que completa 104 anos, eu voto sim"; "Pelo Bruno e pelo Filipe, eu voto sim"; "Pela memória do meu pai, eu voto sim"; "pelos desempregados, eu voto sim"; "pelo meu estado e pela cidadezinha onde nasci, eu voto sim"; "pela minha esposa e pelo povo que foi às ruas, eu voto sim"; "contra a corrupção e pela Bianca que nasceu ontem, meu voto é sim." Alguns, no entanto, poucos, é verdade, responderam ao que pedia a prova: "Não há crime de responsabilidade no processo. E não havendo crime se trata de um golpe."
Nessa prova, foram muito mal os deputados. Não responderam coisa com coisa. Gostaria de fazer uma pequena analogia. O que aconteceu ontem na "Camara de deputados" seria similar aos exemplos que seguirão após os dois pontos: você responder "europeu" quando a moça do caixa fizer a pergunta clássica "crédito ou débito?". Quando o professor de matemática perguntar quanto é 22 x 4, você levantar a mão e soltar o grito do fundo do peito "Predicativo do sujeito". Quando o professor de português perguntar quem é o sujeito de uma frase qualquer e você, ao levantar, com água nos olhos e a voz pausada, gritar "Setenta e seis, senhor professor!" Ou quando vocês pedirem a mão da namorada de vocês, ela olhar pra vocês e gritar "alumínio, alumínio, alumínio e alumínio."
Enfim, foi ridículo. Mas como não há correção, os deputados não voltarão com seus votos cheios de correções em caneta vermelha e tampouco deverão devolver o voto para a câmara com a assinatura da mãe, para que a mãe esteja consciente do que o deputado anda fazendo durante as comissões. Os deputados que fizeram a prova, não serão submetidos a um feedback. Lamentavelmente, eles passarão de ano sem ter estudado a matéria e ficarem apenas fazendo bagunça na sala de aula. Isso é revoltante.
Ainda assim, uma coisa ficou clara. Não há mais espaços para a negativa de um "golpe". Após a votação, ficou claro que não há um processo imparcial e técnico, senão algo difuso, medíocre e sombrio. Bastante sombrio.
Pablo Escobar, no auge de sua carreira, dirigia pelas cidades de Cali com seu primo quando foi parado por um policial. O policial pediu os documentos, Escobar disse que não tinha. O policial solicitou os documentos do veículo, Escobar respondeu que também não tinha. O policial, ao ver muitas armas de grosso calibre no chão do carro disse: "suponho que vocês também não tenham o registro dessas armas. Escobar respondeu que não. Então, com a voz entrecortada o policial perguntou "E eu posso saber porque vocês não portam nenhum documento?"
- "Porque somos bandidos", respondeu Pablo Escobar.
Boquiaberto, o policial pediu para que o traficante seguisse viagem.
Gostaria de encerrar essa reflexão com essa analogia. Não há motivos, não há argumentos e não há crime que justifique a queda de uma presidenta democraticamente eleita. Logo, tenham a hombridade de Pablo Escobar, assumam-se. Assumem que vocês estão levando adiante um golpe. Apoiam um golpe. São golpistas. Apoiam uma traição que o vice, investigado na Lava-Jato e um réu, como presidente da Câmara dos deputados, levam adiante contra uma mulher que sequer foi citada em escândalo algum ou tem seu nome em alguma lista.
Penso no futuro, não saberei explicar essa fase pela qual passa o país. Mas, tirando proveito do meu gosto pela Literatura, quando me perguntarem como esses fatos grotescos se sucederam e uma parte do país deu sustentação para a viabilidade do golpe, explicarei que eu não fazia parte desse grupo e utilizarei uma frase de um personagem do grande Suassuna e, como Xicó, olhando para o chão, direi: "Não sei... só sei que foi assim."

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