Ao conversar com um amigo, pude entender melhor o atual processo de impeachment. Mas a conversa não foi sobre política. Reclamava eu para esse velho amigo a maré de azar pela qual estava passando e que essa mesma maré, na mais recente de suas ondas, havia levado meu notebook. Maldizendo minha falta de sorte, confessei que não teria grana para comprar outro computador. Um olhar de cumplicidade foi seguido do seguinte comentário: "Por que tu não dá uns tapas nele?", perguntou meu amigo. "Em quem?", sussurrei eu, olhando para trás. "No teu notebook. No meu sempre funciona. As vezes ele dá umas travada. Daí dou uns 'tapão' do lado e ele destrava.", disparou meu amigo, convicto enquanto gesticulava com a palma da mão direita.
Naquele momento me veio a síntese do impeachment. O Brasil sendo meu notebook e o impeachment como os tapas. Escreveu Sérgio Buarque de Holanda que o brasileiro segue o bovarismo. Calma, não é 'bolivarianismo'. Escrevi bovarismo. Essa definição representa nossa disposição a esperar o inesperado. Acreditamos que algo possa acontecer e, instantaneamente, melhorar o que não está indo bem. O conceito deriva do clássico romance de Flaubert, chamado "Madame Bovary". Nesse romance francês, a bela Emma Bovary, após ler muitas histórias de amor, fantasia romances que possam servir como fuga para sua vida cinza e também para a sua tediosa relação conjugal.
Tal sentimento é compreensível na lógica do futebol. Inclusive, fui acometido por essa desrazão inúmeras vezes. A última delas foi no último jogo do Grêmio. Acreditava piamente que o Grêmio iria, devido a algum milagre, claro está, anotar três gols no segundo tempo e conseguir a classificação para a próxima fase da Libertadores. Já havia feito até cálculos acompanhado do meu Xis salada. "Se fizer um antes dos 15...", sussurei próximo ao alface. Esse mesmo sentimento maldito foi o que me levou a assistir o jogo contra a Alemanha até o final.
No entanto, creio que essa lógica, se é que podemos chamar de lógica, se torna bastante nociva quando aplicada à política. Não há milagres na política. No futebol, sim. É óbvio que Deus é brasileiro. Mas seu trajeto é bem demarcado. Do estádio pra igreja da igreja pro estádio. Falando nisso, tá mais do que na hora Dele fazer uma visitinha à Arena.
Enfim, é inegável o fato de que o Brasil está travado, porém, não acredito que um tapão resolva nossos problemas. Pelo contrário, temo que entrem vírus que impossibilitem o trabalho do antivírus que nunca havia trabalhado tão bem. Meu amigo dava seus tapas porque a fé dele no destravamento é maior do que o medo do prejuízo. Isso me difere do meu amigo. Hoje, meu medo é muito maior que minha fé. Talvez isso se deva ao fato de ter lido Madame Bovary e saber que ela come arsênico ao não conseguir lidar com os problemas que ela mesma criou... ou não.

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